“A iconografia cristã das virgens e as serpentes/diabos”, por Aurélio Lopes

Os mais ou menos longínquos mitos cosmogónicos que nos chegam das regiões euro-mediterrâneas, refletem aí, predominantemente, as sociedades patriarcais dos últimos séculos antes da Era Cristã. Nestes, a criação do Mundo surge, quase sempre, como resultado de um qualquer confronto entre as forças da ordem e da desordem. Em termos cristãos, entre as forças do Bem e as do Mal.

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Confronto expresso em combates entre os deuses criadores (olímpicos ou asgardianos, por exemplo) e seres primordiais e caóticos como os Titãs na mitologia helénica e os Gigantes do Gelo na mitologia nórdica. Ou, então, em combates singulares em que um herói solar (ou semideus) vence e destrói um monstro do caos (quase sempre uma serpente ou um dragão); originando e ordenando, assim, o Mundo.

É Apolo que mata Pyton a serpente marinha, como marinha é Tiamat que Marduq vence após portentosa contenda. É Siegfrid que derrota Fafnir, Indra que decapita Vrtra ou Târaka; a “serpente marinha adormecida”. É Perseu que corta a cabeça  a Medusa. É Thor que combate Jormungand, a “serpente do mundo”. É Teseu que vence o Minotauro. É Hercules que nos seus doze trabalhos mata a Hidra de Sete cabeças. É Hórus, o Deus/Falcão, que trespassa a cabeça de Tyfon ou do dragão Apófis. É o próprio Yahwé que cria o Universo após a vitória contra o monstro Rahab.

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Numa mitologia mais próxima, é São Miguel que luta com o Dragão do Apocalipse. É, o ainda hoje persistente, São Jorge e a “Serpe”. Na realidade todas estas criaturas, monstruosas e primordiais, constituem, na sua origem, os princípios turbulentos e agitados do caos, postos em ordem pelos deuses solares.

Para trás ficaram, entretanto, as divindades femininas: Grandes Mães e Grandes Deusas. Mais ou menos panteístas que, com a terra, grávida de vida, se identificaram durante milénios; enquanto matrizes primordiais, numa existência perene e regenerada.

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Identificadas, ainda, com os tempos ciclos e renováveis. Que não careciam de episódios violentos de rotura (como os interpretados pelos deuses masculinos) próprios, afinal, da historização da existência, feita de inícios únicos e absolutos. E, de fins, igualmente absolutos e apocalíticos.

E se o potencial feminino de virgindade constitui condição necessária de um desígnio   enérgico e marcial, também as virgens se transformam em insuperáveis caçadoras como Artemisa ou Diana ou, com mais frequência, em guerreiras como a helénica Atena, a hindu Durga, a escandinava Freya, a céltica Epona, a suméria Inana, a babilónica Ishtar ou, até, Joana d’Arc, de uma mitologia cristã bem mais recente.

Contudo, estas não surgem, em termos míticos, combatendo os tais monstros primevos, num qualquer ato de criação primordial.

Do mesmo modo, antigas persistências cultuais femininas (hoje cristianizadas e sobrevivendo, sincreticamente e Vestigialmente, nas mitologias populares europeias) surgem, do fundo dos tempos, como entidades cuja relação com as tais criaturas do caos assume carateres e perspetivas claramente solidárias.

À semelhança de Santa Bárbara, Santa Margarida ou Santa Catarina (entre outras) que, desde logo na iconografia cristã mediterrânea, se apresentam como virgens que conduzem, amansam ou dominam dragões ou serpentes.

Algo que encontramos igualmente entre nós, embora naturalmente de forma degenerada, na relação de cumplicidade, quase simbiótica, verificada entre as mulheres e as serpentes; que a tradição popular consagra e se perpetua num fértil e peculiar imaginário.

Neste contexto, a hermenêutica da iconografia da Virgem Maria em que esta surge pisando entidades serpentiformes em muitas “imagens” marianas, expressa sim, afinal, as consequências pictóricas do conhecido Castigo Divino (face à Desobediência no Paraíso) em que Deus ordenará a inimizade entre a mulher e a serpente dizendo: “E ela te pisará a cabeça”.

Ordenação que, como vimos, pouca influência tem na tradição popular portuguesa; ontem como hoje. Bem pelo contrário.

Mas se manifesta, naturalmente, nas iconografias canónicas ou por esta influenciadas.

E é o culminar do processo de diabolização da Serpente, consequência, da “Mitologia da Queda” que o doutrinário institucional enforma (e da qual encontramos, muitas vezes, fases intermédias expressas em figuras icónicas meios diabos/meios serpentes) que explica as mais canónicas “imagens” marianas em que a Virgem espeta ou ameaça espetar uma lança nas, agora transfiguradas, serpentes/diabos ou, já definitivamente, diabos.

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