“A grande riqueza de se ser diferente”, Hália Santos

Os últimos anos têm-nos feito pensar em muitas coisas que são completamente novas para a maioria das pessoas. Essa é uma das coisas que me faz gostar de viver nestes tempos. Gosto de ser confrontada com novas situações, com novas formas de vida, com novas formas de pensar. É muito interessante a forma como damos por nós a mudar de opinião em função daquilo que vamos vivendo.

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E porque andas tu a pensar nessas coisas?

Porque vi umas notícias sobre a próxima capa da revista National Geographic, com uma criança transexual. É mesmo muito importante qua os média marquem posição nestes assuntos que sempre existiram, mas que agora ganham outra força porque se fala deles com mais abertura.

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Mas tens consciência de que foi um risco grande, uma revista como a National Geographic publicar uma foto de um rapaz que se sente rapariga e se apresenta como tal? Certamente que percebes que se trata de uma imagem que ainda causa algum desconforto em muitas pessoas…

Claro que percebo! Até receberam mensagens de leitores a dizer que iam cancelar as assinaturas por causa desta capa. Mas é nestes temas fraturantes que os média têm um papel indiscutível. Não só na divulgação dos temas, como na abordagem dos temas. Tudo pode ser tratado jornalisticamente, com clareza, com respeito pelos protagonistas das estórias e com respeito pelos consumidores de informação. Esse papel que a comunicação social tem no sentido de formar as pessoas é mesmo a sua função mais nobre, para além do papel de vigilância, claro.

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Verdade! Já lá vai o tempo em que as pessoas que se sentiam diferentes tinham que viver com essa diferença escondida, achando que tinham algum problema porque não se encaixavam nos padrões, que fugiam da norma.

Sempre me fez muita confusão essa coisa de padronizar, de tentar normalizar, de tentar encaixar as pessoas e os seus comportamentos em categorias estanques. Os últimos tempos têm-nos mostrado que há tanta diversidade, que a individualidade de cada um de nós é a maior riqueza que temos. É tão bom descobrir coisas novas e diferentes nos outros e até em nós. Não consigo mesmo perceber as pessoas que são relutantes à diferença, que nem sequer se dão ao trabalho de tentar perceber que ser diferente não é ser anormal.

Depende muito dos meios em que as pessoas cresceram e da forma como contactaram com essa mesma diferença. Em muitas comunidades as pessoas ainda só são bem vistas se tiverem um certo tipo de comportamento, se fizerem aquilo que delas se espera. Dos rapazes espera-se que gostem de jogar à bola e pobre do rapaz que não goste. Das raparigas espera-se que gostem de bonecas e pobre da rapariga que não goste…

Engraçado, hoje a minha filha perguntou-se qual foi a prenda de Natal de que mais gostei quando era criança… Sabes qual foi?

Uma boneca?

Não, uma pista de automóveis. Há quase 40 anos, eu, rapariga pequenina, recebi uma pista de automóveis que adorei. E ninguém achou estranho. Não era uma menina diferente das outras nem fui uma mulher diferente das outras. Mas o simples facto de poder exprimir os meus gostos fora da norma fizeram de mim uma pessoa diferente. Gostava que muito mais pessoas pudessem ter tido este tipo de educação para hoje serem mais tolerantes. Porque não é aceitável que quem não encaixa nos padrões definidos pela maioria tenha que sofrer por causa da incompreensão dos outros.

Sim, é assustadora a ideia de que muitas dessas pessoas sejam vítimas de bullying e que parte delas encarem o suicídio como solução para o sofrimento.

Mais uma vez, o papel dos média é fundamental. A National Geographic fez muito bem em falar de crianças e jovens transgéneros porque estão a cumprir uma importante função social. A revista está envolvida numa grande polémica, mas está a gerir a discussão com extrema calma e inteligência. No fundo, estão a fazer o que sempre fizeram: investigar, analisar e explicar aspetos da vida da humanidade e da evolução do mundo em geral.

Já vi que as reações são aos milhares, desde a excitação, ao horror, passando pela preocupação e terminando na gratidão. É incrível como o mesmo tema, com a mesma abordagem, pode gerar reações tão distintas. Somo mesmo muito diferentes…

Ainda bem! Essa é mesmo a nossa maior riqueza: ser diferente!

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