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“A Fonte do Ribeiro”, por Berta Silva Lopes

Acabo de chegar do minimercado do bairro com dois sacos de compras na mão. Trouxe fruta, dois queijos frescos e um curado (da Soalheira), pão de Carnide, uma garrafa de tinto Quinta De La Rosa que estava em promoção, amaciador para a roupa, uma embalagem de guardanapos e beijos para as meninas.  

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O recado é do Senhor Fernando, mas a Céu também perguntou por elas. É rara a vez que não perguntem, na verdade, e eu sei que não é apenas por cortesia. Essa é uma das razões por que continuo a fazer ali boa parte das compras do dia a dia, e a outra é porque toda a fruta e legumes vêm diretamente de produtores locais, de norte a sul do país, sempre frescos e apetitosos. 

Comove-me este cuidado com as minhas filhas, a atenção com que me tratam a mim e aos restantes clientes, a preocupação genuína com quem fica alguns dias sem aparecer, as recomendações atuais para que tenhamos cuidados redobrados nestes tempos de medo e incerteza.

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Dentro do saco veio também uma barra de sabão Clarim, tal qual as que a minha avó usava há mais de trinta anos quando ainda lavava a roupa à mão no riacho do Porto d’ Horta ou na poça maior do Ribeiro grande. Tenho dela uma fotografia linda, de galochas e lenço na cabeça, provavelmente tirada poucos meses após a trágica e inesperada morte do Tio Luís, a lavar fraldas sobre os lavadouros improvisados. 

Apesar da perda recente do genro, a minha avó está a sorrir, e parece genuinamente feliz. É esse o grande desígnio dos netos: apaziguar as mágoas dos avós, dar-lhes novos motivos de alegria, devolvendo-lhes tantas vezes alguma fé na humanidade. 

Na foto, atrás da minha avó, várias fraldas coram ao sol ali à volta. Junto dela está um grande alguidar verde, da cor da esperança e das ervas que crescem viçosas ao seu redor. Talvez fosse março, ou primavera já, a julgar pelos pampilhos que espreitam ao fundo. 

A última vez que percorri o carreiro até à Fonte, uns metros abaixo do lugar onde antigamente as mulheres lavavam a roupa, ainda não vi sinais da nova estação, só das enxurradas da última invernia, destroços da natureza empurrados com fúria por entre e sobre as margens do ribeiro da minha aldeia. 

A Maria Marques já lá tinha ido retirar alguma coisa, contou-me ela, os paus maiores e a vegetação que ficara presa aqui e ali e não tardaria a começar a apodrecer. O ano passado a empreitada foi maior quando decidiu limpar a Fonte de Mergulho, resgatá-la ao abandono de tantos anos e ao desprezo de quem deixou de ver nela qualquer serventia. 

Fê-lo por iniciativa própria, de boa vontade e sem contar com qualquer recompensa além de ver o espaço cuidado. Tal como me sensibiliza o carinho do Senhor Fernando, talvez porque ele me faz lembrar as pessoas mais generosas da minha aldeia, também me toca esta bondade desinteressada, feita tão só de um punhado de horas e altruísmo quanto baste.

Este ano já um grupo de malta se organizou para cuidar da outra: limpar e caiar a Fonte do Ribeiro, restituir-lhe a dignidade e a beleza que tempo lhe roubou. A Maria Marques, eterna guardiã das duas fontes, foi a primeira a disponibilizar-se, segundo sei. Mas há mais quem se tenha oferecido. 

É por isso que nunca me canso de falar da minha aldeia nem da minha gente, pessoas que se organizam e que fazem, sempre sem esperar nada em troca. Que orgulho tenho desta forma de ser. Brindo a todas elas, a quem dedico esta esta crónica, com o tinto do Douro. Haja saúde.

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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