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Sábado, Maio 8, 2021

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“A exaltação dos detalhes (I)”, por José Rafael Nascimento

“Os detalhes importam, vale a pena esperar para acertar.”
– Steve Jobs

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Não há meio termo. Ou “o segredo está nos detalhes” ou “não interessam os detalhes”. Dito por outras palavras, ou se dá importância e atenção aos detalhes – onde Deus reside – ou não se dá – e é onde o Diabo nos faz a cama. Em matéria de detalhes, não há fé nem ateísmo, apenas cuidado ou desleixo.

No seu livro Detalhes, Marcel Cohen oferece-nos “notas sobre a importância do desimportante”, afirmando que a expressão “o Diabo está nos detalhes” é atribuída a Nietzsche enquanto a de que “Deus está nos detalhes” (representando Deus a perfeição e a rectidão) será uma interpretação da Parasha Mishpatim, uma das 54 secções da Bíblia hebraica, lida anualmente (na íntegra) em todas as sinagogas.

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Entre muitas descrições, Cohen conta a história do casal Cadoret (ele pintor e ela médica judia) que, em 1943, pretendendo fugir da Paris ocupada pelos nazis, vão a casa do suposto cirurgião Petiot, a fim de que este lhes entregue os prometidos passaportes falsos e passagens com que viajariam para a América do Sul, tendo-lhes anteriormente recomendado que escondessem o dinheiro e as jóias no forro dos casacos.

Durante o encontro, aproveitando uma breve ausência de Petiot, a Drª Cadoret agarra na mão do perplexo marido e diz-lhe para fugirem. Ela tinha reparado que as unhas de Petiot estavam negras, o que era impróprio de um cirurgião, mesmo retirado da profissão. Soube-se posteriormente que 27 pessoas haviam sido roubadas e assassinadas pelo falso médico, o qual as incinerava num forno a carvão anexo ao consultório.

Marcel Cohen © Jean-Luc Bertini

Noutra descrição, Cohen conta um episódio em que Robert Antelme, autor de A Espécie Humana e sobrevivente do Holocausto, estava numa esplanada com um jornalista a quem havia opinado, dias antes, que “cabe a cada um mudar as pequenas coisas ao seu alcance”. Aconteceu que o empregado de mesa deixou cair uma das colheres de café e apressou-se a ir buscar outra, não chegando a escutar as palavras do escritor “Não é preciso, eu tomo sempre o café sem açúcar!”.

Quando o empregado regressou, Antelme pegou na colher, pôs açúcar no café e mexeu ostensivamente. Admirado, o jornalista comentou: “Eu pensei que você tomasse sempre o café sem açúcar.” Ao que o escritor respondeu: “É verdade, mas não quero que o empregado pense que se esforçou desnecessariamente.”

O ensaísta Michaël de Saint Cheron referiu-se recentemente a Marcel Cohen, em Le Nouvel Observateur (L’Obs), como “o escritor e poeta do minúsculo, do imponderável, do negligenciável, do nada e do tudo, o qual empreendeu nos anos de 1980 uma obra sem equivalente na nossa língua, na fronteira entre a metafísica e os pequenos nadas da vida”.

É preciso que se diga que a percepção dos detalhes pode e deve ser treinada. Privilegiando eu a visão holística e sendo péssimo observador dos detalhes, descobri no hobby da fotografia o treino que precisava para dar mais atenção aos pormenores. Mas outros exercícios são possíveis, nomeadamente no âmbito do mindfulness, como o da percepção de uma passa de uva (pode experimentar com outra coisa qualquer, como o seu relógio, uma folha de árvore ou uma tampa de saneamento público; nem imagina a informação que vai obter!).

Seguindo o roteiro sugerido por Jonne Frankena na plataforma aberta Medium, explore durante 10 minutos os seus cinco sentidos, buscando os mais ínfimos pormenores. Não se vislumbra tarefa fácil pois, aparentemente, não haverá muito a explorar em algo tão pequeno. Mas, lançando-se à tarefa, notará fendas que se parecem com vales e montanhas, verá o brilho dourado da luz do sol reflectida na cor escura e sentirá a textura suavemente resistente aos seus dedos enquanto a aperta junto ao ouvido para escutar o som que faz.

Em seguida, cheirá-la-á profundamente e experimentará um aroma doce que evocará degustações vínicas passadas. Depois, colocá-la-á na boca e massajá-la-á com a língua lentamente, até que a mastigará, libertando os seus contidos e secretos sabores. Finalmente, já não resistindo à urgência do clímax palatal, engoli-la-á de um trago, pondo termo a um sofrido e tântrico prazer.

Quantos estímulos podemos encontrar numa simples passa de uva quando prestamos a máxima atenção a todos os detalhes, usando os nossos cinco sentidos?

Por que não seguimos sempre idêntico roteiro na percepção da realidade circundante? Simplesmente porque seria impossível viver se o fizéssemos, isto é, para prestarmos toda a atenção e processarmos toda a informação relativa a um determinado objecto ou estímulo, teríamos de deixar de atender a todos os outros, o que se revelaria perigoso e, até, fatal. Assim, apenas poderemos melhorar ou optimizar a atenção focal (ou convergente), não prescindindo da atenção periférica (ou divergente) que ficar disponível.

Percepcionamos o mundo complexo categorizando-o e simplificando-o em classes mais ou menos gerais, as quais jamais serão perfeitamente homogéneas, uma vez que não existem dois seres absolutamente iguais (nem sequer as duas metades de nós). Temos necessidade de identificar e significar rapidamente os estímulos que espontaneamente nos tocam ou intensamente buscamos, o que não se compadece com a compreensão ou experienciação de mais do que alguns (poucos) detalhes.

O que percepcionamos é, sobretudo, o significado contextual dos objectos, numa perspectiva primária e instantânea de “lutar ou fugir” (fight-or-flight), isto é, de identificar uma ameaça ou oportunidade. As expectativas desempenham aqui um papel essencial: se a primeira impressão é expectável, não investimos muitos recursos perceptivos (de atenção, organização e compreensão); mas, se fica aquém ou além do que se espera, ocorre infirmação da expectativa, seguida de surpresa, percepção da maior quantidade possível de detalhes e, finalmente, sentimentos e reacções, negativas ou positivas.

Não deixa de ser interessante que os grandes líderes e gestores de topo, tendo de lidar com a realidade global e holística das suas organizações, e respectivos contextos, também prestem atenção aos detalhes. Steve Jobs (Apple) ligou num Domingo de manhã a Vic Gundotra, então responsável pelo Google+, para lhe dizer que “o gradiente amarelo do segundo ‘O’ do logótipo da Google no iPhone não estava correcto, o que o deixava preocupado”. Para Gundotra, Jobs deu-lhe uma lição de liderança e de atenção apaixonada pelos detalhes.

São também de Jobs outros episódios deliciosos, relacionados ou não directamente com os produtos da Apple. Ele tinha uma verdadeira obsessão pelos detalhes, incluindo os que diziam respeito ao design, qualidade que parece ter aprendido com o seu pai. Este recomendava-lhe frequentemente que procurasse fazer bem as coisas, mesmo aquilo que não se via (como o interior de um computador). Os 2.000 tons de bege sugeridos pelo parceiro fabricante do Macintosh, por exemplo, não foram suficientes para satisfazer Steve Jobs, levando-o a criar o seu próprio tom. E, já no fim da vida, no leito do hospital, protestou contra o design da máscara e do monitor de oxigénio, exigindo outro modelo da primeira e sugerindo alterações na concepção do segundo.

(continua)

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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