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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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“A estrela da Sorte”, por José Rafael Nascimento

“Audaces fortuna juvat” (A sorte favorece os audazes)
Virgílio, in Eneida

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Sendo esta a minha última crónica do ano e estando já as famílias em modo festivo-natalício, havia que escolher um tema adequado ao espírito da época e, naturalmente, à motivação que me faz escrever aqui quinzenalmente: partilhar com todos vós a pequena porção de conhecimento que julgo ter adquirido na vida, esperando que vos seja útil.

A escolha recaiu sobre a Sorte e a estrelinha que a orienta. Não por acaso, é de estrelas que mais se fala em cada final de ano: A de Belém – ou de Natal – que anuncia o nascimento de Jesus, a que representa cada um dos nossos que partiu para o Céu, a que desperta a curiosidade e o estudo dos astrónomos e, não menos importante, a de que precisamos para, com Sorte, cumprirmos as resoluções que tomamos para o Ano Novo.

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A estrela de Belém pode, na verdade, não ter sido uma estrela, mas sim um “astro” ou “sinal do Céu”, i.e. um objecto ou fenómeno celeste (tal como a da Sorte será mais um trevo de quatro folhas do que uma estrelinha…). De acordo com os astrónomos Rui Agostinho e Máximo Ferreira, “astro era o que as línguas antigas utilizavam genericamente para indicar o que estava nos céus” e, neste caso, teria o significado de “luz que orienta ou que serve de guia”.

De guia servem também os conselhos e, sobretudo, o exemplo daqueles que nos inspiraram em vida, orientando as nossas escolhas e dando-nos confiança e força para as realizarmos. Esta é uma condição da Sorte que precisamos em todos os domínios da nossa vida: nós próprios, a família e os amigos; o estudo, o trabalho e o lazer; o consumo material, hedónico e espiritual; etc.

A Sorte tanto pode ser uma epifania – uma luz que se acende num ápice –, como uma alvorada – um novo dia que nasce lentamente. Imagem: John Barton

Outras condições ou pressupostos da Sorte passam pela vontade ou determinação de querer tê-la, dando-lhe oportunidades para que aconteça. Mas, para que isso se verifique, é preciso acreditar que a Sorte existe e está ao alcance de todos. Por outras palavras, a Sorte é uma probabilidade que requer oportunidades, aceitando que o equilíbrio é preferível à perfeição. E não, não se nasce sortudo ou azarento, é a vida que geralmente determina a Sorte ou o Azar que temos.

Mas, afinal, a Sorte é fruto de quê? Que tipos de Sorte existem? Desde logo, ela pode acontecer por um acaso fortuito, uma ínfima probabilidade ou aparente impossibilidade, uma raridade excêntrica que, incrivelmente, faz acontecer. Depois, ninguém o negará, quanto mais se tentar, mais se alcançará. Assim, a Sorte será também fruto da tentativa repetida, de acreditar e de fazer, de estar presente e insistir, sem esmorecer nem desistir.

Ouve-se, com frequência, que “a Sorte dá muito trabalho”. Aqui está outro tipo de Sorte, aquela que é fruto da ambição legítima e do trabalho árduo e rigoroso, do esforço e do sacrifício, da criatividade e do risco, com método, qualidade, exigência e precisão. Finalmente, sendo nós seres sociais, não se pode ignorar que a Sorte também é fruto da interacção e influência social, da credibilidade, entusiasmo e confiança que demonstramos aos outros, fazendo-os acreditar e confiar mais em nós.

Questão metafórica: Afogar-se nos problemas ou boiar nadando à superfície dos desafios e mergulhando nas oportunidades que a vida constantemente propicia, procurando alcançar “portos seguros” e “ilhas paradisíacas”? Imagem: fonte desconhecida

Despertei para este tema há cerca de quinze anos quando li o livro “The Luck Factor” (2003), da autoria de Richard Wiseman, professor da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, o qual realizou uma investigação séria sobre os factores de personalidade que explicam a verificação da Sorte e distinguem os sortudos dos azarentos, aos quais se costuma genericamente chamar atitude positiva.

Ao contrário de abordagens não-científicas (como é o caso de “O Segredo”) que nunca me interessaram, este levou-me a aprofundar e desenvolver o tema, divulgando-o em acções de formação que designei por “A Sorte ao alcance de todos”. Nelas, operacionalizo estes treze princípios que sustentam a Sorte, cada um deles requerendo um conjunto de atitudes e comportamentos que favorecem a sua ocorrência:

  1. Acreditar que a sorte existe e é para todos;
  2. Assumir uma atitude positiva e construtiva;
  3. Manter-se alinhado com a realidade;
  4. Conciliar os interesses e os valores;
  5. Adoptar uma postura desinibida e bem-disposta;
  6. Diversificar a rede social e confiar mais;
  7. Aproveitar melhor o tempo e as oportunidades;
  8. Abrir-se a novas ideias e experiências;
  9. Desenvolver múltiplas competências;
  10. Valorizar a intuição e a inspiração;
  11. Evitar que o azar ocorra ou se repita;
  12. Desdramatizar e ver o lado positivo do azar;
  13. Ser corajoso, persistente e resiliente.

Ao já referido livro, juntei outras leituras e fontes de aprendizagem que reforçam a ideia de que os factores determinantes da Sorte residem mais dentro, do que fora de cada um de nós. Assim o comprova também a teoria psicológica do locus de controlo (interno ou externo) – a avaliação ou sentimento que cada indivíduo tem de que controla (muito ou pouco, respectivamente) aquilo que lhe acontece. 

O arsenal de amuletos de Gastão, o “pato mais sortudo do mundo” mas que falha completamente no amor e nas relações anatídeas, por lhe faltar inteligência emocional e competência social. Fonte: fragmento de imagem da Editora Abril

Curiosamente, este conceito proposto por Julian Rotter (1966) coloca a Sorte no locus de controlo externo, ao contrário do que prova a investigação de Richard Wiseman (julgo dever-se apenas a uma diferença semântica). Também Fernando Pessoa se referiu a esta perspectiva na sua obra “A Evolução do Comércio” (1926), tendo então afirmado que “cada homem, desde que sai da nebulosa da infância e da adolescência, é em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo”.

O poeta extrapolava este pensamento da psicologia individual para a colectiva, defendendo que “uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente”. E questionava: “Se temos, pois, a liberdade de escolha, por que não escolher a atitude mental que nos é mais favorável, em vez daquela que nos é menos?”.

A Sorte, como antes referi, não é mais do que “uma probabilidade à qual se deve dar toda a oportunidade”. Que cada um assuma, pois, em 2020, um compromisso de vida com a Sorte, pondo em prática os trezes princípios que acima enunciei. Votos de um Feliz Natal e de um Próspero Ano Novo para todos, com este único e omnipotente desejo ou resolução: “Boa Sorte!”.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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