“A espionagem militar, a construção naval e o papel ancestral de Paio de Pele (Praia do Ribatejo) na história de Portugal”, por Fernando Freire

Fortificação de Paio de Pele – Arquivo do Regimento de Engenharia n.º 1

“Junto à Vila de Punhete – nome derivado da pugna, e guerra, que o soberbo Zêzere faz ao caudaloso Tejo com as suas soberbas, e impetuosas correntes, e a quem os antigos por esta causa lhe chamarão Pugna Tagi, de donde se derivou o nome de Punhete àquela Vila – se vê situada entre estes dois referidos rios a limitada Vila de Paio Pele (…) Não me confiou em que tempo os Reis enobreceram esta limitada povoação com o título de Vila. Podia bem ser, fosse El Rei Dom João o Terceiro; porque ele foi o que fez Vila o lugar das Pias, e feria para maior autoridade daquela Prelazia. Fica esta Vila situada ao Sul da Vila de Tomar, em distancia de três léguas, em as ribeiras do Tejo, e pela mesma parte do Sul a divide uma ribeira, da Vila de Tancos”. (1)*

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Desconhecemos a origem do topónimo “Paio de Pele” mas o mesmo oferece origem a mistério e incontáveis narrativas.

O nome de “Paio de Pele” poderá estar relacionado com a Ordem do Templo e “Pele” tem o significado de castelo ou torre. Se a isto juntarmos que era possível navegar do mar pelo Tejo e Zêzere acima, e entrar pelo Nabão; que os templários perseguidos por Filipe IV de França “O Belo”, num processo iniciado em 13 de outubro de 1307, que culminou com a extinção da Ordem; que muitos desses templários fogem para Portugal; que o território de Paio de Pele tinha dois castelos, o do Zêzere e o de Almourol; havemos abundante investigação e especulação!

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Recordo que o processo templário em Portugal teve um fim bem curioso. O rei D. Dinis aproveita a oportunidade para manter os cavaleiros e os bens da Ordem do Templo sob o nome de uma nova ordem: a renovada Ordem de Cristo, que absorveu os bens materiais, mas, essencialmente, todo o conhecimento e ciência proveniente da Ordem do Templo. Ou seja, os grandes bens e rendimentos da Ordem do Templo e depois de Cristo, convém não ocultar, foram utilmente empregados em serviço e glória de Portugal, sobretudo no projeto da conquista do Norte de África e expansão marítima.

A primitiva região de Paio de Pele, até ao século XVI, segundo o Prof. José Alves Dias (2)* localizar-se-ia junto do castelo do Zêzere. O castelo fora doado à Ordem do Templo para reconstrução em 1151, seguindo-se a torre em Constância, em 1158. Doação que tinha em vista a defesa dos vales dos rios Zêzere, Nabão e Tejo essencialmente devido à sua riqueza agrícola e florestal.

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Na bula de Adriano IV, Papa de 1154 a 1159, consta que os templários fundaram os castelos de Tomar, Zêzere e Almourol.

Antiga muralha do Castelo do Zêzere, lado nascente, ano de 1994 (3)*

O castelo situava-se num morro da margem direita junto da foz do Zêzere, onde se situa o atual cemitério da Praia do Ribatejo.

A população deslocar-se-ia para a atual Praia do Ribatejo, provavelmente, no século XVI ou XVII uma vez que segundo o mesmo autor a Praia não “passava de um pequeno casal agrícola com apenas 3 casas no século XVI”.

O nome de Paio de Pele surge pela primeira vez no mais antigo catecismo português num dos Códices Alcobacenses, códice 244 (final século XIV início século XV), da autoria de Frei Zacarias de Payopelle, monge do Real Mosteiro de Alcobaça. O mesmo topónimo surge, posteriormente, em 1519, no foral de D. Manuel I.

Durante a fase da reconquista a importância estratégica de Paio de Pele foi, pois, fundamental para os templários e para Portugal. E na época da conquista do norte de África e dos descobrimentos terá um papel fulcral como vos vou narrar.

Compulsando os arquivos verificamos que são parcos os documentais para este território durante o século XV e XVI.

Porque será?

Duas hipóteses se colocam: ou porque era irrelevante “ou limitada” parafraseando Frei Agostinho de Santa Maria, ou porque não era referenciada com dolo para ocultar a informação inteligente, mormente aos rivais dos reinos vizinhos aquando da conquista do norte de África e da consequente expansão marítima.

Investiguemos esta segunda hipótese:

Castelo de Almourol em Paio de Pele, ano 1868 – Arquivo Municipal de Vila Nova da Barquinha

D. Fernando de Aragão, como “soberano bem-avisado”, enviara para Lisboa, Ruy Dias de Vega, embaixador-espião, com a missão de saber qual a composição e destino da frota portuguesa. Sabemo-lo através das cartas que este enviou ao rei de Aragão. Nestas missivas, Ruy Dias de Vega dá conta da construção de engenhos de ataque e de proteção em Santarém (no rio Zêzere), do tamanho da frota, da sua composição e do número de efetivos. (4)*

Os espiões ou informadores na idade Média, como em todas as épocas, são peças fundamentais para o sucesso de uma guerra ou de uma operação militar ou económica.

A conquista de Ceuta era peça chave na estratégia portuguesa. Ruy Dias de Vega foi um dos muitos espiões-embaixadores e no seu relatório enumera os barcos que compunham a expedição, a sua tonelagem, proveniência, equipagem, soldo bem como dos mexericos que corriam no país a propósito do seu futuro destino, “contra o reino da Sicília, dizia-se …”.

O arrojado espião ofereceu-se para queimar a frota, se necessário fosse ao interesse do seu soberano.

Dizia então o relatório do espião de 23 de Abril de 1415 “EI Prior et los maestres mandan fazer senhas galeotas de sesenta rremos cada una, saluo el maestre de Santyago. Et fazenlas en el rryo de Sesar [Zêzere] que es cerça de Punete [Punhete – Constância], et entra en Tajo aquel rrio a syete leguas de Santareno [Santarém] Et ellos estan todos en sus tierras, adereçando pela la partyda, que na todos de partyr con el rey.” 5*

Certo é que pesquisas recentes situam o cais de construção das primeiras galeotas na margem direita do Zêzere, perto do lugar de Cafuz, Praia do Ribatejo.

Carta do real arquivo militar, ano de 1829

Mas, questiona-se, naquele tempo a navegação fazia-se tão acima do Tejo e entrava pelo Zêzere e Nabão adentro?

A resposta é positiva e inequívoca. As quantidades das massas de água atuais nada a têm a ver com as de antanho.  Por outro lado, as madeiras, matéria fundamental para a construção naval, podiam navegar rio abaixo (Zêzere) como foi tradição até início do Séc. XX.

A floresta junto do rio Zêzere, na minha terra natal, Oleiros, era em 1756 composta por carvalhos, castanheiros selvagens e alguns outras espécies de árvores.

A criação de barragens eliminou a circulação de madeiras e mercadorias via fluvial e reduziu, drasticamente, as massas de água diárias a jusante.

Vejamos o quadro infra sobre Punhete, Asseiceira (já no rio Nabão) e Carvoeira. Lobrigamos um entreposto com elevado número de embarcações, no total de 120, para o ano de 1522. (6*).

Ou então este relato de 1530 (7)*

Em síntese, temos o rio navegável a entrar pelo Nabão (rio de Tomar) adentro e muito perto da sede, e escola, da Ordem de Cristo, situada em Tomar, sabendo que grande parte do estudo e da meditação do Infante D. Henrique e dos seus colaboradores, teria sido feito no Convento de Cristo, que esteve sobre a sua administração de 1420 a 1460.

Importa, nesta crónica, chamar à colação que um dos primeiros descobridores oficiais ao serviço do Infante Dom Henrique e da Ordem de Cristo foi Frei Gonçalo Velho, Comendador de Almourol (território de Paio de Pele) e da Cardiga.

Frei Gonçalo Velho, Baixo relevo da Quinta Cardiga. Foto de Fernando Freire

Como sabemos existia uma ligação muito “íntima” da Ordem de Cristo, proprietária da Quinta da Cardiga, ao projeto descobrimentos.

Frei Gonçalo, segundo os historiadores, era um homem audaz e desprezava a superstição de terror que, à data, se abatia sobre os oceanos, fundamentalmente, nos cabos Bojador e da Boa Esperança onde belzebus vagueavam no imaginário das tripulações, existiam tentadoras princesas mouramas enfeitiçadas cobertas de oiro, grutas com o mesmo metal e pedras preciosos. Todos estas cogitações pululavam na vox populi de antanho numa mística nunca antes atingida.

Foi neste ambiente de lendas, de mistério, de encanto e busca do desconhecido que os homens da nossa região partiram para as descobertas.

Naqueles tempos as lendas iam desde a imobilidade dos mares, das quilhas que se prendiam até à infestação de mostrengos de toda a espécie, que na mensagem de Fernando Pessoa, foram convertidos em “tetos negros do fim do mundo”.

Construção da Barragem de Castelo de Bode, ano de 1949

Mas, o Comendador de Almourol, Frei Gonçalo, era um homem com poder e corajoso.  Rumou sempre mais adiante. Conta-se que “… no ano do Senhor, de 1431, reinando em Portugal El-rei D. João de Boa Memória, decima em numero e primeiro de nome, tendo o dito Infante, (D. Henrique) em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavalheiro chamado Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do Castelo de Almourol, que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem por sua virtude grande esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou descobrir as ilhas dos Açores, a Ilha de Santa Maria, ou também, porventura a de S. Miguel: o qual, aparelhando um navio com as coisas necessárias para sua viagem, partiu no dito ano da vila de Sagres e navegando com prospero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação, teve vista de uns penedos que estão sobre o mar, e se vêm de Maria, e de uns marrulhos que fazem outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos – Formigas – nome imposto por ele … e se tornou ao Algarve… no ano seguinte 1432 tornou o infante . . . a mandar o mesmo frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento, que passasse além das Formigas … O qual Gonçalo Velho tornando a fazer esta viagem… houve vista de Ilha em dia de Ascensão da Nossa Senhora, 15 de Agosto de… 1432, que é o ano em que se achou a Ilha de Santa Maria…” (8)*

Toda a nação colaborou no nosso maior empreendimento, os descobrimentos portugueses, mas estes só foram possíveis graças às pessoas, aos meios e às técnicas de navegação.

As primeiras viagens foram feitas em galeotas e só mais tarde, já com navios mais robustos e capazes de navegar com ventos contrários, as caravelas.

Mas se há alguém proeminente é Gonçalo Velho, comendador do castelo de Almourol (Paio de Pele) e da Quinta da Cardiga, corajoso cavaleiro da Ordem de Cristo, egrégio companheiro do Infante Dom Henrique que construiu as galeotas na sua comenda junto do rio Zêzere perto do lugar de Cafuz (Paio de Pele) e daqui levou as nossas gentes para esta colossal epopeia, a expansão ultramarina.

O tombo da Comenda da Cardiga de 1504 9, refere que a Comenda tem uma igreja paroquial de invocação de Nossa Senhora Santa Maria do Zêzere “e está sobre o Zêzere junto do castelo que se chama do Zêzere”. Mais adiante refere a mesma obra: “junto da dita igreja, tem a Ordem um castelo que esta muito danificado, e a maior parte dele derrubado por terra…”.

Podemos concluir que depois da reconquista e lançada a epopeia dos descobrimentos o papel de Paio de Pele na história de Portugal passa a ser desvalorizado, bem visível no abandono do seu castelo que em tempos revelava toda a sua magnificência.

Certo é que em 1706 já existiam os lugares de Seival (Sebal), Praya, Fonte Santa, Vale dos Poços, Madeiras, Casais, Portela dos Marcos, Laranjeira, Figueiras, Espinheiro, Casal do Caneiro, Limeiras, Matos, Outeiro, Perdiguiera, Foz do Rio e Casal Figueira 10 e a acresce, em 1838, Figeira, Figueira e Caneiro, conforme donativos inserto na Gazeta de Lisboa, n.º 70, de 22 de março de 1833.

Fotografia do arquivo da Junta de Freguesia, ano de 1917

Outrossim, o mesmo autor (10)* refere que no “sítio que chamam de Praia, que fica entre a Igreja e a Vila, se faz todos os anos inumerável pescaria de sáveis com redes, que se chamam chinchas e assim é a terra abundante de peixe e de caça de coelhos e perdizes, e de todos os mais frutos pobre e estéril”.

Assim, podemos concluir que embora a Praia tivesse e sua génese junto do castelo de Zêzere, numa segunda fase, quiçá no Séc. XVI ou XVII, se deslocalizou para poente a que não deve ser alheia a fácil acesso ao rio entre a atual ponte da Praia do Ribatejo e o cais de Pai Avô.

Os inquéritos paroquiais de 1758 referem que “Paio de Pele” é vila da comarca de Tomar com câmara, juízes e vereadores… conta 180 fogos com 612 almas, todas pertencentes à matriz… Senhora da Conceição. Na vila há casa de misericórdia e no termo um convento dos Capuchos (Loreto)…”. (11)*

Da Praia do Ribatejo, no início no séc. XX, fica-nos a memória das velhas serrações de madeira de Manuel Vieira da Cruz e Filhos e Tomás da Cruz. Fábricas que tiveram grande importância no desenvolvimento industrial do território.

Por último referir que é neste território que existe o designado Polígono Militar de Tancos, tão comentado nos órgãos de comunicação social, nos últimos tempos. Tem, ali, várias unidades militares: a de Engenharia (desde 1866), teve a Força Aérea (de 1921 a 1994), está instalada a atual Brigada de Reação Rápida, e possui as Tropas Paraquedistas (desde 1955).

Paio de Pele deteve este topónimo até 1927, data em que se converteu em Praia do Ribatejo por Decreto n.º 14269, de 9 de setembro de 1927.

Fontes:

1 MARIA, Frei Agostinho de Santa, Santuário Mariano, Tomo III, 1712

2  DIAS, José Alves Dias. Paio de Pele: A vila e a região do século XII ao XVI, Junta Distrital de Santarém e Câmara Municipal de V. N. da Barquinha, 1989

3 CRUZ, Ana. Carta-Galeria Arqueológico-Histórica do Concelho de Vila Nova da Barquinha. IPT, 2014

4 PINTO, Vítor Manuel da Silva Viana (2015) — De Olhar atento e Ouvidos à escuta… A espionagem militar na cronística portuguesa de Quatrocentos: Fernão Lopes e Gomes Eanes de Zurara. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Dissertação de mestrado. 2015

5 Arquivo da Coroa de Aragão, Cartas reales, caja n.º 1, Fernando I, n.º 3, publ. Monumenta Henricina, vol. II, Coimbra, 1960

6 GASPAR, Jorge. Os portos fluviais do Tejo. Revista Finisterra, 1970

7 História da Linhaceira, in: bibliotecalinhaceira.blogspot.com

8 GASPAR Frutuoso, Saudades da terra, L.III, Santa Maria, ed. 1922

9  Tombos da Ordem de Cristo : Comendas do médio Tejo (1504-1510) / Iria Gonçalves. – Lisboa : Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2005

10 COSTA, António Carvalho. Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal, com as noticias das fundações das cidades, villas, & lugares. 1706

11 Dicionário geográfico de Portugal, Tomo 42, Torre do Tombo

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