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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“A Escola multicultural”, por Aurélio Lopes

A coexistência de culturas, em sociedades cada vez mais pluriculturais (que exacerbados imperativos migratórios acarretam) é hoje ditada por imperativos de diferenciação económica entre países (de um fosso económico cada vez maior) e de facilidades de informação e deslocação planetárias.

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Entretanto, vivemos numa sociedade que tende para a globalização, não só económica e comunicacional mas, ainda, de valores e de princípios, que tendem, cada vez mais, para universais e humanistas.

Mas, tender não é necessariamente chegar! Muito longe disso!

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Diferenças étnicas subsistem, naturalmente: perenes em termos físicos e de mudança lenta em termos culturais. E assim irão continuar!

É portanto imperioso aprendermos a viver com grupos e indivíduos portadores de valores e costumes manifestamente diferentes dos nossos.

Na Sociedade e na Escola!

Transportando-nos isto à, assim denominada, “Escola Intercultural”, e à reflexão que se impõe sobre o racismo e a xenofobia, sobre a tolerância e a intolerância face ao “outro”, numa Escola que se quer verdadeiramente do século XXI.

E o primeiro aspeto que devemos ter em conta, é que se trata de uma problemática complexa; De complexas causas, de complexas motivações atuais e, naturalmente, de complexas, abrangentes e delicadas soluções.

Pressupostos de intolerância

Comecemos por nos debruçar sobre as estruturas subjacentes às atitudes de intolerância, tanto na sua componente cognitiva (como se sabe, em grande parte estereotipada), até à social (não menos importante) passando, igualmente, por uma vertente emocional omnipresente e, frequentemente, culpabilizadora.

Como se sabe, os estereótipos pressupõem uma simplificação da realidade social, simbolizando-a e tornando-a, funcionalmente, mais percetível e identificável.

Por exemplo, em termos de identificação dos grupos humanos, a estereotipação tende a entendê-los como de um indivíduo só se tratasse, sem reconhecer as, naturais diferenças (ou, mais rigorosamente as infinitas diferenças), das personalidades que os constituem.

O caso mais extremo desta categorização, pode ser exemplificado pelo pensamento dicotómico; isento de matizes e situações intermédias. São brancos ou pretos, bons ou maus, amigos ou inimigos, “nós” ou os “outros”.

Assim, um eventual estigma envolve todos os indivíduos do grupo considerado, não tendo em conta diferenças de idade, sexo, estatuto social, formação cultural ou quaisquer outras.

Correspondem a uma visão da realidade muitas vezes irracional (emotiva, se quisermos), mas com que deparamos frequentemente; e que, de alguma forma, envolve o nosso quotidiano.

Esta categorização bipartida leva-nos, depois, a identificar os outros por uma perceção simplista e arquétipa de um qualquer aspeto físico (principalmente) ou cultural, ignorando-se porém, de forma muitas vezes ostensiva, as restantes particularidades.

Tal atitude, discriminatória já, potencia-se depois, especialmente quando se funde com outros aspetos de carácter (por exemplo, quando o indivíduo pertence a um grupo com menor poder ou prestígio) ou emocionais: por exemplo, quando o mesmo indivíduo ou grupo são vistos como uma ameaça.

Ensaiemos, então, um esboço de síntese caracterológica das razões psicossociais que podem levar a incrementar estas visões discriminatórias, aumentado o risco da intolerância face aos outros.

– Centrar a nossa atenção nas diferenças entre nós e os outros, tende a exagerar tais diferenças em detrimento das semelhanças.

– A eclosão de dois fatores considerados potencialmente ou efetivamente negativos (por exemplo a chegada de emigrantes e o incremento da droga, da criminalidade ou até do desemprego) tende a relacionar os mesmos num contexto absoluto e linear de causa e efeito.

– Os próprios estereótipos guiam a nossa interpretação da realidade e criam memórias seletivas dos acontecimentos, o que dificulta a sua superação. Digamos que, os dados positivos são considerados como exceção, os negativos como prova!

– Finalmente, mesmo que venhamos a considerar positivamente um qualquer indivíduo doutro grupo/cultura, o estereótipo impede que generalizemos essa apreciação. Será visto, mais uma vez, como uma exceção.

Uma pessoa por quem temos estima, não porque… mas… apesar de!

Na verdade, grande parte da nossa intolerância resulta de situações essencialmente emocionais que, embora possamos dizer não resistiriam a uma simples análise metodológica, dominam e persistem, numa irracionalidade muitas vezes cega mas, nem por isso, menos eficaz!

Nós e os “Outros”

Por exemplo, os “bodes expiatórios”, decorrentes da culpabilização dos “Outros” face a situações vigentes de tensão e frustração ou, até, de instabilidade social ou económica. A história recente do Povo Judeu, numa Europa supostamente humanista, é bem paradigma, lamentável, de tal pressuposto.

A isto podemos juntar a necessidade de afirmação do “nosso grupo” face ao “outro”, ao estranho, reforçando a nossa coesão, mas igualmente o nosso estatuto interno e, obviamente a efetiva integração no mesmo.

E aqui, podemos dizer que existem dois vetores que tendem a potenciar esta atitude: por um lado o reforço da nossa identidade construída assim por oposição aos outros, por outro, a criação do inimigo externo, tornado assim ”bode expiatório” de todos os males e mais alguns.

Situação que não deixa sequer, muitas vezes, emergir a natural empatia e solidariedade para com o marginalizado e discriminado.

E, o mais paradoxal, é que nos baseamos numa perceção pretensamente ética, acreditando (querendo acreditar) que o outro é o único (ou principal) culpado da sua situação.

Deus ou a Natureza, determinismos ou fatalidades conjunturais, razões aleatórias ou pressupostos primevos, são vistos como causas explícitas e implícitas, que sustentam inferioridades evolutivas técnicas ou económicas, políticas ou sociais, justificadas assim e, supostamente fundamentadas, pela ausência ou menoridade de capacidades ou de conhecimentos considerados próprios de gente civilizada!

Entre outras coisas, isto descansa a nossa consciência!

São, portanto, atitudes deformadas da perceção da realidade que nos levam, muitas vezes, a encarar os outros como inferiores ou piores.

Deformações que resultam de manifestas expressões de interesse e solidariedade grupal, do desconhecimento, do horror à diferença, quantas vezes… do medo!

Atitudes preconceituosas, que servem, frequentemente, para legitimar diferenças grupais de estatuto e poder. Foi, aliás, considerando os escravos e os “selvagens” como “naturalmente inferiores”, que se justificaram durante séculos, genocídios e expropriações de bens, de territórios e, até, da própria dignidade humana.

A escola e a diferença

De tudo isto se deduz que não basta abrir as nossas escolas a outras culturas étnicas. Nem incluir elementos culturais que lhe são próprios, no currículo escolar.

Nem sequer (e dando já de barato o complexo de dificuldades associadas a esta estratégia) abrir a Escola à Sociedade em que esta está inserida.

É preciso tudo isso! Mas, convenhamos, bem mais do que isso!

É preciso que o docente seja mais que um papagueador do programa. Mais que um simples catalisador, mesmo que fluente, da transmissão do conteúdo programático aos discentes.

Que não se reduza a reconhecer a presença de outras realidades culturais na sala de aula. Que não as encare como expressões pitorescas de singularidades étnicas.

Que não as veja como variantes do modelo padrão existente entre nós.

Que não trate os seus portadores como uma espécie de atrações circenses, nem expresse, por eles, um paternalismo quantas vezes humilhante!

Mesmo que bem intencionado!

É preciso que esteja sensibilizado para a naturalidade da diferença, que o etnocentrismo tantas vezes subverte, implícita ou explicitamente.

Que veja na diferença não um obstáculo, mas um estímulo! Não uma contradição, mas um enriquecimento dos valores patrimoniais em presença!

Que perceba que as diferenças entre as culturas (que os diferentes grupos humanos veiculam), são profundamente influenciadas pelo contexto social e pela transitoriedade histórica. Por opções de progresso e por diferenças de oportunidade.

Que, por exemplo, já na África existiam grandes civilizações, capazes de erigir construções ciclópicas (consideradas hoje maravilhas do mundo), ainda os europeus corriam atrás de bisontes com machados de pedra!

Estará então dotado de condições psicossociais para vir a desenvolver mecanismos pedagógicos e vivenciais que permitam aos alunos tolerar melhor a incerteza (que é nossa companheira inseparável no mundo de hoje), de forma a fazer consolidar identidades em formação sem necessidade de o fazer contra quem quer que seja.

Promovendo e estimulando contactos intergrupais e interpessoais. De forma a descobrir que somos, ao mesmo tempo, iguais e diferentes: homens e mulheres, europeus e africanos, “gadjés” e ciganos, cristãos e muçulmanos, indivíduos com ou sem “necessidades especiais”.

Vivendo a tolerância como valor, nunca como obrigação. Mesmo que revestida do prestígio humanista contemporâneo.

Estará, então, em condições de ajudar a fazer de uma Escola com todos, uma Escola para todos. Ou, se quisermos, uma Escola de todos!

Assim lhe sejam fornecidas condições instrumentais, temporais e, principalmente, psicossociais. De que, hoje, tanto carecem.

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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