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Domingo, Agosto 1, 2021

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“A Entrada de Toiros”, por António Matias Coelho

Maio é mês de Ascensão. E, na Chamusca, de entrada de toiros nessa quinta-feira tão marcante da nossa tradição rural. Este ano seria a 21. Mas, por força de um minúsculo e poderoso inimigo que nos anda virando a vida do avesso, não haverá entrada de toiros na vila ribatejana. E, por não haver, muitos a irão lembrar com compreensível saudade. Aqui fica uma evocação dessa singular manifestação tradicional com o desejo de que volte para o ano, quando for de novo Ascensão.

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É assim todos os anos, a meio da primavera. Ao fim da manhã, em Quinta-feira de Ascensão, toda a Chamusca se concentra ao longo da Rua Direita para ver a entrada de toiros.

Do Areal até à Praça, há milhares de pessoas, muitas delas vindas de fora, à espera que apareçam os toiros, conduzidos pelos campinos e enquadrados pelos cabrestos, que hão de atravessar a vila em rápida desfilada. São apenas uns minutos, muito poucos. Mas é muita a emoção. E parte dela, a maior, é do efémero que vem. Está a gente aqui, horas e horas à espera, o pescoço estendido a ver se vê vir os toiros, e eles tardam, virão mais daqui a pouco, por agora ainda não.

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Até que a multidão se agita, há os que correm a proteger-se, outros que se chegam mais à estrada onde os toiros vão passar, para os sentirem mais ao pé. E aí vêm agora, rua fora a toda a brida, enfileirados a preceito. Há sempre alguém mais afoito que desafia os animais, tentando fixar-lhes a atenção e desviá-los do caminho, em busca de uma emoção maior. E há os que correm com eles, lado a lado, por uns metros, que não há pernas humanas, por muito lestas que sejam, capazes de acompanhar o galope desta entrada.

A vertigem é intensa e passageira. É forte porque passa depressa. De repente a multidão vira o pescoço para o outro lado, fitando a direção da Praça. Ainda agora aí vinham os toiros, os cabrestos e os campinos a cavalo e já tudo aí vai, em acelerada corrida, Rua Direita adiante. Para o ano, cá estaremos outra vez!

Foto: «O Mirante»

Há muitos milhares de anos que o toiro exerce sobre o homem um irresistível fascínio. Já no tempo das cavernas, quando as comunidades humanas viviam da caça e da recoleção do que lhes dava a natureza, ele nos surge gravado ou pintado na pedra, num misto de arte e feitiço. Nunca saberemos o que ia na cabeça do artista ou do mago no momento em que representava esse belo animal, mas sabemos que o admirava e que, muito provavelmente, sentiria por ele, nessa época tão remota, uma enorme atração.

Símbolo da força, do poder e da fertilidade, o toiro sempre foi encarado pelo homem com admiração e respeito. E sempre constituiu um desafio tentador. Caçá-lo, na pré-história, era sinónimo de alimento abundante para vários dias. Enfrentá-lo e vencê-lo, nas corridas do nosso tempo, é uma forma de domínio simbólico da natureza que o próprio toiro representa.

A relação com os toiros é parte importante da cultura destas terras da Borda-d’Água. Há séculos que aqui se criam toiros, não apenas para as corridas mas também para as tralhoadas, quando, antes das máquinas, o trabalho do campo se fazia a poder de braço humano e de pujança animal e os toiros bravos eram amansados para os sujeitar à canga e lhes aproveitar a força inigualável.

Tradicionalmente, a entrada de toiros na Chamusca, em Quinta-feira da Espiga, fazia-se com os animais que iam ser corridos nessa tarde na praça da vila. Até aos anos quarenta, os toiros entravam por baixo, como acontece agora, vindos do campo, do lado da Lagarteira, e seguindo Rua Direita fora até entrarem na praça. Depois houve um tempo em que entravam por cima, sendo conduzidos pelos campinos até ao Bonfim, de onde desciam, a caminho dos celeiros que havia ao pé da estrada e daí até à praça. Nos últimos anos retomaram o percurso primitivo, do Areal até aos curros, mas sem que isso signifique que sejam corridos nessa tarde.

Se a Ascensão é a festa grande do concelho da Chamusca, a entrada de toiros é um dos seus momentos altos e mais afamados na região e no país. Havendo acontecimentos semelhantes noutras terras portuguesas, nenhuma entrada de toiros é no entanto mais conhecida do que a da Chamusca e há cada vez mais gente – aficionados, turistas, curiosos – que aqui vem para viver este espetáculo único. Espetáculo que começa várias horas antes, com o contínuo chegar das pessoas que se amontoam ao longo da rua, vai crescendo à medida que se aproxima a hora da entrada e atinge o auge durante os escassos minutos em que o acelerado tropel percorre a rua principal da vila.

O que acontece nesse dia, antes de se ir almoçar, é verdadeiramente mágico, quando o campo invade a vila, e a força da natureza, na forma de toiros em pontas, percorre o espaço dos homens, desafiadora, ao alcance da nossa mão. Há uma onda de entusiasmo e de emoção que segue a correria dos toiros. E muitos aficionados, de camisola branca e fita encarnada ao pescoço, que estendem a mão a provocar a investida. Tivesse a Chamusca um Hemingway que lhe desse maior projeção e a sua entrada de toiros seria tão famosa ou mais do que o encierro de Pamplona.

Momento grande de festa, a entrada de toiros é um acontecimento colorido, vistoso, empolgante, gerador de entusiasmos e audácias. Às vezes, infelizmente, há quem pise demais o risco ou não acautele como convém a posição que ocupa e já tem havido colhidas com mais ou menos gravidade.

Quem vê uma vez a entrada gosta sempre de repetir. Porque não há duas iguais. E porque nesse dia, naquela rua, entre o Areal e Paio de Pele, há qualquer coisa que passa cruzando a vila num repente. É a natureza à solta, desfilando a toda a brida, que nos enche os olhos de espanto e a alma de emoção.

Nota: Este texto retoma o que foi publicado no meu livro “Os Abrigos da Memória”, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p. 81-84.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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