“A dor de Mingus é a nossa inspiração”, por Carlos Alves

Os nossos passos seguem os vossos! Ora escalando o impossível, o inevitável, ora percorrendo o caminho das emoções. De uma coisa não nos importamos. Este caminho há de ser feito através de uma corrente impetuosa de amor. Só queremos, simplesmente, viver a nossa vida onde o estranho silêncio que atualmente reina nos faça vencer com paixão esta aventura. Nunca se esqueçam que existem vidas muito difíceis. A vida de Mingus é uma delas…

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“São nove horas e trinta minutos. Estou sentado em cima da secretária a ouvir a minha colega de trabalho, a Mingus. Está sempre desajeitada, pronta para falar dos seus traumas, da falta de auto estima, dos seus problemas físicos. Está constantemente a dizer que está gorda, que é uma chata, que vive uma luta titânica contra a incontinência. Depois são os problemas conjugais, diz que a sua vida amorosa está acabada. Pobre rapariga, deve ser doloroso.

Lá fora uma cambada de arruaceiros reclama por aumento do salário mínimo. Há meses que estão ali prostrados, como uns idiotas. Na sala do fundo o big boss com a sua peruca e os seus óculos escuros devido à conjuntivite. Por vezes ouve-se um barulho estranho vindo da sala, parecendo-se com o ato de ressonar.

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Mas voltamos à Mingus e ao seu companheiro, Perrie. Trabalha num hospital psiquiátrico, está na ala feminina, onde se concentram as psicóticas e as bêbedas. Depois existe o Rob, um amigo de família, ricaço, bem posicionado na vida. É o dono do hospital psiquiátrico.

Deu emprego ao Perrie por amizade, mas este não se tem portado bem, está sempre bêbado e tornou-se agressivo. A minha colega Mingus teme o pior. Com a vida difícil que está, se o companheiro cair no desemprego vai ser dramático, até porque o salário dela é pouco mais que o mínimo.

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Rob chamou-a hoje para lhe dizer que demitiu o Perrie. Mingus nem pestanejou, parecia já adivinhar o desfecho. Desde o primeiro dia em que Perrie começou a trabalhar na ala feminina do hospital psiquiátrico que a sua conduta, os seus sentimentos, as suas emoções, mudaram negativamente com reflexos profundos na vida familiar.

A juntar a todo este drama, Mingus recebeu a notícia de que a sua mãe tinha cancro. Pensou em abandonar tudo, mas o amor foi mais forte. Pensou na sua mãe e no seu companheiro e mentalizou-se que haveria de fazer tudo para estar junto daqueles que mais amava. Sabia que iria privar-se da sua vida, talvez até estivesse a destruir o caminho da sua felicidade, mas tinha sido essa a sua escolha. Ela ia lutar por aquilo em que acreditava. Ajudar a sua mãe nesta etapa difícil e ajudar o seu companheiro a deixar a bebida. Iria rezar, rezar, até que as suas orações se tornassem cinzas na sua boca.

São sete horas da manhã! Mingus acordou de um sono profundo sem ninguém a seu lado. Tempo para pensar, tempo para remexer no seu passado, na sua vida. Dos filhos que não conseguiu dar ao companheiro, das amizades que perdeu, das mentiras para encobrir a vida de boémia, do álcool, das dívidas do seu Perrie. Momentos difíceis onde tudo vem à memória, onde as nossas culpas se apresentam como cogumelos prontos a devorarem as nossas emoções. Perrie está louco e vai levar Mingus também à loucura. Se eu pudesse dar-lhe um conselho dir-lhe-ia para interna-lo num sanatório. Seria injusto e cruel. Mingus ama o seu companheiro…

Existem realmente vidas difíceis. Estamos todos angustiados por ver criaturas estranhas nas nossas casas e nas casas dos nossos amigos. Uns correm, outros bracejam. Corremos desmesuradamente, sem saber para onde ir. Sentimos medo, não conseguimos parar, imaginamos predadores a correr atrás de nós.

Nos bons e nos maus momentos da vida o mais importante é vencê-la. Enquanto estivermos juntos iremos resistir. A dor de Mingus é uma inspiração porque faz despertar em nós uma consciência perdida. Porque une os Homens numa intensa solidariedade universal.

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