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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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“A Dona Neves”, por Vera Dias António

Preparem-se para esta história de vida. A sério. Peço-vos que se preparem enquanto tento perceber por onde começar. Neves, ou “Meneves” para a família, tem uma história… mas que história. É a história, são as memórias, é o ser e o estar, até a forma como respira. É de um encanto…

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Querida Neves… Encontramo-nos em sua casa, no bairro à entrada da Vila. Penso que sei ao que vou, de outras conversas que já tivemos. Sei que há ali história. Sei também que há ali sofrimento, daquele maior, mas mesmo do grande, aquele sofrimento que não se compreende, de quando a vida dos filhos é interrompida antes da dos pais. Neste caso duas vezes. A última é muito recente.

A mulher fantástica que está à minha frente tem tido uma vida que tenho dificuldade em descrever numa palavra ou mesmo numa frase. Certo é que foi muito amargurada, apesar da doçura e otimismo que transmite. Neves define-se dizendo que “nunca me interessou o que dizem ou outros ou o que pensam de mim, desde que a minha consciência esteja em paz, é preciso é que a minha consciência esteja bem, o resto não me interessa”.

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A Infância

Neves nasceu em Carvoeiro, Mação. Eram 4 irmãos, 2 raparigas e 2 rapazes, foi um dos irmãos que começou a chamar-lhe Meneves, e assim ficou. Fez a 4.ª classe, gostava de ter continuado os estudos, queria ser enfermeira mas o pai não deixou, que na altura as enfermeiras tinham má fama, por passarem tanto tempo nos hospitais com os médicos. Como segunda opção quis ser Regente Escolar. O pai também não deixou, que depois andava pelas terras, sabe-se lá por onde. Ficou por ali. Mas era esperta. “A professora na 3.ª classe foi dizer ao meu pai para fazer o requerimento para o exame da 4.ª classe porque já estava mais que preparada, mas o meu pai não quis, pois o exame custava 190 escudos”.

Passava os verões da infância no Grande Hotel Clube das Caldas de Felgueira. O pai trabalhava lá de junho a outubro, quando as termas estavam a funcionar. O pai ia ajudar o dono do Hotel, o Sr. Marques, que era de uma aldeia ali perto, Degolados. Foi, aliás, lá que os pais de Neves se conheceram, a mãe era daquela zona e o pai ia daqui trabalhar para lá. Neves fala daqueles tempos e descreve quase um filme de época, o deslumbre. Fala do Hotel “construído em forma de H, enorme. Eram 87 empregados, uns só para servir, outros só para lavar o chão, outros só para tratar das roupas, a copa era uma confusão, os pratos vinham de elevador. Os empregados comiam antes dos clientes. Vestia-se smoking para servir o almoço e o jantar. Para o pequeno-almoço era um fato branco, as calças tinham uma lista cinzenta ao longo da perna. Tinham um padeiro a fazer pão fresco para cada uma das refeições do dia. Na lavandaria tratavam-se dos vestidos das senhoras que lá passavam férias, vestidos compridos, maravilhosos, um para cada refeição. O que eu gostava era de passar a ferro os babetes dos bebés. A dona, uma espanhola, a Sra. Conceição, tratava-me muito bem. Quando se chateava com os empregados pegava nos pratos e atirava-os ao chão. Mas gostava muito de mim, que era a menina que por lá andava”. Conta ainda que foi lá que conheceu, por irem de férias, “Salazar, a Condessa Castro e Sola e o Cardeal Patriarca Cerejeira. O Salazar nunca vinha jantar no salão mas queria que visse aquelas mesas quando lá jantou o Cardeal Cerejeira…”.

Tem memórias maravilhosas dos verões da sua infância. Descrições dignas de um filme.

O Casamento

Viviam lá no verão e o resto do ano era passado em Carvoeiro. Casou com 19 anos. Foi viver para S. José das Matas onde o marido trabalhava. Era empregado de escritório. Aos fins-de-semana iam para a Barca da Amieira, para casa dos sogros. O sogro era pescador. Lembra-se que, no verão, iam para os ilhéus que ficavam a descoberto no Tejo, onde o sogro fazia as plantações de verão naquelas areias ricas em lodo. Lembra-se de trazerem de lá melancias e melões.

Tinha já 3 filhos quando vieram para a Vila. O marido teve uma proposta melhor de trabalho. A filha mais nova, a sua Helena, já nasceu em Mação. O marido trabalhava nos escritórios do Sr. Pombo e depois foi para os da Fábrica Mirrado. Quando a filha mais nova tinha 5 anos o marido teve um grande acidente de carro. “Tinha ido levar o patrão ao comboio, apanhou geada e foi contra um pinheiro grande. Fez um traumatismo craniano. Ficou muito mal…” Neves fala da difícil recuperação e, com alguma mágoa, da falta de atenção ao caso. Insistia sempre com o médico que o marido não estava bem, que devia sair daqui e ser visto por um especialista. O médico não ligava. O marido de Neves recuperou e voltou ao trabalho mas quando ia a andar caia muito. Mesmo muito. Foi de tal forma que, algum tempo depois, o mesmo médico que não o levou a ser visto por um especialista mandou chamar Neves e lhe disse que o marido tinha que fazer um tratamento ao álcool… Neves não consegue descrever o que sentiu… Explicou ao médico que “o problema dele não é o álcool, ele não tem é força nas pernas para andar bem, daí as quedas”. Passados três anos do acidente e a continuação das quedas permanentes, Neves foi falar com outro médico e suplicou-lhe que o mandasse fazer exames. “O médico viu-me tão desesperada que lá passou uma carta. Fomos para Lisboa. Quando lhe fizeram o exame à cabeça e viram o estado em que ficou do traumatismo craniano… mas já não podiam fazer nada, três anos depois os ossos partidos já tinham colado e afetavam a parte motora. Ficou paraplégico.” Foram 38 anos em que Neves teve que o ajudar a mobilizar-se, a sair da cama para a cadeira de rodas, a tomar banho, tudo. Perguntei-lhe se o marido ficou revoltado. Diz que não. Que rezava todos os dias o terço, lia e escrevia muito. Chegou a escrever para o jornal da terra. E via televisão. “O futebol… ai o que ele gostava de ver futebol. Olhe, parece mentira mas eu às vezes já não tinha cabeça para o desporto na televisão, vinha cansada e ralhava com ele, que queria ver outras coisas na televisão. Não acredita, que desde que ele morreu (há 12 anos) olho para a televisão, filmes não me apetece, aqueles programas que dão também não gosto, acabo sempre por parar a televisão no desporto”. Rimo-nos. Remata que fala com o marido e lhe diz que é castigo, pelas vezes que ralhava com ele.

Tiveram 4 filhos, 2 rapazes e 2 raparigas. Tem 6 netos e agora 1 bisneto. É impossível não falar no nascimento do seu pequeno e muito amado bisneto Gabriel. É a luz dos seus dias.

O Gabriel nasceu uma semana após a morte da avó Lena, a segunda filha de Neves que lhe foi roubada. E quando pensamos que é uma dor sem fim, ela sabe que é, é uma dor sem explicação. Conta que após a morte da primeira filha, Cila, uma vez sonhou que estava a falar com ela e lhe dizia para se deitar a seu lado e afastava as mantas e a filha lhe dizia que onde estava não sentia frio. Acordou, as mantas puxadas a seu lado e o lugar estava quente. Voltamos a falar que não, que esta passagem pela terra é apenas isso, uma passagem, uma parte de algo muito maior. Concluímos que nos damos tanta importância que achamos que esta vida na terra é tudo, e se calhar é um pequeno nada.

Digo-lhe que, apesar de tudo, é de uma doçura sem fim. Explica que passa uns dias mal, outros melhor, olha para os seus, os que tem, os filhos, os netos, o bisneto, tem por quem se alegrar. Vive assim, entre a dor e a alegria. De momentos. Mas sempre doce, esta nossa lutadora.

O trabalho no Hospital de Mação e Ramalho Eanes

Quando o último filho casou e saiu de casa, Neves teve que procurar trabalho. Tinha 38 anos. A reforma do marido era de 17 contos. Conseguiu umas horas no Hospital, mas só 4 por semana, não dava para nada. Quando me fala desta fase da sua vida, Neves diz que “as amarguras fazem-nos ficar inteligentes”. Sorrio. Sorri também e passa a explicar. “Olhe, no Hospital não podiam contratar mais ninguém a tempo inteiro. Na altura Ramalho Eanes era o Presidente da República. Eu estava tão desesperada que lhe escrevi uma carta com tudo o que me ia na alma. Disse que se há direito às greves também devia haver direito ao trabalho. Não pedia pão, pedia que me deixassem ganhar o meu pão. Veja bem que até lhe disse que compreendia as mulheres que iam para a prostituição, tal devia ser o seu desespero…”. Rimo-nos. Neves conta que “uma semana depois ligaram-me do Hospital a dizer que tinham recebido do Presidente da República uma cópia da minha carta e que eu tinha que ir lá pedir desculpa ao doutor. Eu disse que não ia porque não tinha feito nada de mal, até escrevi na carta que compreendia que o Hospital não me podia dar mais horas, o sistema é que estava mal feito. No dia seguinte recebi a resposta da Presidência da República a dizer que me iam abrir um concurso para trabalhar a tempo inteiro e que eu não precisava de me inscrever, até porque não podia pois tinha mais de 35 anos. Entrei logo para o Quadro. Eu e outras na mesma situação. Ficou tudo resolvido”. Neves trabalhou 21 anos no Hospital. Reformou-se com 70 anos, aborrecida, pois ainda tinha muito para dar, adorava trabalhar lá.

Sangue azul… as memórias de uma não herança

Reza a história da família de Neves que no Minho viviam os Condes de Vau. Tinham apenas um filho. Rosa Angélica foi trabalhar para casa dos Condes. O filho dos Condes e Rosa Angélica enamoraram-se. Ela engravidou. De um menino. Os Condes não aceitaram o casamento. Deram o nome ao menino. Quiseram ficar com a criança mas a mãe perdia-lhe qualquer direito. Rosa Angélica não aceitou. Foi-se embora. O filho dos Condes, com o desgosto, foi para o Seminário. Consta que chegou a Bispo. O filho nascido, neto dos Condes de Vau do Minho, é o avô de Neves, Domingos José de Vau.

Rosa Angélica criou o filho na Beira Alta, na sua terra. O filho cresceu, casou e teve 8 filhos. Uma das filhas é a mãe de Neves que nasceu muito parecida com a bisavó Condessa. A mãe da nossa Neves trabalhava nas Termas das Caldas de Felgueira (foi lá que conheceu o marido, como já referimos). Quando a mãe de Neves tinha 17 anos os Condes de Vau do Minho foram passar férias ao Grande Hotel Clube. Ficaram impressionados com a parecença da menina à Condessa. Indagaram e concluíram que era sua bisneta. Falaram com a mãe, que a queriam levar um mês de férias para sua casa. A avó de Neves não deixou, com medo que lhe ficassem com a menina. O marido (a criança a quem tinham apenas dado o nome) já tinha, entretanto, morrido.

A mãe de Neves casou entretanto e veio para a terra do marido, Carvoeiro. Uma vez, veio um senhor do Minho para arranjar o relógio da torre da Igreja. O pai de Neves tinha um café que esse senhor frequentava. Entre várias conversas o pai de Neves falou da descendência daquela família do Minho. O senhor ficou impressionado, sabia que esses Condes tinham morrido há poucos anos, sem herdeiros. Quando voltou para o Minho foi investigar. Os Condes tinham morrido há 11 anos. Dez anos é o prazo para se reclamar uma herança, se não aparecerem herdeiros reverte para o Estado. Foi o que aconteceu. Não receberam nada.

Neves mantém o nome, Vau, e a história. Que conta sem mágoa, de uma forma quase divertida.

Esta foi uma, entre outras heranças de família que marcam a sua história, que não lhes coube receber. Neves chega a sorrir quando conta uma, outra e outra história de heranças de tios que a sua família não recebeu. “Nunca recebemos heranças de ninguém. Quero lá saber!”.

Neves diz que a sua vida consiste em “trabalhar, amar os outros e não receber nada em troca”. O conselho que daria ao mundo é simples: “Parem de criticar e de invejar e ajudem mais, há muito crítica e pouca ajuda”. E sabe do que fala! Tem tido uma vida atribulada, muito amargurada. Apesar de tudo mantém-se doce, amiga.

Neves, a Lutadora, que nunca recebeu uma herança, não sabe ainda mas deixa-nos, a todos, a maior herança que se pode receber: o seu exemplo de vida. Se há Mulher que tem sofrido é esta. Conheço-a desde pequena mas nunca lhe vi uma má cara. Sempre, sempre pronta a ajudar. E sempre com um sorriso.

 

* Esta conversa teve lugar em novembro de 2012. A querida Dona Neves tinha 82 anos, hoje tem 86 e continua com a mesma força. Entretanto nasceu-lhe outro bisneto, o Romeu. Não quer que lavem a roupa do bebé na máquina, lava-a ela à mão, com sabão azul, como antigamente. Apesar das rugas no rosto, o brilho nos olhos e na voz desta Mulher são muito, muito jovens, apaixonada por isto que é viver. Intensamente. Sim, intensamente, pois ainda há dias encontrei-a a caminho dos Correios com uma encomenda, uma caixa bem composta, para enviar para a irmã. Eram couves para plantar.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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