“A difícil relação com a verdade” (2ª parte), por José Rafael Nascimento

A Verdade, de Shivani Goel

“Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira.”
– Yevgeny Yevtushenko

PUB

Vimos, na primeira parte desta crónica, como a verdade se forma na incerteza e volatilidade. O que é verdade para um indivíduo ou grupo, não é para outro. O que era verdade ontem, deixa de o ser hoje ou amanhã. A verdade é a busca da “realidade real” ou, pelo menos, de um entendimento comum sobre o que é a realidade. Um indivíduo isolado não possui o dom da ubiquidade, mas o colectivo humano, cooperando em liberdade, compreensão e harmonia, e estudando aprofundadamente a sua História comum e diversa, aproxima-se da verdade.

Winston Churchill, referindo-se a Stanley Baldwin (um anterior primeiro-ministro), afirmou um dia que “ocasionalmente ele tropeçava na verdade, mas levantava-se sempre e apressava-se como se nada tivesse acontecido”. Esta frase, com toda a sua ironia, ilustra bem como pode ser difícil a relação das pessoas com a verdade, inclusive (alguns diriam sobretudo…) no nobre exercício da função política. No limite, essa relação pode corromper-se absolutamente e a mentira tornar-se compulsiva.

PUB

A ACEITAÇÃO DA VERDADE

“Em última análise, a sua liberdade depende de si. Está disposto a discordar?”
– Devin Foley

PUB

Qualquer que seja a verdade percebida por uma pessoa, coloca-se em seguida a questão da sua aceitação. À partida, os indivíduos aceitam ou rejeitam determinadas proposições, com maior ou menor grau de confiança, com base na credibilidade da fonte e naquilo que sói designar-se por “politicamente correcto”. Mas também há quem, aceitando determinada verdade, se recuse a conhecê-la e a agir em função dela.

“A verdade dói” ou “prefiro não saber” são expressões ouvidas com alguma frequência e que demonstram como a verdade, em determinadas circunstâncias, pode ser dolorosa ou insuportável para certas pessoas. Oscar Wilde disse que ela “raramente é pura e nunca é simples”. Por outro lado, há quem se considere inapto ou desmerecedor de formar ou defender uma verdade – aqui entendida como opinião, com grau variável de certeza ou convicção –, atribuindo a exclusividade dessa competência aos poderes anteriormente referidos.

É a genuína liberdade de opinião e de expressão – e não uma qualquer elite ou autoridade – que constrói e defende a verdade. Foto de protestos populares no Brasil (2013), fazendo referência à canção de Chico Buarque “Cálice”. Foto de autor desconhecido

Afirmam, então, os mais subservientes, que “eles é que sabem” ou “isso compete às autoridades”, na diversa tipologia do poder: legítimo (formal), de referência (informal), de especialista, de recompensa e de coerção. Esclareço que não está em causa a autoridade destes poderes, mas tão só o fraco conhecimento, autoconfiança, autodeterminação e sentido crítico de muitos indivíduos, os quais, curiosamente, com ligeireza endossam toda a responsabilidade para as autoridades que têm por hábito contestar.

A verdade aceite como dogma ou por pressão da autoridade individual ou de grupo prevalece na sociedade humana, como demonstraram as experiências de Asch, Milgram e outros. Também o conto O Rei Vai Nu, de Hans Christian Andersen, ilustra bem a força da autoridade e do conformismo, levando-nos a duvidar das nossas próprias percepções. Para Devin Foley, quando a realidade infirma a ideologia, o ideólogo dogmático ignora a realidade e declara que a realidade é aquilo que “vê”, pressionando os membros do grupo para o interior da aceitação social. E muitos vão, como “zombies”, denunciando uma “susceptibilidade de rebanho”.

É certo que, em última análise, cada um tem a liberdade de acreditar na verdade que entender, bem como de querer ou não conhecê-la. Mas não tem o direito de impedir, ou sequer criticar, que outros queiram conhecer essa verdade ou acreditar noutra diferente. Se alguém (como eu conheço) tem uma doença grave e não quer que o médico lhe revele pormenores, preferindo que os dê a um familiar, eu respeito. Mas já não posso respeitar os que dizem mal e mandam silenciar quem, com fundamento e elevação, põe em causa a verdade ou a transparência de qualquer autoridade.

PUB

E não é de todo necessário que alguém seja especialista para emitir opinião. O conhecimento, a experiência, a informação, a capacidade de raciocínio, a intuição, a criatividade, a capacidade de inovação e o empreendedorismo, não são exclusivos dos “especialistas” (o falacioso efeito de halo), sendo hoje comum promover-se a cooperação e contribuição cruzadas entre diferentes domínios do conhecimento. E incentivar-se, também, a escuta do senso comum, de que são exemplo as pesquisas de opinião envolvendo os destinatários (cidadãos, clientes ou utentes) de qualquer actividade, pública ou privada.

O conto “O Rei Vai Nu” ensina-nos que a opinião de um só indivíduo, no seu livre desprendimento, pode estar mais certa do que a de toda uma comunidade, nomeadamente quando o pensamento colectivo se acha (auto-)condicionado. Ilustração de Lucchese

Esta é uma perspectiva moderna, popular e democrática, embora não completamente consensual. A verdade foi, no passado – não será ainda hoje, por muitos? –, considerada uma “disciplina arcani” (secreta) “guardada da heresia resultante da compreensão simplista dos dogmas e mistérios da fé”. Daí o mandamento “Não dês o que é sagrado aos cães e não lances as tuas pérolas aos porcos” e a proclamação bizantina “As portas! As portas!” com que se controlava o acesso à liturgia.

Ainda há menos de um século, Albert Nock defendia que “aqueles que estão interessados em procurar e servir a verdade, mais do que as suas opiniões, são uma minoria”. Para este influente autor americano, só os “remanescentes” possuiriam a força intelectual para compreender os princípios da vida humana [incluindo do Estado e da sociedade] e a força de carácter para se apegar a eles, o que não aconteceria com as “massas”. Em O Nome da Rosa, Umberto Eco escreveu “nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as falsidades podem ser reconhecidas por uma alma piedosa”.

Também Salazar expressou esta ideologia simultaneamente elitista e paternalista, ao afirmar “soubesses o que custa mandar, preferirias toda a vida obedecer”. Mas, suprema ironia, a sua vida terminou um ano e meio depois numa “comédia de enganos”, com os antigos colaboradores a fingir perante o ditador que era este quem governava, sem que quisessem ou pudessem revelar-lhe a verdade. Cinquenta anos depois, os resquícios desta mentalidade sobrevivem nas cabeças de muito boa gente, inclusive nas de alguns insuspeitos democratas.

A Alegoria da Caverna, de Platão, dá-nos a dimensão histórico-filosófica desta faceta da condição humana, em que as sombras são vistas como a verdade por aqueles cuja existência é dominada pela ignorância, contentando-se com a luz do fogo projectada nos objectos. Quem apenas conhece o “mundo visível da caverna” e não tem vontade ou oportunidade de “elevar a alma até à esfera do inteligível”, não alcança “a ideia do bem, causa primeira de quanto há de bom e de belo no universo, e que produz a luz que engendra a verdade e a inteligência”.

PUB
“É tarefa dos iluminados, não apenas ascender à aprendizagem e ver o Bem, mas estar disposto a descer novamente para junto dos prisioneiros e partilhar os seus problemas e honras, quer eles mereçam quer não. Isso deve ser feito, mesmo perante a perspectiva da morte.” – Platão

Em abstracto, tudo levaria a crer que as pessoas – pelo menos uma maioria delas – desejariam sair da caverna para ver a luz e conhecer a verdade, mas as coisas não se passam com esta lógica porque, como se sabe, a realidade não é “real”. Divididos entre a ilusão conhecida da caverna e a realidade desconhecida do mundo exterior, muitos achariam que não valeria a pena trocar uma caverna por outra. Mais, considerariam louco aquele que quisesse tirá-las de lá, “tornando-se necessário prendê-lo e matá-lo”. Assim se explica o recurso ao humor, à ironia ou ao sorriso, para dizer certas verdades.

Ninguém se admire com a violência da reacção, pois o medo é a nossa emoção mais forte e a amígdala cerebral trata de o processar sem necessidade de raciocínio ou consciência. Não por acaso, a ameaça e a tortura sempre foram um dos principais métodos para arrancar a verdade aos prisioneiros. O Malleus Malificarum (1487) ou o Cautio Criminalis (1631) documentam-no sem deixar margem para dúvidas. Mas, como saber se uma confissão é verdadeira quando obtida com recurso à dor provocada?

Eis que, de novo, pisamos terrenos filosóficos e atolamo-nos no paradoxo da verdade (ou da sua inexistência). De facto, não se pode dizer que “a verdade não existe” sem que se ponha em causa a afirmação pois, se “a verdade não existe”, esta proposição só pode ser falsa e, então, a verdade existe. E existe sempre, quer se afirme que existe como que não existe, o que faz com que tudo possa parecer e ser aceite como verdade, ainda que não o seja. Que o digam os factos justificativos do comentário “com a verdade me enganas!” ou, como disse Nietzsche, “não há factos, apenas interpretações”.

Nesta era hedonista da “pós-verdade” e dos “factos alternativos”, de portas escancaradas a todo o tipo de manipulações, a procura e o interesse pela verdade, ou seja, pelo conhecimento tão fidedigno quanto possível da realidade objectiva, aparenta ter diminuído, dando-se maior preferência às declarações, imagens e sensações que proporcionam prazer, se conformam ao medo ou se ajustam aos dogmas e preconceitos de cada público. Mais do que escolher aquilo que tem credibilidade, escolhe-se aquilo em que se acredita ou se quer acreditar.

Os médicos chineses Li Wenliang (falecido com COVID-19) e Ai Fen (desaparecida) foram perseguidos pela polícia por alertarem os seus colegas, ainda em Dezembro de 2019, para o novo coronavírus. Admite-se que a repressão da verdade possa ter determinado a catastrófica pandemia que vivemos actualmente. Fotos: DR

Vive-se, voluntariamente, numa caverna onde as sombras satisfazem o desejo de acreditar numa qualquer verdade ou realidade. E em que a luz exterior do Sol nos fere e faz fechar os olhos. Mas, alerta a psicóloga Tasha Eurich, “as pessoas que põem óculos cor-de-rosa podem sentir-se bem, mas também tendem a ser menos felizes, menos bem-sucedidas e, mais cedo ou mais tarde, a ser vistas de maneira negativa por quem as rodeia”. Por vezes questiono-me sobre o impacto que poderão ter as mentirinhas contadas às crianças para que comam a sopa mais depressa…

PUB

Voltando a Joost Meerloo, ele disse que “uma das ilusões mais coercivas é a ilusão da explicação, a necessidade de explicar e interpretar tudo porque se tem apenas uma ideologia simples no bolso… O presunçoso, por exemplo, com o seu gesto de omnisciência empurra a sua vítima para uma espécie de insignificância, para que ela se sinta cada vez mais pequena em relação aos grandes mistérios do mundo. É essa necessidade compulsiva de ser o sábio e o mágico que conhece todas as respostas, que tantas vezes encontramos no mundo totalitário…”.

Para lidar com este fenómeno ou tendência, o autor defendeu que “não podemos impedir um contágio mental, impondo outro. A única maneira de dar ao homem a força necessária para resistir à infecção mental, é dando-lhe a máxima liberdade na troca de ideias. As pessoas têm de aprender a fazer perguntas, sem exigir que sejam imediatamente respondidas. O homem livre é o homem que aprende a viver com os problemas, na esperança de que eles sejam resolvidos em algum momento – seja na sua sua geração, seja na próxima. Neste sentido, a curiosidade e o questionamento devem ser estimulados”.

Aprendamos, pois, a escutar e incentivar todas as opiniões, ainda que expressas por um só indivíduo, seja ele considerado culto ou ignorante. John Stuart Mill afirmou no seu ensaio Sobre a Liberdade que “se toda a humanidade – menos um – tivesse uma determinada opinião e apenas um indivíduo tivesse a opinião contrária, a humanidade não teria maior razão ou justificação para silenciar essa pessoa do que esta teria, se pudesse, para silenciar a humanidade”. Ou, como escreveu em 1906 Evelyn B. Hall, interpretando o pensamento de Voltaire, “discordo do que você diz, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here