“A difícil relação com a verdade” (1ª parte), por José Rafael Nascimento

Créditos: izismile

“Aprecie os que buscam a verdade, mas tenha cuidado com os que a encontram.”
– Voltaire

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Há muitos anos que hesito em escrever sobre um fenómeno que cedo notei e que ao longo da minha vida fui observando sistematicamente: a difícil relação das pessoas com a verdade. Não de todas as pessoas, estou em crer, mas de uma parte significativa delas. E não de todas as verdades, mas de uma determinada parte delas. Neste, como em qualquer outro domínio psicossocial, a análise tem de passar pelo sujeito, o objecto e a situação, as três dimensões que explicam o comportamento observável.

A hesitação que comecei por referir, prende-se com a complexidade do tema, tão epistemologicamente intrincado que só a Filosofia se atreve a pegar-lhe quando as outras ciências mais não conseguem explicar. Não quero aventurar-me por terrenos que outros conhecem melhor do que eu mas, de forma livre e despretensiosa, procurarei ensaiar um conjunto de reflexões e perplexidades que, eventualmente, contribuam para fazer um pouco mais de luz sobre o problema.

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A FORMAÇÃO DA VERDADE

“Devemos proclamar sem cessar e lembrar as pessoas, a cada momento, de que a nossa capacidade de auto-ilusão não tem limites e de que quem acredita em alguma coisa está enganado.”
– Czesla Milosz

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Começarei por, humildemente, reconhecer que sendo a verdade suportada pela realidade, não é possível aceder à “verdade verdadeira”, tal como não é possível aceder à realidade tal como ela é, como bem demonstrou Paul Watzlawick na sua obra seminal A realidade é real?. De facto, nenhum mortal possui o divino dom da ubiquidade (estar em todo o lado ao mesmo tempo), com o qual – e só com o qual – teria acesso à “realidade real” que suporta a verdade.

Assim, o que possuímos – e já não será nada mau se isso acontecer – é uma certa percepção da verdade (tal como da realidade). Uma percepção que é mais social do que individual, pois ela é socialmente construída na interacção que ocorre nos nossos grupos de pertença e referência. A verdade é, neste sentido, uma qualificação ou confirmação de um elemento da realidade, através da representação mental que se tem dele, fortemente influenciada pelo social.

Cartoon (1894) de Frederick Burr Opper, satirizando a ascensão do jornalismo sensacionalista. Mostra um magnata da imprensa (provavelmente Joseph Pulitzer) a obter lucros com notícias falsas (fake news)

Para melhor se compreender, então, que verdade ou verdades poderão conviver, importa ter em conta que as representações sociais podem ser hegemónicas, dominantes ou polémicas. Do mesmo modo, a verdade pode ser (1) única e inquestionável, (2) partilhada por uma clara maioria de indivíduos ou (3) diferenciada entre vários grupos sociais, respectivamente. Teremos, neste caso, diversas verdades para um mesmo aspecto da realidade.

E, depois, há os factos. Contra os quais, diz-se, não há argumentos. Mas, serão mesmo os factos factuais, i.e. exactos e inquestionáveis? É fácil demonstrar que não, basta lembrar os títulos das capas das revistas de “tv e sociedade”, onde p.e. a referência ao divórcio de um famoso (o facto) não esclarece se o corte foi com o cônjuge ou o trabalho, se ocorreu na vida real ou na telenovela, se está a ser partilhado nas redes sociais cinco anos depois de ter ocorrido, etc. Estou convencido de que a maioria de nós formaria a primeira impressão de que o dito famoso tinha acabado de se divorciar do seu cônjuge.

Também escasseia a literacia mediática e a capacidade para interpretar estatísticas, p.e. para distinguir a taxa de aumento do emprego da taxa de redução do desemprego, esta maior do que aquela para o mesmo número de novos empregados. Paul Krugman, a propósito do crescimento da economia americana, questionava recentemente quem beneficiava com esse crescimento, dando este exemplo: “Se Jeff Bezos (Amazon) entrar num bar, a riqueza média dos clientes presentes aumenta em vários milhões, mas ninguém mais os ganha senão ele”. O certo é que, em comunicação, prevalece a percepção do receptor e esta torna-se a sua verdade e realidade.

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Uma coisa são os factos e outra é a interpretação dos factos; os mesmos factos, apresentados de maneira diferente, geram diferentes interpretações. John F. Kennedy afirmou em 1962 que “o grande inimigo da verdade não é a mentira – deliberada, planeada e desonesta – mas o mito – persistente, persuasivo e irrealista. Com muita frequência, colamo-nos aos clichés dos nossos antepassados. Submetemos todos os factos a um conjunto pré-fabricado de interpretações. Apreciamos o conforto da opinião, sem o desconforto do pensamento”. 

Aqui chegados, há que considerar as diversas fontes da verdade: a Ciência, o Jornalismo, o Estado, a Igreja e outros poderes institucionais, cuja credibilidade é reconhecida pelos respectivos públicos e que se regem por códigos deontológicos que visam sustentar essa credibilidade. Mas a verdade, geralmente controlada por esses poderes, salta por vezes – e cada vez mais, com a emergência das redes sociais – para as opiniões públicas informais, dando azo à proliferação de “verdades alternativas” que geram o descrédito, a confusão e a reacção populista a que hoje se assiste.

Devin Foley considera que “é entre a intelectualidade e, especialmente, entre aqueles que gostam de brincar com pensamentos e conceitos, sem realmente participar nos empreendimentos culturais da sua época que, frequentemente, encontramos a desprezível compulsão de tudo explicar e nada entender. O seu recuo para o isolamento intelectual e a filosofia da torre-de-marfim, é fonte de muita hostilidade e suspeição por parte daqueles que recebem as pedras do intelectualismo, em vez do pão da compreensão”.

Na cultura pós-moderna, que tem vindo a ganhar terreno, cada indivíduo tem direito a possuir e disseminar a sua própria verdade, muitas vezes sem precisar de a justificar e usando-a como arma de arremesso contra a verdade convencional, ainda que de base científica ou secularmente formada a partir da experiência e do saber acumulados por sucessivas gerações. Assim, aquilo que deveria ser basicamente uma hipótese ou perspectiva, passa a ser uma verdade que contamina um grupo social mais ou menos alargado.

A crença positivista de que existe uma realidade objectiva ao alcance da razão humana e uma ciência capaz de descobrir os seus princípios e regras, dando sentido ao mundo e à sua governação, tem vindo a perder força para a crença de que essa realidade é subjectiva, contingencial e não existe de modo único nem demonstrável, tendo cada um direito à sua verdade e ao seu mundo particular. Neste sentido, qualquer mentira poderá ser considerada uma verdade. E, quem tiver maior poder ou capacidade de persuasão e manipulação, logrará influenciar e impor a sua visão do mundo, silenciando as vozes contrárias.

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Na realidade simulada de Matrix (1999) em que, sem o saber, a humanidade está presa, Neo pergunta a Choi “Já tiveste aquela sensação de não teres a certeza de estar acordado ou ainda a sonhar?”, ao que este responde “Tenho sempre, chama-se Mescalina, é a única maneira de voar”. Ilustração: Unsplash

O médico e psicanalista Joost Meerloo, autor do livro The Rape of the Mind, afirmou a propósito que “o raciocínio deixa de ter valor; o tipo de pensamento inferior (mais animal) torna-se surdo a qualquer pensamento de tipo superior. Se alguém argumenta com um totalitário impregnado de chavões oficiais, mais cedo ou mais tarde ele retirar-se-á para a sua fortaleza do pensamento colectivo totalitário. A ilusão de massas que lhe proporciona sentimentos de pertença, grandeza e omnipotência, é mais valiosa para ele do que a sua consciência e compreensão pessoal”.

E acrescentou o autor que “temos de combater o crescente medo do homem de pensar por si mesmo, de ser original e de estar disposto a lutar pelo que acredita. Por outro lado, precisamos também de aprender a resistir às ideias [e] à violência mental, pela penetração sugestiva e lavagem ao cérebro das mentes jovens, pelo condicionamento rígido, pela arregimentação e pela proibição da dissidência”.

Do ponto de vista da percepção, a ciência explica como interage este mecanismo com o meio biológico e social que é, por natureza, enganador. Todos conhecemos abundantes exemplos de sofisticados disfarces e estímulos falaciosos emitidos por plantas, animais e, obviamente, por outros seres humanos. Todos sabemos como funcionam os meios de comunicação, em especial a televisão e as redes sociais, transmitindo fragmentos e projectando imagens da realidade, criando uma falsa sensação de presença e sincronia, e levando-nos a (não) reagir de forma mais ou menos automática.

Todos experimentamos – mas porventura não lhes damos a devida atenção e importância – as nossas próprias limitações e enviesamentos perceptivos, relacionados com os sentidos externos e internos, bem como com as nossas crenças, preconceitos e expectativas. Isso bastaria para nos levar a relativizar o que percepcionamos, mas não o fazemos. Caímos, então, facilmente no logro e na ilusão, julgando que estamos perante a realidade “real” quando, efectivamente, apenas estamos perante uma representação mais ou menos fiel e aproximada (ou falsa e afastada) da realidade objectiva.

Em The Truman Show – uma vida perfeita numa cidade idílica de um reality show –, Mike Michaelson pergunta a Christof “Por que acha que Truman nunca esteve, até agora, perto de descobrir a verdadeira natureza do seu mundo?”, ao que este responde “Aceitamos a realidade do mundo que nos é apresentado, é tão simples quanto isso”.

Como explica o psicólogo Stephen A. Diamond, somos vítimas do “Demónio de Morton”, ou seja, “tendemos a descartar factos incompatíveis com o mito que temos sobre nós próprios, em favor de outros menos ameaçadores e mais corroborativos”. Por outras palavras, distorcemos a verdade e convencemo-nos da fiabilidade dessa verdade distorcida, a fim de confirmarmos ou reforçarmos o nosso autoconceito pessoal e social.

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Do ponto de vista societal, só se pode aspirar à verdade se se respeitar e assegurar a genuína liberdade de opinião e expressão. A democracia liberal defende, neste particular, três ideias fundamentais: (1) que se deve aceitar a expressão de todas as ideias desagradáveis, embora não necessariamente todas as acções perigosas, (2) que deve existir um espaço não regulado pelo Estado, no qual os indivíduos sejam livres de expressar, com fundamentação e respeito, os seus pensamentos e (3) que a melhor arma para combater as más ideias é o poder persuasivo das boas ideias. 

Louis Brandeis, que foi juíz do Supremo Tribunal americano, sustentou que as falácias e falsidades dos discursos nocivos deveriam ser postas em debate porque não se combate os maus argumentos mandando calar, combate-se com mais e melhores argumentos. Também o seu colega Oliver Holmes Jr. defendeu que “o princípio fundamental da Constituição [dos EUA] não é a liberdade de pensamento para aqueles que concordam connosco, mas a liberdade para o pensamento daqueles que odiamos”. 

Em suma, a verdade parece residir numa abordagem humilde, colectiva e livre à realidade, tendo em conta, por um lado, a sua multiplicidade e variabilidade, e, por outro, o reconhecimento das limitações e enviesamentos inerentes às capacidades e processos mentais, individuais e de grupo. Neste sentido, a percepção da realidade, tão próximo quanto possível do que ela efectivamente será, constitui um exercício social e democrático de constante descoberta (procura) e equilíbrio (harmonia). Estaremos disponíveis e preparados para o fazer?

(continua, com a 2ª parte, dentro de uma semana)

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico. 

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