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Quarta-feira, Outubro 20, 2021

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À Descoberta | Uma visita a Fátima, a cidade-aldeia, no preâmbulo do Centenário das Aparições

13 de março de 2017. Fátima. Cova da Iria, para ser mais precisa. Aquela vila que se tornou cidade quando ainda muitos se lembravam de ser aldeia, ou mesmo uma cova repleta de mato rasteiro, azinheiras e calhaus, está a 60 dias de celebrar o centenário do evento místico mais famoso do país. Os turistas começam a regressar depois do interregno de inverno; os hotéis, alguns ainda em obras, reabrem. Subsiste, embora que fugaz, um determinado tipo de silêncio: é ainda Fátima, a aldeia, e não Fátima, cidade da paz/altar do mundo. E a sensação de que se toma fôlego antes de um grande mergulho.

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Em meados dos anos 90 vendiam-se nas lojas de Fátima dois livrinhos infantis com os títulos “Jacinta” e “Francisco”. Acompanhados de ilustrações, narravam, através das memórias da Irmã Lúcia, a vida dos então “apenas” videntes das aparições de Nossa Senhora (já beatificados, serão canonizados e considerados santos em breve). Lúcia ainda era viva e surgia na televisão esporadicamente, mais não fosse em documentários e imagens de arquivo.

Fátima já era “altar do mundo”, o Papa João Paulo II demonstrava nutrir uma simpatia especial pela vila e o “segredo de Fátima”, pelo menos a sua terceira parte, permanecia ainda por revelar. Aos olhos de uma criança, Fátima tinha ainda contornos de contos de fadas e a identificação com os pequenos pastores, ainda que longínqua, era possível. As casas rasteiras, a igreja, os rebanhos, ainda resistiam. Mas Fátima crescia e, lentamente, modernizava-se.

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Duas décadas volvidas mudaram os livros, alguns edifícios, durante anos em esqueleto, foram concluídos, outros demolidos. Desapareceram sobretudo os daquelas moradias familiares, com um traça tão típica da aldeia rural do interior do país, para dar lugar a outros empreendimentos, centros comerciais, novos alojamentos turísticos. De olhos postos na chegada do centenário até o Santuário sofreu as suas mudanças, com uma nova Basílica a conferir-lhe outra dimensão.

O 4 estrelas Áurea é um dos últimos grandes investimentos privados em Fátima. Foto: mediotejo.net

A Cova da Iria corresponde sensivelmente à área entre as rotundas norte e sul, avenida Beato Nuno e avenida João XXIII. É o coração da atual cidade de Fátima, com epicentro no Santuário. Quem passa por estas paragens pode não conhecer mais nada da cidade ou da freguesia, mas conhece certamente estas avenidas e rotundas.

Estacionamos no parque junto ao Centro de Saúde de Fátima e descemos as escadas junto à Biblioteca. O objetivo da viagem é, sobretudo, fotografar a cidade. Em ano de centenário os registos documentais fotográficos começam a escassear. Fátima está em permanente mudança, com obras de requalificação e edificação um pouco por todo o lado. Há novos hotéis, edifícios que mudam de roupagem ou de localização.

Para os habitantes há uma constante noção de choque visual: “Isto não estava ali…! Aquilo não era assim!” Depois esquece-se. Afinal, tudo muda. Mas às vezes demasiado depressa.

A primeira paragem é no Hotel Áurea, um grande edifício que esteve estagnado, sem conclusão das obras, durante cerca de duas décadas, e que abre em abril com uma nova fachada e o interior remodelado. É um dos tais choques visuais. Um pouco por toda a cidade são vários os edifícios que permanecem em esqueleto, sem que o tempo lhes confira uma finalidade ou utilidade. O preço e o interesse imobiliário continua alto, afirmam os agentes da especialidade, mas a procura parece demorar a ir ao encontro da oferta.

Rodoviária encontra-se no centro da cidade e é o acesso mais fácil por transportes públicos. Foto: mediotejo.net

Os últimos 5 anos foram marcados por várias requalificações, quer das avenidas quer dos edifícios centrais. Foto: mediotejo.net

Novo posto de Turismo foi inaugurado em 2016, uma das últimas etapas da requalificação da Avenida Dom José Alves Correia da Silva. Foto: mediotejo.net

Ao lado a GNR, do outro a Rodoviária, com a fachada remodelada também há poucos anos. Em plena avenida Dom José Alves Correia da Silva, artéria central da localidade, que atravessa o Santuário, é um facto afirmar-se que a cidade, na última década, se esforçou para renovar a face até 2017. Um certo urbanismo caótico e desprovido de estética deu lugar a uma cidade que responde ao adjetivo de “bonita” e minimamente organizada. Mas nem tudo estará resolvido a tempo.

Como comentava a geógrafa e investigadora Graça Poça Santos, na apresentação do livro “A Senhora de Maio”, Fátima cresceu muito depressa. Em apenas 100 anos evoluiu de um terreno calcário, de pastagens de cabras, para uma cidade. E a sua organização urbanística reflete isso.

Seguindo a avenida, requalificada também há poucos anos, chega-se ao novo Posto de Turismo, inaugurado no ano passado. Há uma década era um edifício de madeira já algo identitário da cidade, desmontado aquando as obras de alargamento da avenida. “Turismo” é, de resto, um conceito muito forte no concelho de Ourém. Foi em 2013 que o turismo religioso passou a ser considerado um produto estratégico para o Governo, uma vitória para os autarcas locais que assim viram abertas as portas para novos investimentos. Os apoios vão chegando, embora mais lentamente que o desejado.

Já o Turismo, neste caso o edifício, voltou a erguer-se com uma roupagem de madeira e vidro, moderna e em interessante conjugação com a envolvente. Num dos bancos de jardim mais próximos, um casal de traços orientais chama a atenção. Mais não seja pelas roupas coloridas e leves, embora vença a tendência algo instintiva atual de se reparar em tudo o que não aparente ser europeu. Decorre uma animada chamada internacional, eventualmente aproveitando o wifi local.

Fátima, a aldeia, não possui exatamente a mesma multiculturalidade de Fátima, a cidade. Na primeira há, quando muito, os emigrantes – franceses, alemães, americanos, canadianos, ingleses – esses que foram e voltaram a ir com a crise, marcando Ourém como o município com maior taxa de emigração do seu distrito.

Mas há uma outra Fátima, mais abrangente, onde cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, budistas e até agnósticos (entre outras filiações) se vão misturando, em tons de pele, em variações de língua, numa complexa e interessante ligação onde Maria, mãe de Cristo, continua a representar um papel singular, ainda que por vezes secundário.

Caminhando para a rua Francisco Marto, verificamos que os CTT, antes localizados junto ao Santuário, foram definitivamente transferidos para um balcão na rotunda norte. Hotéis e pequenas lojas de artigos religiosos limpam e pintam as suas fachadas, numa espécie de entendimento coletivo de que a cidade tem que estar de “cara lavada” para receber condignamente o Papa Francisco, a 12 de maio. Este esforço de renovação, ainda que menos identificável, proporciona uma espécie diferente de choque visual: notamos que há qualquer coisa diferente em determinado edifício, mas não conseguimos perceber bem o quê.

Entramos no Santuário de Fátima pela porta sul e encaminhamo-nos para o Centro de Media, onde pedíramos previamente uma acreditação de um dia para tirar fotografias. Equipado para receber jornalistas de todo o mundo, da imprensa, rádio, televisão e online, é aqui, na colunata sul, que se concentram os jornalistas nas grandes peregrinações.

Em tempos foi o espaço de Confissões do Santuário de Fátima. Quem por ali esperou horas a fio na infância para cumprir o respetivo dever católico, as pequenas salas em tons de amarelo, quentes e acolhedoras, e os compartimentos fechados ainda espoletam uma sensação confrangedora, de enumeração dos pecados pueris, que aliada à intensidade da prática jornalística das grandes datas não deixa de produzir uma certa constatação sobre as ironias conceptuais do destino.

Bombeiros de Fátima continuam a promover uma campanha para construir o novo quartel. Falta de condições para atender às grandes multidões é uma das preocupações da corporação. Foto: mediotejo.net

Entrada norte de Fátima, onde chega o maior número de peregrinos. Foto: mediotejo.net

Para os locais, o Santuário de Fátima tem a particularidade de ser qualquer coisa de muito pessoal, quase íntimo. Sempre ali esteve, fez parte da vida de todos, permitiu o crescimento pessoal e profissional, até de áreas que em nada se ligam à religião. Sendo da Igreja, é do povo. E sendo do povo, define identidades. Como uma ágora grega onde se discutiam os temas públicos, o grande recinto é um espaço de circulação e de diálogo, mesmo que interior, onde a cidade conflui e se torna una.

Mas também aqui há duas Fátimas. O Santuário dos locais e o Santuário dos que peregrinam, dos que visitam o local por interesse histórico ou cultural, dos que se deslumbram com o património edificado em estilo neo-barroco e moderno. Dos que prestam promessas de joelhos, dos que contemplam com devoção a capelinha e dos que visitam a Basílica do Rosário, onde jazem os restos mortais dos três videntes, Jacinta, Lúcia e Francisco.

Os túmulos em mármore sofreram alguns complementos nos últimos anos em termos de decoração estatuária, mas no essencial permanecem os mesmos. Na sua frente, um genuflexório convida à oração, havendo também locais específicos para depositar as flores. Aqui gera-se uma pequena competição pelo domínio do exíguo espaço entre o turista, que quer tirar fotografias, e o peregrino, que quer rezar. O culto parece ser sobretudo ao feminino, a Jacinta e Lúcia, e não tanto a Francisco, onde quem passa apenas se limita ao registo fotográfico. Veem-se lágrimas, rostos pesados, rostos curiosos, uma afluência contínua a um espaço que promete ser demasiado pequeno para acolher quem o espera visitar no centenário.

Venda de artigos nos passeios diminuiu, mas ainda é visível. Foto: mediotejo.net

A Basílica do Rosário, no seu estilo mais clássico e augusto, contrasta, em dimensão e curiosidade do público, com a Basílica da Santíssima Trindade, a completar dez anos. Mais ampla, mais “limpa” visualmente”, possui interessantes atrativos artísticos, mas menos históricos. No amplo auditório, há quem aproveite o silêncio e a espiritualidade do espaço para ler. É, no entanto, uma visita mais rápida. Na Basílica do Rosário há uma proximidade à sacristia, por onde a população, em dias de menor movimento, ainda atravessa, tendo a possibilidade de contemplar, como numa Igreja Paroquial, os sacerdotes, o background do culto. Na Trindade a relação é mais distante, mais próxima ao céu e menos à terra. Uma marca das épocas históricas distintas (1953/2007) em que ambos os templos foram construídos.

No exterior, o presbitério também mudou no último ano, depois de décadas da presença de uma estrutura provisória, registada em inúmeros postais e fotografias. Da capelinha são conhecidas as narrativas, mas estas menos recentes: a da azinheira que desapareceu, da ermida logo construída no seu local e que alguém fez explodir em 1922, a que se reergueu e o amplo alpendre construído em seu redor nos anos 80, que conferiram à edificação o seu aspeto atual. Ao lado, o tocheiro, onde centenas de velas são queimadas diariamente. Há bem próximo um espaço para velas eletrónicas, mas a ideia mais tecnológica não parece ter pegado entre os fiéis.

Junto à Santíssima Trindade há novo impacto visual: um grande pórtico a recordar um semelhante construído sobre o local da azinheira desaparecida em 1917, e onde se deu o milagre do sol a 13 de outubro. Há vários pórticos destes espalhados pelas diferentes entradas, mas este é central no Santuário, quase estratégico para quem desejar uma fotografia panorâmica

Um pouco mais à frente, a estátua erguida em memória do Papa João Paulo II tornou-se também ela alvo de culto, com muitas flores em seu redor e, inclusive, um aviso para que não se queimem ali velas.

Saímos pela porta norte, acedendo à rua João Paulo II. Boa parte das pracetas de São José estão fechadas, mas os negócios circundantes enfileiram os seus estandartes e artigos nos passeios, mantendo porém a proximidade das portas. Em 2010, aquando a visita do Papa Bento XVI, a polémica em torno dos artigos nos passeios esteve ao rubro. Essencial ao negócio para alguns, uma prática de venda agressiva que se convencionou para outros, tornou-se mais discreta com a criação de regulamentação municipal específica para o efeito, mas não parece de todo resolvida.

Famosos Pastéis de Fátima mantêm a sua localização no interior do Espaço Fatimae. Foto: mediotejo.net

Já na praça Luís Kondor, quando nos preparamos para fotografar mais um hotel em obras, uma jovem segue-nos e chama pela nossa atenção, com uma pergunta pertinente: está à procura de sítio para almoçar? Não, não estamos. Mas na zona norte do Santuário é comum encontrar este tipo de abordagem, com contornos pouco claros, que tenderá a aumentar nos próximos meses. Continuamos, sentindo que realmente a barriga está a dar horas e que é capaz de ser até um bom dia para ir visitar o novo McDonald’s de Fátima.

Regressamos pela avenida Dom José Alves Correia da Silva, sentido norte, no intuito de fotografar pelo caminho o novo espaço dos CTT. À chegada, uma cara conhecida, de outras aventuras, que nos cumprimenta. “Hás-de falar no teu jornal é da vergonha desta avenida. Inaugurada há dois anos e já está neste estado!”, constata. Sim, é um facto. Lajes partidas, alguns problemas estruturais e um projeto que, entre insolvências de empresas concorrentes e lei dos compromissos à mistura, nunca ficou completamente concluído.

Ouvimos ainda queixas de terrenos a precisarem de ser limpos com urgência e previsões algo cataclíticas de que não vai ser a GNR, por muito bem equipada e organizada, a conseguir controlar o estacionamento invasivo e a afluência de um milhão de pessoas a uma cidade tão pequena.

Conversa breve, desejos mútuos de bom trabalho. Na rua Jacinta Marto, onde estacionámos o carro, funcionários municipais fazem marcações na estrada. A relva da rotunda norte, por onde chega o maior afluente de peregrinos, está a ser cortada. A Câmara de Ourém decidiu avançar recentemente com um conjunto de obras de requalificação na cidade, mesmo sem o financiamento oficializado do Governo, mas a 13 de março de 2017, com excepção destes pequenos encontros com os serviços municipais, não se veem trabalhos de maior.

“O McDonald’s agora é um ponto de referência em Fátima”, comentava um fatimense recentemente ao mediotejo.net. Em três meses está mais que estabelecido e, mesmo que ainda oficialmente em época baixa, está cheio. Novos e velhos, turistas facilmente identificáveis. A presença da empresa americana é um daqueles símbolos de progresso que se procuram, ora com resistência ora com deslumbramento. Mas, neste caso, a hotelaria, ao contrário do que aconteceu em Florença, não lhe fez resistência.

Praça Luís Kondor. Foto: mediotejo.net

Guardamos a máquina fotográfica e terminamos o circuito. Entre deambulações e registos de memórias passaram quase três horas. Fátima, a cidade-aldeia dos recentes choques visuais, não se fica pela Cova da Iria. O percurso teria muito que narrar se se perdesse pelos Valinhos, Aljustrel ou Fátima velha ou pelas belas e esquecidas aldeias da freguesia. Essas viagens proporcionarão outras descobertas.

Há 100 anos a cidade nasceu, evoluiu e continua a crescer, abarcando aldeias e lugares, tendo feito um esforço para organizar-se em prol do seu próprio progresso. É uma terra de religião sim, mas também de negócio, de comerciantes, como admitia o antigo presidente da ACISO – Associação Empresarial Ourém Fátima, Francisco Vieira, por ocasião da apresentação do Terço do Centenário. São eles que lhe moldam a paisagem, ainda que a paisagem os molde também a eles.

Neste convívio mútuo que procura encontrar o equilíbrio entre o melhor de dois mundos, Fátima consegue ser interior e exterior de Portugal, local e nacional, fé e razão, teocrática e laica, cristã e pagã. Em tempos de tanta incerteza mundial, talvez não seja de todo errado que persista esta ténue indefinição.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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