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Domingo, Outubro 24, 2021

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À Descoberta | Uma subida ao “Mocho Sinaleiro” por entre os trilhos selvagens de Fátima

Durante o confinamento de 2020, o Fatima Trail Team, a secção de trail do Fátima Escola de Triatlo, apercebeu-se do número inusitado de pessoas que encontrava a vaguear pelos montes da freguesia de Fátima. Os “passeios higiénicos” da época pandémica estavam a atrair a população para uma zona algo selvagem do território, por onde só os atletas de trail costumavam aventurar-se. Preocupados com eventuais acidentes e as dificuldades de comunicação que enfrentariam, decidiram marcar os trilhos que haviam criado. Sem estarem a fazer conta, criaram uma nova atração turística para o concelho de Ourém.

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A partida é junto à antiga escola primária de Fátima velha, nas imediações da Junta de Freguesia de Fátima, atualmente a sede da associação Vespinga. Há poucos meses, a Câmara de Ourém inaugurou ali uma ecopista, requalificando a berma da estrada principal que conduz à localidade de Ortiga. O amarelo do troço desperta a atenção para a existência ali, até então discreta, de um placar com um mapa onde estão assinalados os cinco trilhos marcados pelo Fatima Trail Team, com distâncias entre os 5 e os 28 quilómetros.

características do relevo tornam-no atrativo para a realização de trails e caminhadas Foto: mediotejo.net

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“Começámos pelo P1, o trilho de 10 quilómetros, depois definimos o P0, de 5 quilómetros, a pensar nos caminheiros”, explica ao mediotejo.net Miguel Bértolo, porta-voz do Fátima Trail Team. Seguiu-se o P2, de 20 quilómetros, o P7, de 11 quilómetros, e o P3, de 28 quilómetros, todos eles trilhos que percorrem os montes selvagens, de relevo acidentado, em redor da Cova da Iria. 

Este é mais um dos projetos de natureza que nasceu devido ao confinamento de 2020. Com cinco anos e 65 atletas, a equipa de trail do Fátima Escola de Triatlo desbravou estes trilhos ao longo do tempo, usufruindo das vantagens do terreno acidentado e da vegetação, ideal para a exigência do treino. Durante o confinamento, treinando de forma dispersa, os atletas foram-se apercebendo que a população local fugia para estes cabeços nos seus “passeios higiénicos”, dado o isolamento que estes proporcionavam e o contacto íntimo com a natureza.

Fatima Team Trail marcou os trilhos durante o primeiro confinamento, dada a afluência de pessoas aos montes em redor da Cova da Iria Foto: mediotejo.net

A situação começou a preocupar o grupo, conhecedor dos perigos do relevo e da dificuldade do socorro chegar a certos locais. “Decidimos que era mais seguro marcar e sinalizar os riscos”, explica Miguel Bértolo, começando esse trabalho logo em abril, com a limpeza, estando os trilhos concluídos em maio. No seu conjunto, formam o “Centro de Trail de Fátima”. 

“A aceitação foi enorme”, salienta Miguel, constatando que em breve se aperceberam que os trilhos atraiam não só a população local, como também as pessoas que iam a Fátima com a família mas não estavam interessados em ficar no Santuário. Assim, traziam sapatilhas e bicicletas e percorriam os caminhos do Centro de Trail. Nos períodos de confinamento, mais de mil pessoas, contabiliza Miguel, frequentaram os trilhos diariamente. 

Trilhos P0 e P1 apanham o trilho da Rota Carmelita – Caminhos de Fátima, acabando a confluir no pico do Mocho Sinaleiro Foto: mediotejo.net

No ponto mais alto dos trilhos P0 e P1, que se cruzam, a equipa decidiu assim instalar um marco. A sua caracterização, com diversas tabuletas que apontam, por exemplo, para a distância para Wuhan, para o Centro de Vacinação, para os quilómetros até ao próximo sítio de venda de cerveja, para o Amor, entre outros tabuletas recheadas de humor e boa disposição, é encabeçada por um mocho metálico, razão pela qual o marco ficou conhecido por “Mocho Sinaleiro”.

Uma ideia que resultou da perceção que os trilhos iriam tornar-se mais um produto turístico do território e cujas fotos rapidamente inundaram as redes sociais. 

Beleza natural é um dos atrativos destes trilhos Foto: mediotejo.net

Os trilhos P0 e P1 têm ainda a particularidade de serem atravessados pela Rota Carmelita – Caminhos de Fátima, potenciando assim a atratividade do local. Os próprios hotéis, adianta Miguel Bértolo, já sentiram o impacto da marcação dos trilhos entre os clientes, saudando a iniciativa do grupo.

Os Bombeiros de Fátima possuem os mapas do terreno e, em caso de problemas, facilmente localizam quem precise de ajuda. 

Mapa dos cinco trilhos encontra-se junto à sede da Vespinga, na antiga escola primária de Fátima velha Foto: mediotejo.net

“Temos uma zona onde se consegue ver a torre da Basílica, a torre da Igreja da Atouguia e a torre do Santuário da Ortiga”, adianta Miguel Bértolo, “esta envolvência e paradigmas de pontos de interesse é muito interessante”, sendo desejo da equipa dinamizar ainda mais os trilhos que desbravou ou ajudou a sinalizar. Para já, as entidades públicas também já se aperceberam da dinâmica criada e reconhecem o valor do projeto, pelo que a equipa está entusiasmada a continuar.

Miguel Bértolo convida por tal a participar no próximo “Trail de Fátima”, já no próximo dia 24 de outubro, vindo conhecer assim estes caminhos escondidos por entre os montes de Fátima.

Marco do Mocho Sinaleiro assinala o ponto mais alto dos trilhos P0 e P1, tendo surgido como forma de criar uma atração turística Foto: mediotejo.net

O lado selvagem de Fátima

Os montes em redor da Cova da Iria, nos limites do Parque Natural da Serra de Aire, têm a particularidade de preservar até hoje algumas das características naturais que compunham o cenário de Fátima no início do século passado.

Os muros de pedra, o mato rasteiro, os frutos silvestres e algumas áreas pontuais de cultivo, em encostas ingremes de pedra calcária, ora desnudas ora encobertas pela vegetação, conferem um aspeto selvagem e místico a uma terra conhecida por abrir espaço à espiritualidade.

Nos trilhos de Fátima, há uma promessa de retorno ao ambiente místico vivido pelos crentes dos inícios do século XX. Uma comunhão do homem para com os mistérios da natureza.

O trilho P0 percorre sensivelmente o trilho P1, com um corta mato que reduz a cinco os quilómetros percorridos. É por ele que enveredamos, na expetativa de uma caminhada rápida que acaba por estender-se às 2h30. Ora em terreno plano e macio, em aparentes acessos a propriedades agrícolas, ora entrando mato adentro, subindo encostas e descobrindo uma vegetação luxuriante, onde a mão do homem procura não intervir além do necessário, descobre-se um lado pouco conhecido de uma cidade cujo crescimento rápido a tem descaracterizado da que a tornou o altar do mundo.  

percurso P0 não é difícil e bastante plano, mas contém algumas subidas mais exigentes Foto: mediotejo.net

Com marcação recente, o trilho P0 é bastante fácil de seguir, contendo indicações regulares e bem identificadas. No final do verão e numa manhã de domingo, encontramos diferentes grupos de caminheiros e ciclistas. O nosso objetivo passa por encontrar o marco do Mocho Sinaleiro.

Os medronheiros são uma árvore típica de Fátima, possíveis de ver em fruto nesta época de setembro Foto: mediotejo.net

Não é um caminho difícil, embora exigente em certos pontos. Ouve-se continuamente carros a passar, o que evidencia a proximidade da estrada da Ortiga, a qual a dado instante atravessamos. No final do verão, sobressaem os medronheiros, cujo fruto vermelho aproxima-se da maturação.

Desaparecerem porém os rebanhos, outrora uma presença frequente pela serra, e na nossa caminhada somos apenas surpreendidos por alertas da presença de colmeias. 

Muros antigos e uma vegetação luxuriante conferem alguns dos cenários mais bonitos da viagem Foto: mediotejo.net

Ouvem-se os sinos, mas o Santuário de Fátima está longe. A dado instante sente-se o isolamento. Os trilhos percorrem espaços que ainda conseguem manter um relativo afastamento da civilização. Desaparecem assim os campos de cultivo e só resta a serra e as histórias que ela tem para contar sobre a fauna e flora destas paragens, com rastos frequentes de passagem de javalis e gafanhotos a saltar por todo o lado.

Conta a história que por aqui ocorreram milagres. No século XVIII, uma pastorinha muda começou a falar depois de Nossa Senhora lhe ter aparecido, na localidade de Ortiga. A poucos quilómetros da Cova da Iria, este outro santuário, de pequena dimensão, é o registo histórico de um ambiente natural que propicia a contemplação e uma envolvência com o sagrado. Dois séculos depois, três outras crianças encontraram também nestes montes estranhas aparições.

A dado instante, sente-se o isolamento. Os trilhos percorrem espaços que se vão mantendo afastados da civilização Foto: mediotejo.net

De rota circular, o P0 desemboca nas traseiras da Igreja Paroquial de Fátima velha, finalizando na sede do Vespinga. Pode transformar-se tanto num trilho desportivo, como num retiro espiritual, consoante a vontade do caminhante ou do atleta. O Mocho Sinaleiro confere-lhe uma atratividade turística, mas é necessário fazer uma parte significativa do percurso para encontrar o marco, situado no ponto mais alto do trajeto.

Assim, calce as sapatilhas, traga a bicicleta. O Centro de Trail é uma peculiar fuga ao mundo escondida no coração da freguesia de Fátima.   

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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