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Sábado, Setembro 18, 2021

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À Descoberta | Uma manhã na azeitona com o rancho do Sr. Manuel

O Médio Tejo é uma região próspera em oliveiras e, em consequência, azeite, existindo um pouco por todo o norte do Ribatejo festivais a recordarem essa tradição olivícola tão mediterrânica. Ourém é o terceiro concelho com mais lagares na região (10), possuindo inclusive uma Cooperativa de Olivicultores em Fátima, com um azeite de marca própria. Mas para um produto tão nobre e saudável e essencial a uma dieta que é património imaterial da UNESCO, há cada vez menos pequenos produtores. Os mais jovens não se interessam e o azeite está à distância de um supermercado, a preços competitivos. Mas, mau grado o abandono do olivais, ainda se encontram ranchos na apanha da azeitona.

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“Vais hoje ver da apanha da azeitona? É tarde, já toda a gente apanhou…!”

O aviso não animava. A bem da verdade, a campanha já leva umas três semanas e pelas encostas de Ourém, Torres Novas e Alcanena já viramos os panos estendidos e os tradicionais grupos de duas, três, no máximo quatro pessoas na dita lavoura, recolhendo os bagos pretos – mais miúdos e pequenos que a típica azeitona de mesa – que serão transformados em azeite. A apanha da azeitona foi-se gradualmente transformando num exercício familiar, para quem ainda possui olivais e tem gosto de ver as oliveiras limpas e um azeite mais “caseiro” à mesa.

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Neste triângulo entre Ourém, Torres Novas e Alcanena falamos num azeite que nasce na serra  e que adquire, por tal, características próprias. A página do “Azeite de Fátima” esclarece o tema: “A cultura mais importante era a da oliveira, se bem que, devido às condições do terreno calcário, se tivesse procedido ao escavar da rocha, de modo a criar uma cavidade que, cheia de terra, permitisse plantar a oliveira. Apesar destas dificuldades, a oliveira encontrava aqui um clima propício, nitidamente mediterrânico – invernos rigorosos e estios quentes e secos”.

Com cerca de 22 graus, a apanha não está fácil para quem contava com o frio do outono. FOTO: mediotejo.net
Com cerca de 22 graus, a apanha não está fácil para quem contava com o frio do outono. FOTO: mediotejo.net

Na manhã de segunda-feira, 14 de novembro, lá saímos. Pela frente dois objetivos: ou a Serra de Santo António, no concelho de Alcanena, ou a estrada nacional 357 (Estrada de Fátima), que liga Fátima a Torres Novas, às portas do Parque Natural da Serra d’Aire e Candeeiros. Por motivos de proximidade e conhecimento do terreno, opta-se pela segunda hipótese. A espetativa vai baixa. Efetivamente, depois de uma fim-de-semana soalheiro, propício à apanha, encontrar alguém na azeitona é pouco provável.

Na sequência de tantas outras notícias, noutros anos, em reportagem, sabemos que há quem tire férias para fazer este trabalho. Na Cooperativa de Fátima, as filas chegavam a contar quatro horas de espera, entrando noite dentro. Em anos bons o azeite chega para consumo próprio, família e para vender à vizinhança. Será este o cenário deste ano?

Ainda não saímos dos limites do concelho de Ourém quando nos deparamos com um conjunto de carros estacionados à borda da estrada. Olhamos para a esquerda, olhamos para a direita… haverá locais melhores para estacionar, com menos camiões a transitar, mas tenta-se a sorte.

Boa parte do olival já está de rama cortada e azeitona colhida. Ao fundo do terreno, deparamo-nos com uma equipa de oito pessoas a trabalhar na apanha da azeitona. Alguma surpresa! Há muitos anos que não encontrávamos um rancho (grupo de pessoas a realizar trabalho agrícola, numa média de 12) desta magnitude…

O terreno pertence a Manuel Ferreira. Todos os que trabalham consigo são vizinhos ou família, naturais das aldeias contíguas de Amoreira e Montelo, na freguesia de Fátima, paralelas ao local onde nos encontramos. Chegaram às 8 horas e ali vão ficar até ao meio-dia. “Andámos na sexta-feira meio-dia e acabamos hoje ao meio-dia. É um dia”, esclarece, referindo que, da sua parte, a azeitona ficará apanhada (cerca de 200 litros de azeite pelas suas contas). Amanhã continua, mas por conta de um dos vizinhos. E assim se revezam, ajudando-se mutuamente e depois partilhando os ganhos em azeite.

Apesar de a maioria das pessoas já ter apanhado a sua azeitona, alguma ainda se encontra por amadurecer. FOTO: mediotejo.net
Apesar de a maioria das pessoas já ter apanhado a sua azeitona, alguma ainda se encontra por amadurecer. FOTO: mediotejo.net

São todos reformados, menos Gracinda Lopes, que tirou o dia para ir apanhar azeitona. “Gosto deste trabalho, uma vez por outra. Vim pela confraternização. É agradável, faz bem ao espírito. Para mim gosto. Se as pessoas forem amigas, faz-se por todos. Pena os jovens não participarem neste trabalho. E estes homens que ainda têm vontade de por aqui andar”, constata, salientando o trabalho dos homens que a acompanham, um deles mais idoso que vai fugindo à objetiva do mediotejo.net. “Os jovens têm outro ver, outra maneira de pensar”, refere Gracinda, lamentando o desinteresse sobretudo dos adolescentes. “Os tempos de aproveitar isto já lá vão. Mas ainda vale a pena”.

Ainda vale mesmo a pena? Tanto trabalho, ao sol e à chuva, para ter azeite?

“Para a gente vale a pena”, comenta, sucinto, Manuel Ferreira. “Isto não é para pagar ordenado. É só para passar o tempo, para o resto só dá prejuízo”, comenta alegremente Maria da Conceição Ferreira, a esposa. “Somos bons de contentar. Contentamo-nos  com o que Deus nos dá”, refere mais à frente.

“A azeitona da nossa serra é muito boa para adoçar”, em água e sal, explica, “não é como a do Alentejo”. Cortada e temperada, três semanas a um mês no preparado e está pronta a levar à mesa, a tempo talvez do Natal. “

Manuel Ferreira levará depois a azeitona à Cooperativa, da qual é sócio. Este ano, constata, o máximo de tempo que esperou foi meia hora. “Têm máquinas novas”, explica, colocando esta hipótese para a rapidez no atendimento. Já a azeitona “está boa, tenho tido mais que no ano passado”, embora reconheça posteriormente que, na generalidade, houve menos produção que em anos anteriores. E apesar da maior parte da vizinhança já ter apanhado a sua azeitona, refere que muita ainda está verde e podia perfeitamente ficar na oliveira por mais 15 dias.

Antigamente, reflete o grupo enquanto vai trabalhando, limpando os ramos e movimentando as redes, a apanha era uma experiência comunitária. Havia um patrão que mobilizava grandes ranchos pelos olivais. Depois da apanha terminada, vinham as jovens raparigas ao “rabisco”. O que era isso?, questionamos. Era a azeitona que ficava no chão por apanhar e que os proprietários deixavam que outros a colhessem e vendessem. “Ainda vim ao rabisco, foi para o meu enxoval”, comenta Maria da Conceição. Muitas como ela assim o faziam.

Hoje ninguém vai ao rabisco. A apanha também já não é tão meticulosa como antigamente. As temperaturas fora de época não ajudam. “Com sol demais também se torna difícil. Era melhor um dia mais frio”, comenta uma das senhoras da equipa, enquanto vamos conversando e tirando fotografias. “Uma vez em Alcanena, no 13 de outubro, apanhei 35 graus. A azeitona veio cedo e os peregrinos de Fátima passavam e perguntavam se queríamos ajuda”, recorda outro dos ajudantes. “Foi uma colheita horrível”, concorda Gracinda.

Noutros tempos, a apanha da azeitona prolongava-se até aos inícios do inverno. Hoje, em meados de novembro, já quase não se vê ninguém em cima das oliveiras. O grupo comenta que os que resistem encontram-se fora das zonas de estrada, no interior dos terrenos. “Antes ouviam-se porque as pessoas andavam a cantar”, comenta alguém, mas hoje a sua presença passa quase despercebida.

A manhã vai avançando. Já depois das 11 horas começa-se a falar no almoço, mas constata-se que ainda faltam seis oliveiras. Uma pausa para decidir quem fica e quem vai preparar a comida. Chega a boleia, pergunta quem vai ajudar a carregar a lenha. Parte dela é queimada, a melhor aproveita-se para fazer fogueira nas casas. Os ramos e troncos não podem ficar no olival, explicam, porque irão ganhar bicho e prejudicam a colheita do ano seguinte.

A apanha já não é tão meticulosa como noutros tempos, em que se andava ao rabisco do que sobrava e com o dinheiro conseguia-se comprar peças para o enxoval. FOTO: mediotejo.net
A apanha já não é tão meticulosa como noutros tempos, em que se andava ao rabisco do que sobrava e com o dinheiro conseguia-se comprar peças para o enxoval. FOTO: mediotejo.net

Ainda queremos saber da qualidade. Porque esta azeitona é utilizada apenas para azeite, não para se comer à mesa…

Não é bem assim, contesta Gracinda. “A azeitona da nossa serra é muito boa para adoçar”, em água e sal, explica, “não é como a do Alentejo”. Cortada e temperada, três semanas a um mês no preparado e está pronta a levar à mesa, a tempo talvez do Natal. “Ainda lá tenho do ano passado”, comenta Maria da Conceição.

Durante a manhã da apanha, este rancho que ainda se lembra dos tempos antigos, sem regras comunitárias e quando a agricultura e a posse da terra era essencial à vida de todos, praticamente não vê mais ninguém. Os peregrinos por estas alturas já não passam pela estrada. O sol bate forte e trabalhar nas horas de maior calor é impensável. Longe vão os tempos das cantigas ao desafio entre diferentes equipas de trabalhadores…

Fica a constatação da inevitabilidade da mudança. Divide-se o azeite, limpam-se as oliveiras e espera-se que certas tradições não morram nas gerações dos que hoje têm 60, 70 ou 80 anos e viveram os derradeiros anos da ditadura. Que as oliveiras não sequem ante a abundância de supermercados. E não morram estes momentos de convivência entre vizinhos e família, num terreno algures na freguesia de Fátima, bem mais próximo do tempo e da realidade onde nasceram os três pastorinhos que tanta fama e renome dão a uma das cidades mais conhecidas de Portugal.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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