À Descoberta | Um trilho que propõe um encontro com um Zêzere sagrado (c/vídeo)

Do Santuário de Nossa Senhora do Pranto, em Dornes, à Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Areias, passando pela Igreja de Santo Aleixo, no Bêco, o concelho de Ferreira do Zêzere foi recentemente dotado de um novo trilho pedestre, designado PR6 FZZ – Zêzere Sagrado. Este é mais um dos projetos financiados pelo Turismo de Portugal, que procura promover o turismo espiritual, neste caso em torno do património religioso de Ferreira do Zêzere. O mediotejo.net foi dar uma volta, de mochila às costas.

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O percurso total tem 26 quilómetros, circular, e pretende dar a conhecer a herança religiosa de Ferreira do Zêzere, começando por Dornes, com o seu santuário e a Torre Pentagonal, e passando pelas grandes igrejas de Areias e Bêco. Os três templos têm a particularidade de estarem classificados como Imóveis de Interesse Público. Pelo caminho há ainda capelas e igrejas mais pequenas, características do território, entre outros locais de interesse histórico, como o Lagar de São Guilherme ou o Solar do Monteiro Mor.

Há a possibilidade de fazer um percurso mais pequeno, também circular, com 15,1 quilómetros. Este trilho tem a desvantagem de não passar por Areias, perdendo-se assim a oportunidade de contemplar o emblemático edifício do século XVI, dedicado a Nossa Senhora da Graça. O templo cruza os estilos maneirista e barroco, possuindo ainda fortes traços do gótico, caracterizando-se por certa imponência no cenário rural e isolado de Areias.

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Trilho começa em Dornes. Para visitar as Igrejas fechadas é necessário falar com o Posto de Turismo Foto: mediotejo.net

Com exceção do santuário de Nossa Senhora do Pranto, aberto praticamente todos os dias, as igrejas do Bêco e de Areias carecem de contacto com o posto de turismo ou a respetiva junta de freguesia para serem visitadas pelos caminhantes.

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Num sábado de muito calor, a horas não muito saudáveis, empreendemos o desafio de fazer o trilho mais curto do Zêzere Sagrado que, ainda assim, constitui um esforço significativo de caminhada. Parte do percurso é feito pelo alcatrão, em estradas secundárias das aldeias, mas há também um parte significativa pela mata e pinhais do concelho, a terminar com uma paisagem de cortar a respiração sobre o rio Zêzere.

Na partida, junto à Torre Pentagonal de Dornes, conhecemos a história do santuário de Nossa Senhora do Pranto, mandado edificar em 1453 por Frei Dom Gonçalo de Sousa, mas ao qual se associa uma lenda que envolve a Rainha Santa Isabel e a descoberta de uma imagem da Virgem chorosa pela morte do filho crucificado.

A fachada gótica combina elementos maneiristas e barrocos. Já o seu interior é sombrio mas faustoso,  misturando vários movimentos artísticos, mas onde sobressaem os azulejos seiscentistas e o órgão de tubos ibérico do século XVII.

O início do percurso é confuso e carece de melhor marcação. A tabuleta com as indicações gerais do trilho “Zêzere Sagrado” encontra-se junto à Torre Pentagonal e as indicações seguintes estão junto ao Posto de Turismo. Depois disso, desaparecem.

As Igrejas de Dornes, Bêco e Areias possuem um riquíssimo património religioso, mas foram fechadas devido aos roubos. Foto: mediotejo.net

Seguimos em frente até ao Lagar de São Guilherme pela estrada principal, de alcatrão e sem passeios, mais por ser o ponto seguinte indicado no trajeto do que por termos convicção que vamos no sentido certo.

Ali, um pouco por sorte, entrando pela mata com as indicações de um popular que por ali passava, lá descobrimos as marcações do percurso. Um caminho alternativo devia-nos ter conduzido desde Dornes até ali, mas não conseguimos perceber onde nos perdemos.

paisagem sobre o Zêzere é um dos pontos altos do percurso pedestre Foto: mediotejo.net

Só no fim do circuito, várias horas depois, nos apercebemos que devíamos ter cortado na primeira à direita na rotunda à saída de Dornes, passando a ponte, e não seguido em frente. Mas mesmo procurando com mais atenção, não descobrimos qualquer indicação para fazer aquele corte. Um caminhante faz o que a sua intuição lhe indica: segue em frente.

Fora este percalço inicial, a rota está bem marcada e não oferece mais problemas de orientação. O panfleto do percurso pedestre refere que os dois trilhos, o curto e o longo, são de Nível III (difícil), mas apesar de algumas subidas mais acentuadas não se pode dizer que a rota seja difícil, uma vez que caminhamos praticamente sempre a direito. A exigência deriva sobretudo dos muitos quilómetros do desafio, os quais contabilizámos nos 17 e não nos 15,1 indicados.

A pequena Igreja de Paio Mendes está fechada e não temos informação sobre o seu interior. No Bêco, a Igreja de Santo Aleixo foi recentemente requalificada, ao abrigo do mesmo programa de promoção do turismo religioso do Turismo de Portugal. A porta também está fechada e não fizemos reserva para poder ver o espaço.

A sua origem situa-se no século XVI, tendo sofrido várias intervenções ao longo do tempo. A estética interior é setecentista, em estilo chão, de uma austeridade requintada e rica. Um dos seus atrativos são precisamente os painéis de azulejo do século XVIII, em azul e branco, de autor desconhecido, com cenas bíblicas do antigo testamento.

Depois desta passagem, o circuito fecha com a panorâmica do rio Zêzere, que nos acompanha de regresso a Dornes. Entre pinhais e eucaliptais ainda com vestígios dos grandes incêndios de há três anos, conhecendo as aldeias escondidas de Ferreira do Zêzere, a paisagem é marcada pela agricultura, com extensos pomares, estufas e vinhas. Mas também ruínas de edifícios característicos e emblemáticos de um interior subaproveitado, mais facilmente procurado pelos estrangeiros que pelos nacionais.

Há quintas brasonadas que só pelo edificado despertam a imaginação. Mas sobressai sobretudo o silêncio, um profundo e ensurdecedor silêncio, quiçá o verdadeiro sagrado que se vem procurar.

 

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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