À descoberta | Sardoal: No calcorrear dos Resineiros e outros tantos caminhos por desvendar

Nem só de pinheiros se faz um pinhal. Os trilhos que ao longo do tempo se foram formando, por entre os seus troncos – mais ou menos esguios – são caminhos com histórias para contar. E a área envolvente, desde as povoações que contornam, à flora e fauna características da região, levam-nos [a tentar] imaginar os tempos idos e vividos daqueles que ganhavam o pão a extrair resina. Mas há muito, muito mais, por calcorrear em Sardoal. Que tal uma viagem pelas lendas e percursos pedestres do concelho? Calce as sapatilhas! Venha caminhar connosco.

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Cerca de uma centena de participantes estrearam na manhã de sábado o novo percurso pedestre do município de Sardoal. O PR6 denominado ‘Calcorrear dos Resineiros’ tem início na localidade de Monte Cimeiro, e estende-se por um percurso circular, que passa pelas aldeias vizinhas de Tojeira, Venda, Casal Velho, Cimo dos Ribeiros e Herdeiros.

Pretende ser uma homenagem em retrospetiva, mostrando a quem queira conhecer os caminhos “outrora percorridos por aqueles que viviam da extração de resina”, uma das principais atividades e com bastante importância na região até à década de 80 do século XX.

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O mapa do percurso, com início e fim em Monte Cimeiro, Alcaravela, e que completa um trilho circular de 10,5 km. @ CM SARDOAL
O mapa do percurso, com início e fim em Monte Cimeiro, Alcaravela, e que completa um trilho circular de 10,5 km. @ CM SARDOAL

No Lavadouro|Centro de Interpretação, em Monte Cimeiro, uns metros depois do ponto de partida, apresenta-se um placar que indica as várias fases de extração de resina (o descarrasque, a riscagem, a montagem de serviço, a execução da ferida, aplicação do ácido, colha, raspagem e a desmontagem do serviço), apresentando-se ainda os utensílios para o efeito, desde o maço, a descarrascadeira, o pulverizador, o mete bicas e o ferro de renova americano, entre outros.

Iniciada a caminhada – e, nesta manhã, foi possível assistir-se à extração de resina num pinheiro alto, ali ao lado do lavadouro público que funcionara até 1985 – as espécies autóctones da região tornam-se presença assídua ao longo do caminho percorrido, existindo para além da zona de pinheiro-bravo e olival, grande extensão de eucaliptal. Ainda assim, é impossível ficar indiferente ao perfume das estevas e outras plantas aromáticas e silvestres que vão abrindo caminho.

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Avançando pela zona da Tojeira, existe a informação de que não só os resineiros de Alcaravela por ali caminharam: também as tropas de Junot, antes da chegada a Abrantes, calcorrearam naquele lugar durante as primeiras invasões francesas, entre 1807 e 1808.

Os 11,5 km de distância e o desnível acumulado tornam este percurso pedestre de nível III “algo difícil”, mas para os destemidos que queiram aventurar-se, saibam que poderão fazê-lo durante todo o ano.

Entretanto, depois de vencer a subida íngreme de pedra lousa, cumprimentando os lugares de Venda e Casal Velho, está na hora de iniciar o single track (caminho estreito), um carreiro por entre uma zona densa de pinheiros, que entre subidas e descidas, promete levar até ao marco geodésico com vista sobre um grande olival, onde aliás, se abre passagem até se encontrar o caminho de asfalto, de volta ao ponto de partida.

A esta altura, fique sabendo que já subiu até 360 metros de altitude. E acumulou um desnível de 447 metros. Deu conta? Pois bem… As cerca de três horas e 30 minutos previstas [também] a isso se devem. Mas descanse. Porque há mais para percorrer!

Pelos caminhos de Sardoal: 6 percursos, 1 grande rota

O recém-nascido já conhecemos. Mas queremos manter aceso este espírito aventureiro. Como tal, tem mais cinco opções a completar o leque.

PR1- Na Rota do Javali

pr 1 _rota do javaliA partir de Andreus, é possível destacar algum património edificado ligado pelos troços do caminho pedestre. Avista-se a Capela dos Barbilongos, local apontado como refúgio em tempos de peste, mas onde se situa atualmente uma capela construída no século XX.  Acompanhando o curso de água, passa-se pelo Vale da Amarela, e eis que, podendo desfrutar-se de um trilho à beira de uma ribeira, o caminho segue para S. Simão. Segundo informação do município, aí vai encontrar uma ponte em curva e, mais acima, os vestígios da antiga Capela de S. Miguel, outrora local de devoção das povoações mais próximas. A Rota do Javali perfaz um total de 10,4 km.

PR2 – O Trilho do Pastor

pr trilho do pastorÉ denominado “o trilho dos sentidos”, onde se delimita o antigo caminho que ligava Abrantes ao Sardoal. Tem 7,1 km, podendo dizer-se que é o mais modesto do conjunto, com a menor distância total.
Ouve-se o gado ovino e caprino espalhado pelo pasto, com o tilintar dos chocalhos, além de se poder ouvir toda a fauna da área envolvente. As oliveiras centenárias e o Sobreiro da Dona Maria, considerado um dos maiores sobreiros da região, são também marcas naturais do concelho de Sardoal.

A Igreja Matriz , a Igreja da Misericórdia , as capelas, o Pelourinho e as fontes e chafarizes, são complemento religioso e cultural ao percurso.

PR3 – Do Pão ao Vinho

pr pao ao vinhoConhece a área de lazer da Lapa? Com certeza já olhou o pequeno telheiro à entrada, com um mapa deste percurso. Seguindo as suas indicações, dirija-se à capela da Sra. da Lapa, a uns metros, situada numa das margens da Ribeira de Arecês. O município informa ser possível caminhar perto de antigas azenhas, atravessar uma ponte medieval e poderá ter tanta sorte ao ponto de encontrar lontras! Entretanto, está na hora de subir, seguindo até aos Moinhos de Entrevinhas, conhecendo um parque constituído por quatro moinhos construídos nos finais do século XIX, onde é possível avistar o concelho de Sardoal e já uma parte do concelho de Abrantes, destacando-se o Castelo, a Torre de Telecomunicações e a Central Termoelétrica do Pego. Uma vez que já conheceu os moinhos, onde antigamente se produziu a farinha para confecionar o pão, siga agora em direção às vinhas da Quinta do Vale do Armo, que tal como a Quinta do Côro, é um produtores vinícolas sardoalenses. Aprecie a paisagem e, como quem não quer a coisa, prove dois ou três bagos de uva. Se se interessar, agende uma prova de vinho e feche este percurso da melhor maneira, concluindo 9,5 km de caminhada.

PR4 – Via Romana

pr 4 via romanaEste percurso insere-se na freguesia de Valhascos e tem 12,7 km. O destaque vai para a calçada romana no Casal da Graça, onde existiu a igreja de Nossa Senhora da Graça, local de culto de outros povos no passado. Passando depois pela Fonte dos Mouros, pela Fonte da Queixoperra, pela Capela de São Bartolomeu, pela calçada medieval e até pelo sítio da forca do Sardoal, atrás da zona industrial da vila, o percurso termina na Igreja Paroquial dos Valhascos, que alberga a imagem de Nossa Senhora da Graça.

PR5 – Caminho da Moura Encantada

pr 5 moura encantadaEste é o percurso mais lendário de todos. E atinge os 15,5 km de distância. Ele próprio se justifica pela lenda da Moura Encantada, e por outras narrativas populares que cruzam lobos, bruxas e feitiços.

A partida é em Santa Clara, e caminha-se até à Presa. Aqui, os mais antigos dizem que “em noites de luar, se vê o brilho dos cintos das Mouras Encantadas, a lavar as suas roupas nas águas da ribeira”. Entretanto, um espaço de lazer, que os populares estimam e aproveitam para uns mergulhos, a Rosa Mana. Diz a lenda que a Rosa e a Mana viviam num lugar fantástico, pois “no alto do penedo as pessoas deixavam linho e dinheiro, que no dia seguinte aparecia transformado em novelos de linha, dobados pelas belas mouras”.

Seguindo o ciclo da ribeira, até à barragem da Lapa, prossegue-se viagem até ao Pisão Fundeiro e ao Pisão Cimeiro. No primeiro avistam-se casas e um lagar abandonados. No segundo, localiza-se a capela em honra de S. Francisco de Assis. Para finalizar, um apontamento cultural e tradicional. A cooperativa Artelinho, em Santa Clara, “um local onde a tradição ainda é o que era”. Aqui, além de se amassar e fazer o pão em forno a lenha, bem como os bolos amassados e as tigeladas, também  se trabalha o linho, semeado e transformado em linhas, depois tecidas nos teares de madeira em colchas e panos. Do vime, depois de preparado, também surgem cestas e outros produtos. Tudo pode ser adquirido no Espaço Cá da Terra, lugar de comércio e promoção de produtos locais.

GR44 SRD/VLR da Prata e do Ouro

gr ouro prataAqui o estatuto é muito diferente, pois o percurso é longo e divide-se entre os concelhos de Sardoal e Vila de Rei. Falamos então da Grande Rota da Prata e do Ouro, com 31 km de distância total. Envolve a Ribeira do Codes, onde se diz que os romanos tinham descoberto as suas riquezas. Na ribeira existem ainda as chamadas conheiras, vestígios de seixos que serviam a exploração mineira na altura. Já na aldeia do Codes é possível avistarem-se ruínas de uma ponte que ligava os concelhos de Sardoal e de Vila de Rei. Esta rota vai passar pela praia fluvial do Penedo Furado, vigiada pela “Bicha Pintada”, que dá o nome ao miradouro. Acredita-se que seja provavelmente um fóssil. Reza a lenda que, entre ela e o rochedo, estará um bezerro de ouro deixado por uma moira encantada.

Lendas à parte… O melhor que tem a fazer é tirar a prova dos 9! Em família, com amigos, preferencialmente nunca o faça sozinho. Parta à descoberta, ao seu ritmo, sem pressas, e saboreie passo-a-passo o que a natureza e a envolvência sardoalenses têm para oferecer. Caso para se dizer… dê corda às sapatilhas. Não se vai arrepender!

Espreite aqui alguns momentos da inauguração do PR6 – Calcorrear dos Resineiros, no Monte Cimeiro (Alcaravela), no passado sábado.

 

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