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À Descoberta | Rio Tejo: das Portas de Rodão ao Mar da Palha…

Ode ao Rio Tejo, numa viagem de mais de mil quilómetros desde o berço espanhol onde é Tajo, brilhando nas Portas de Rodão até desaguar no Mar da Palha…o rio Tajo, em castelhano ou Tacho em aragonês, nasce na serra de Albarracim, na província de Teruel da nossa vizinha Espanha.

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Depois de visitar localidades carregadas de história como Toledo, Aranjuez ou Talavera de la Reina e arrefecer as águas da central nuclear de Almaraz, entra finalmente em Portugal, pouco depois de galgada a Barragem de Cedillo.

Observatório de Avifauna do Outeiro, Gavião.

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Após receber água dos afluentes Erges e Sabor, já com uma cota abaixo dos 100 metros, muda de nome para Tejo e prepara-se para abraçar Vila Velha de Rodão.

A mansidão das suas águas é quebrada por um monumento geológico relevante, as Portas do Rodão. Este afloramento quartzítico, com o rio a passar numa estreita garganta, divide a Beira Baixa do Alto Alentejo. É o paraíso dos grifos podendo com alguma sorte observar-se, a partir do Castelo do Rei Wamba, pomposo nome dado a uma atalaia homenageando o último grande rei dos Visigodos, alguma raridade como um abutre africano ou uma cegonha preta.

Grifo nas Portas de Rodão.

Com a linha férrea a serpentear junto ao rio, após ultrapassada a Barragem de Fratel e recebido água do Ocreza na margem direita, outro castelo se ergue na paisagem ainda alcantilada e estreita. O altaneiro e bonito castelo de Belver, já no concelho de Gavião, observa lá do alto o magnífico passadiço que vai “morrer” na praia do Alamal, emoldurando as águas mansas do Tejo.

Continuando entre fragas rapidamente se espraia no Barragem de Ortiga, no concelho de Mação, e prepara-se para cumprimentar Abrantes apresentando-se na freguesia de Alvega.

Castelo de Belver visto do Passadiço do Alamal.

Começando a manifestar já algumas mansidão, conferida pela orografia do leito, faz uma pausa para arrefecer a Central do Pego, em jeito de requiem pela morte anunciada…

Já com a fortaleza abrantina à vista, encimando a colina mais alta da cidade, surge a primeira localidade fortemente industrial, Alferrarede, que no passado, juntamente com o Rossio ao Sul do Tejo e Tramagal, formaram o tridente de prosperidade na região.

No Tramagal pode-se observar os meandros do rio a partir dum miradouro, de autoria de Keill do Amaral, em homenagem ao Comendador Eduardo Duarte Ferreira, o ferreiro que foi muito mais que isso…

O Comendador Eduado Duarte Ferreira contempla o Tejo em Tramagal.

Continuando a sua viagem para a foz bordeja a antiga vila de Punhete, hoje Constância, onde Camões se perdeu de amores e onde recebe a contribuição hídrica do rio Zêzere.
Pouco depois arregala os olhos com uma visão monumental.

Numa pequena ilha no meio do rio ergue-se o templário Castelo de Almourol, atalaia guardiã do Tejo. A ordem para a sua construção terá partido de Gualdim Pais, Mestre da Ordem dos Templários num local outrora ocupado por Alanos, Visigodos e Muçulmanos.

Castelo de Almourol.

Após passar a laboriosa Chamusca inicia o seu percurso pela Lezíria Ribatejana e não é raro o vislumbre do garrido traje dum campino a cavalo, conduzindo toiros bravos.

Na margem norte, juntando-se ao rio Almonda, alaga o santuário de vida selvagem da Reserva Natural do Paúl de Boquilobo, residência habitual de muitas espécies de aves e plantas.

Esta foi a primeira área portuguesa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, sendo reconhecida como uma amostra representativa de um ecossistema terrestre onde se procuram formas de conciliar a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável.

Garça-branca-grande, uma das garças que se podem observar no Parque Natural do Paúl de Boquilobo.

Seguem-se Alpiarça, Almeirim e a sede do distrito, Santarém, onde os seus monumentos góticos há muito testemunham quer a mansa passagem das suas águas, quer as suas cheias a transformarem a Lezíria em mar, fertilizando os terrenos onde as garças, as cegonhas e os patos são os residentes habituais.

A 7 Km de Salvaterra de Magos deparamo-nos com a aldeia palafítica de Escaroupim.
Escaroupim é uma típica aldeia piscatória, formada em meados dos anos 30.
Alves Redol, escritor da vizinha Vila Franca de Xira, chamou “nómadas do rio” a estas famílias que durante os meses de inverno se deslocavam de Vieira de Leiria para o rio Tejo, para as campanhas de pesca de inverno, regressando no verão à sua terra natal, para pescar no mar. Alguns destes pescadores foram ficando pelas margens do Tejo, formando pequenas povoações piscatórias ao longo do rio, os Avieiros.

Faina dos Avieiros que ainda restam no Tejo.

À chegada a Vila Franca de Xira, de forte tradição tauromáquica, a velhinha Ponte Marechal Carmona dá as boas vindas, saudosa do movimento constante anterior à construção das pontes de Lisboa.

Aqui o Rio ganha largura, tornando-se um verdadeiro mar: o Mar da Palha.

Local de invernada de muitas aves aquáticas constitui uma das zonas húmidas mais importantes da Europa e dá corpo à Reserva Natural do Estuário do Tejo. Os golfinhos, antigamente inquilinos permanentes, devido à pressão humana e poluição passaram a ser visita esporádica dos meses de verão.

O Mar da Palha em Lisboa.

Antes de se lançar no mar, junto às fortalezas de S.Julião da Barra e do Bugio, ainda há tempo para um vislumbre pelas vielas de Lisboa, da mouraria onde rufias e cantadeiras desafiam as velhas guitarras portuguesas.

A luz e cor da cidade nova e cosmopolita, com suas majestosas pontes, é já uma recordação quando o rei Neptuno dá as boas vindas às águas nascidas em Albarracim…

Forte de S. Julião da Barra.

Texto e Fotos: Jorge Santiago/mediotejo.net

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Jorge Santiago
Nasceu a 30 de Janeiro de 1961 em Lisboa e cresceu no Alentejo, em Santiago do Cacém. Dali partiu em 1980 para ingressar no Exército e no Curso de Enfermagem. Foi colocado em Santa Margarida e por aqui fez carreira acabando por fixar-se no Tramagal em 2000. A sua primeira ligação à Vila "metalúrgica" surge em 1988 como Enfermeiro do TSU. Munido da sua primeira câmera digital, em 2009 e com a passagem à situação de reserva, começou a registar a fauna do Vale do Tejo, a natureza e o património edificado da região, as ruas, as pessoas... Com colaborações regulares em jornais da região e nacionais este autodidata acaba por conseguir o reconhecimento público, materializado em alguns prémios. Foi galardoado na 8ª Gala de Cultura e Desporto de Tramagal na categoria de Artes Plásticas (Fotografia) em 2013.

2 COMENTÁRIOS

  1. A Reserva Natural do Paul (sem acento!) do Boquilobo não é um parque natural é uma reserva natural e esta distinção tem importância porque nas reservas naturais o principal objetivo é a conservação da natureza, de um ou mais ecossistemas, todas as outras ações que se realizem não podem comprometer este objetivo primordial. Um parque natural, é mais abrangente pretende-se a conservação de natureza através da manutenção de ecossistemas que ao longo dos de gerações forma humanizados com utilização de práticas sustentadas. Sugere-se a consulta de legislação a esse respeito (Decreto Lei nº142/2008) que aliás vem transpor para a realidade nacional as diretivas mundiais expressas para a tipologia das áreas protegidas através da União Internacional para a Conservação da Natureza. Embora a garça branca grande ocorra na reserva natural é uma espécie que só começou a aparecer de forma regular no território nacional há uns dez anos. Para além desta espécie nidificam na Reserva Natural do Paul do Boquilobo mais 7 espécies de garças (garçote, g. branca pequena, g. boieira, papa ratos, g. noturna, g. cinzenta e g. vermelha) para além do colhereiro e do maçarico preto que, embora aparentados, não são garças. Esta diversidade de espécies contribuiu para que em 2000 o Paul do Boquilobo estivesse incluído entre os 50 locais europeus com maior importância para conservação das garças. O logotipo da Reserva Natural do Paul do Boquilobo, como aliás também o logotipo da Reserva da Biosfera do Paul do Boquilobo é efetivamente uma garça mas, tanto num caso como noutro uma garça estilizada que não representa nenhuma espécie em particular muito menos a garça branca grande cujo aparecimento na reserva, como em Portugal, é relativamente recente .
    com os melhores cumprimentos

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