À Descoberta | Pelas margens da Ribeira da Foz no trilho das clareiras do bosque ripícola

Por estes dias, na preparação para o regresso ao trabalho e no desabituar do tempo fácil e vagaroso com cheiro a férias grandes, nada melhor que aliar o poder da natureza, o ar puro e a liberdade de calçar as sapatilhas para seguir e partir à descoberta. Encontrar lugares fantásticos na região, mesmo à porta de casa: bosques com o seu quê de magia e misticismo, cascatas e ribeiras de margens verdejantes e repletas de fauna e flora que vamos tentando adivinhar à escuta e observando, de olhos prostrados nos trilhos que pisamos. A viagem não se mede pela distância que se percorre, mas sim, pela forma como embarcamos e dela tiramos o máximo partido. É por isso que, desta vez, o mediotejo.net foi conhecer a pequena (mas bem grande) rota da Estação da Biodiversidade da Ribeira da Foz. Material obrigatório? Máquina fotográfica e/ou telemóvel prontos a registar telas naturais, que mais parecem aguarelas.

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Pode ser visto como uma breve caminhada, e serve para todos, mesmo todos. Os que estão mais familiarizados com trilhos pedestres, os que não são grandes fãs de atividade física, os que por alguma razão não podem simplesmente fazer esforços ou não têm grande resistência. Na verdade, este é um circuito que pode muito bem auxiliar na cura de grandes males, quase um trilho terapêutico, encravado no vale e onde outrora muita gente passou grande parte dos seus dias, lavando a roupa, cultivando nos terrenos férteis ali desbravados, pescando, trabalhando na floresta.

A Ribeira da Foz, este óasis de conservação da natureza e corredor ecológico, que fica entre a fronteira do concelho de Constância, a sul, e o concelho da Chamusca, ganhou ali em 2017 uma espécie de “via sacra” da biodiversidade, com várias estações onde absorver através de painéis expositivos conhecimento sobre a fauna e a flora do local.

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Agora que abrimos um pouco o apetite, talvez seja boa ideia explicar como chegar ao ponto de partida, certo?

O mediotejo.net acompanhou um dos muitos passeios interpretativos que costumam ser organizados ali, pelo Centro de Ciência Viva ou pelo Parque Ambiental de Santa Margarida, em Vale de Mestre, e por isso indicamos o ponto de encontro usual.

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O início dá-se na Capela de Santo António. Era ali que se faziam as grandes festas do concelho. Hoje, há dificuldades em recuperar aquele património religioso, que fica encimado com vista para a vila Poema. Diz-se entre a comunidade que foi a segunda “igreja” a ser construída em honra a Santo António, tendo a primeira sido erguida em Lisboa.

Contamos com o astrónomo e responsável pelo Centro de Ciência Viva de Constância, Máximo Ferreira, o Engenheiro Pedro Serafim da Altri Florestal e do técnico do Parque Ambiental, Engenheiro Tiago Lopes, para nos guiarem nesta aventura de conhecimento, observação e absorção do corredor ecológico da Estação da Biodiversidade, num percurso de cerca de 2 km ao longo da Ribeira da Foz.

Foto: mediotejo.net

Existem alternativas de percurso pedestre, que não estão marcadas, mas com trilhos e estradões abertos que permitem chegar à EBIO e ao açude da ribeira. Esticam o percurso a uns 5 a 7 km. Quem assim o preferir, pode fazer como nós, e seguir em viatura própria pela Estrada Nacional 118. Pode partir-se tanto da capela como do Parque Ambiental, em Vale de Mestre.

A Estação da Biodiversidade (EBIO) da Ribeira da Foz constitui-se de um percurso circular de quase 2 km, com 9 painéis de informação sobre a biodiversidade, com especial destaque para os insetos e plantas.

O trilho inicia entre as folhagens e arvoredo da galeria ripícola, prosseguindo pela antiga levada que vai dar ao antigo lagar. Vamos cruzando paredes de rocha e acumulações de  magmatitos, seixos/calhaus rolados e quartzitos.

Depois, acompanhando o percurso apanhamos pelo meio o esplendoroso açude da Ribeira da Foz, local onde apetece refrescar, sentar e fazer sala. A tranquilidade daquele observatório de natureza, que ecoa os sons da água que escorre da nascente, à passarada que esvoaça entre os ramos depois o vigilante gaio dar sinal da presença de estranhos, os galhos dos amieiros e salgueiros que vão baloiçando com a brisa que os atalha e clamando atenção, puxando-nos o olhar para cima.

Ouve-se o chilrear do tentilhão, a passagem do chapim, avista-se o bico-grossudo a lançar as asas ao voo, entre os ramos.

Dali, a saída faz-se de aventura, pela ponte suspensa com cabos de aço e madeira. Pede-se equilíbrio e desafia os que ter os pés assentes no chão.

Foto: mediotejo.net

Se o consola, saiba que no final deste pequeno e desafiante esforço, e já em terra firme, a recompensa estará do lado esquerdo. Terá à sua espera um manjar de amoras silvestres bem docinhas, e à discrição, que ajudam a ganhar fôlego para uma pequena escadaria-caracol escavada na encosta, e que nos leva a subir até a um estradão florestal que guiará a reta final da rota da biodiversidade.

Já no topo, passo a passo no estradão, se podem avistar as copas das árvores, altas e abundantes. Dali, afiançam, se avistam aves com melhor amplitude num miradouro imenso e natural.

Se vier munido de equipamento para tal, saiba que tem ali o ponto perfeito para registar e avistar a avifauna.

A Ribeira da Foz, apesar de muito explorada e muito ligada a Constância Sul e às suas gentes, pertence já a Chamusca. Explicam-nos que, existem documentos históricos que o mencionam, se trata de terrenos que foram pertença da Quinta da Cardiga, e que ali existiram marcos com a cruz de Cristo a delimitar a propriedade.

Ali se praticava agricultura, e há mais de 30 anos funcionou um lagar. Havia também muita pesca. Os mais velhos têm histórias deliciosas para contar associadas a este recanto, e muita gente ali nasceu.

A água é muito rica em ferro, e em zonas de clareira, nota-se que há acumulação de ferro no fundo da ribeira que emite coloração avermelhada, espelhada onde o sol toca. O mesmo acontece nos pegos e água parada existentes ao longo do trilho.

Da galeria ripícola desenhamos trilhos entre o choupo, o amieiro, o lodão, e o freixo. Encontramos na envolvente da EBIO, a guardar este segredo bem guardado do vale, carvalhos, sobreiros e azinheiras, juntamente com vegetação de folha persistente como as murtas e o medronheiro.

Foto: mediotejo.net

Entre os arbustos saltam-nos nomes como o Sanguinho-de-água de folha fina e mimosa, ou o embude, planta habitual junto de ribeiras ou regatos e que é mortal devido ao alto nível de toxicidade. Uma ligeira porção desta planta tem a capacidade de matar um bovino de 500 kg.

A paisagem vai sendo pintada pelo excêntrico feto-real, o mais vistoso neste tipo de sítio húmido e que dá o ar selvagem, místico e apelativo entre as gradações de verde e o reflexo da luz que entra na clareira.

E depois vamos passando pelas bagas vermelhas da gilbardeira, também conhecida como giesteira e cujos ramos eram muito usados para fazer as vassouras. As bagas lembram as coroas de Natal, não fosse este arbusto familiar do azevinho. Sem caule, as suas bagas nascem presas nas folhas. Apesar de apelativas, não deve as ingerir.

Na EBIO da Ribeira da Foz, um projeto da Altri Florestal e trigésima primeira Estação da Biodiversidade aberta ao público no país, estão sempre a encontrar-se novas espécies.

As EBIO são percursos pedestres curtos, com extensão máxima de 3 km, sinalizados no terreno através de painéis informativos  que funcionam como guias de campo sobre a riqueza biológica dos lugares onde se inserem. Permitem a troca de informações e uma inventariação/monitorização pelos cidadãos em colaboração com as entidades, promovendo a ciência de cidadania em plataformas móveis ou aplicações disponíveis para smartphone, com objetivo de melhorar conhecimentos sobre a biodiversidade das florestas portuguesas.

Descobriu-se que o gavião é umas das aves de rapina a nidificar na área, e é comum encontrarem-se por ali abelharucos e guarda-rios.

No leito da ribeira passeiam-se lontras que aproveitam para petiscar lagostins e até houve um avistamento de um lagarto-de-água.

Além de texugos e doninhas, presenças habituais neste tipo de bosque, crê-se que por ali existam gatos selvagens. Até agora ninguém conseguiu avistá-los, mas há grande probabilidade de existirem.

Foto: mediotejo.net

E como as evidências são muitas, com troncos enlameados e coçados, e com os trilhos fuçados de onde saíram mimosas raízes, além das múltiplas pegadas que vão deixando, por ali andam apressador os javalis, nesta sua espécie de retiro, prontos para os banhos nos pegos de águas estanques e de baterias carregadas abrem carreiros nas veredas e furam as silvas num ápice. Dependendo da altura do ano e da hora do dia, é possível que nem dê por eles e só encontre os vestígios onde estiveram na madrugada anterior.

E a lista pode muito bem continuar, pois ainda há muito por descobrir. A Ribeira da Foz é mapeada de altos valores culturais e naturais, estando em constante estudo e avaliação para a preservação da biodiversidade.

Ali é feita monitorização por pesca elétrica para estudar a diversidade de peixes de água doce. Desde 2017, data da inauguração, já foram feitas três pescas elétricas. As espécies mais significativas são a lampreia-marinha, a boga portuguesa, o barbo comum, a enguia europeia e o escalo do sul.

Aparecem, também aqui, espécies exóticas e há impacto brutal nas espécies nativas, algo já muito divulgado acerca do rio Tejo, onde desagua, nomeadamente pela presença do gigante de fundo, o siluro.

Os invasores, espécies exóticas introduzidas, são uma ameaça e contam-se desde os lagostins, à perca-sol e ao góbio.

Enquanto olhamos o painel sobre as espécies piscatórias, já pousam por ali libelinhas e libélulas. Sim, a viagem até serve para aprendermos a diferenciá-las, quais peritos na matérias: as primeiras posam com as asas fechadas, as segundas com as asas abertas. As primeiras têm os olhos separados. As segundas têm-nos juntos.

Também se encontram, com sorte, nas encostas e nas rochas, répteis a apanhar sol. E borboletas, tantas! Várias espécies, que vão pousando e saltitando, como quem assume a liderança dos passos e nos leva no seu voo.

Foto: mediotejo.net

E nisto vamos sendo seguidos por borboletas, com alguma inveja do seu majestoso e meticuloso voo. Os entendidos nos censos, que por ali vão acontecendo, havendo muitos encontros de observação noturna de espécies, contam ali dezenas e dezenas de espécies diferentes, machos e fêmeas.

Nesta manhã, fomos apadrinhados por uma borboleta-zebra, que seguiu a sua vida. Mas algures no regresso à alameda de amieiros compridos, que ladeia a ponte de regresso ao ponto de partida, vimos de relance uma em tons brancos e outra azulada. Não lhe fixámos os nomes. Talvez seja motivo para querer lá voltar, conhecendo mais pormenores e criando novas oportunidades de encontrar a vida que ali acontece, longe do rebuliço do quotidiano e desviada do trânsito movimento da Estrada Nacional 118.

Muitos não saberão que, naquele ponto onde passam todos os dias, se ergue um santuário que aguarda visita.

Espreite na fotogaleria abaixo os trilhos do corredor ecológico da Ribeira da Foz, deixe aguçar a curiosidade e vá preparando as sapatilhas para se fazer ao caminho. Não há margem para desilusões.

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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