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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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À Descoberta | Park do Rato: quando o seu vizinho abre o portão e lhe diz que pode usar a piscina

À entrada há um aviso: “Parque privado de utilização pública. Seja responsável por si e pelos seus. Mantenha o Parque Limpo”. O “Park do Rato”, ou Salgueyro – Park, pertence a Fernando Ferreira, proprietário de uma serração na localidade de Matas, concelho de Ourém, a poucos metros do local onde instalou uma piscina e parque de merendas para convívio de amigos e que hoje disponibiliza à população. “Dá-me prazer”, afirma, admitindo que devem passar pelos espaço, nos dias mais quentes, cerca de 500 pessoas. 

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Quando em 2016 fomos à procura do Parque de Merendas de Matas, na freguesia de Matas-Cercal, concelho de Ourém, seguimos a indicação de alguns moradores que nos haviam informado sobre a presença de uma piscina muito concorrida – e gratuita! – nas imediações. Investimento público por certo não era, embora quem por ali passasse manifestasse dúvidas sobre a natureza da estrutura. Seguindo as tabuletas castanhas de “Parque de Merendas” não foi porém difícil dar com o espaço, instalado no fundo de um vale, próximo à zona fabril de Matas. A propriedade privada é frisada logo à entrada, por meio de uma grande pedra esculpida com essa informação, mas do dono há pouco sinal.

O portão está aberto das 07h30 às 21h30. Façam favor de entrar e usufruir.

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Portão de entrada do Park do Rato Foto: mediotejo.net

Em dois anos notam-se vários melhoramentos, nomeadamente no que toca à vedação em torno do Parque e respetiva piscina, no parque infantil e a instalação dos chamados equipamentos de “desporto natureza”, à semelhança dos que se encontram espalhados pelos parques municipais. Todo o espaço permanece extremamente limpo, há dois grandes caixotes do lixo, grelhadores, wcs, mesas de piquenique com uma sombra de fazer inveja a muito parque público e um relvado bastante estimado e soalheiro. A água da piscina é convidativa e de um azul que não oferece receios ao observador.

Há ainda melhoramentos no que toca aos painéis informativos, com indicação do telefone da GNR e dos Bombeiros e do próprio proprietário, caso se registem problemas. Um edifício de madeira parece indicar a existência de um Bar, mas há hora em que o mediotejo.net passou pelo local encontrava-se fechado. Não sendo uma piscina oficial não há nadadores salvadores e a informação de que cada um deve zelar pela respetiva segurança encontra-se bem visível ao longo do espaço.

Há um parque de merendas e equipamentos infantis e de desporto natureza Foto: mediotejo.net

Foi uma história algo invulgar a que nos contou Fernando Ferreira há dois verões e com a sua dose de altruísmo. Começou por volta dos inícios do século, quando os filhos deste começaram a querer fazer casas num terreno paralelo à cova onde se situa hoje o Park. O silvado que aí existia era de tal ordem que Fernando Ferreira, contou-nos, foi falar com a proprietária da cova para que esta limpasse o terreno. Nada feito, passaram-se três anos em negociações, até que Fernando acabou por adquirir o espaço. Feito o negócio, começou por fim a limpar o mato, em 2008.

“Comecei a cortar o mato em maio e pensei meter lá uma mesa”, explicou, na expetativa de aí fazer alguns convívios. “Acabei por meter oito”. No local existia uma presa de regadio, a qual alargou e fez um “lago”, na ocasião com a intenção de fazer aí uma estrutura para alguns jogos de pesca. No final do verão, a sua pequena praia caseira juntou cerca de 1500 pessoas numa grande festa, onde se comeu e bebeu às muitas dezenas de quilos e litros, enumera. Terá sido por essa altura que o Park começou a ganhar fama…

Relvado permite estender a toalha Foto: mediotejo.net

“Começaram a vir pessoas à piscina, ainda com o fundo em terra”, explicou Fernando. Cerca de 20/30 pessoas, jovens, mas já em idade adulta, que por ali se divertiam apesar de o fundo da piscina ser só lama e não haver qualquer forma de se lavarem. “As pessoas saiam daqui enlameadas e voltavam”, relembrou, ainda surpreso com aquele entusiasmo. Decidiria então investir e criar um equipamento balnear em condições, aberto à população.

Começou pela piscina. Sendo a água da antiga presa muito “férrea”, fez dois furos e procurou água mais própria para banhos. Aquando o processo, surgiu um cheiro intenso e desagradável que quase invalidou o projeto. Segundo Fernando Ferreira, foi o responsável pelos furos que lhe explicou que se tratava de água termal, semelhante à utilizada nas termas de Monte Real, razão pela qual exalava aquele cheiro intenso, que desapareceria em contacto com a atmosfera. Não há registo de curas de pele, apenas uma ou outra história de algum alívio após um mergulho, mas também nenhum problema de contaminação a registar, afirma.

Há um parque de merendas e equipamentos infantis e de desporto natureza Foto: mediotejo.net

O controlo da água é feito pelo proprietário, que periodicamente faz análises em laboratório. Chegou a ter uma promessa dos serviços municipais para um controlo mais organizado, mas nunca teve conhecimento da passagem dos funcionários. Garantiu, porém, que a água é “pura” e nunca ali teve problemas.

Acabaria por fazer a estrutura em pedra, pintada de azul como as piscinas “oficiais”, e arranjar toda a envolvente, que hoje tem relva, e onde as pessoas se deitam ao sol. O parque de merendas ao lado já conta com duas dezenas de mesas, com casas-de-banho e churrasqueiras. Joga-se ao prego e fazem-se piqueniques, enquanto os mais novos saltam para a piscina.

Em 2016 o mediotejo.net passou pelo Park durante uma tarde de muito calor à procura do proprietário de tão estranha praia. Encontrou-o cheio, com dezenas de pessoas a conviver e a nadar na piscina. “É só a segunda vez que cá venho, mas julgo que se pode andar aqui à vontade”, comentou um senhor meio atrapalhado, surpreendido pela referência a um suposto dono de tão aprazível espaço. Voltámos no dia seguinte, cerca das 20 horas, e encontramos o senhor Fernando na rega e a apanhar o lixo deixado durante o dia. Durante a conversa, três adolescentes ainda nadavam na piscina e chegam duas jovens, já ao anoitecer, para também se divertirem um pouco.

Neste início de agosto regressámos ao parque numa manhã amena, encontrando apenas algumas pessoas a apanhar sol e alguns piqueniques preparados no Parque de Merendas. “Se tivesse ido à tarde tinha encontrado muito mais gente”, comentaria Fernando Ferreira bem disposto quando lhe ligámos a dar conta da passagem.

Fernando Ferreira é bisneto de um jovem do norte que veio até ao concelho com as tropas francesas durante as invasões. Perdida a guerra, ficou por Urqueira e aí fez família. Será desse avô que vem a alcunha de Rato, que ainda hoje é o cognome da família e do parque de lazer que criou na sua propriedade.

Ao parque chegam pessoas de todo o país. O proprietário gasta ali por ano 6/7 mil euros, mas é a autarquia quem recolhe o lixo. Há protocolos já apalavrados e a expetativa de que num verão próximo ali possa vir a estar destacado um nadador-salvador.

Fernando Ferreira é o proprietário da Piscina e Parque de Merendas Foto: mediotejo.net

Mas porquê tudo isto?. “Pelo prazer”, comentou várias vezes Fernando Ferreira, que confessou não saber nadar e ter tido uma vez um acidente quase fatal no mar. Gosta de conviver e desde que não venham a mal a porta está aberta. “Continuo a ter felicidade nisto”!

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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