Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Segunda-feira, Agosto 2, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Semana Santa do Sardoal | “Paramentos da Igreja Matriz”

A indumentária utilizada pelos celebrantes na liturgia é derivada das indumentária gregas e romanas. No inicio, a forma de vestir de uma determinada classe social foi adoptada para o culto cristão, sendo esta prática mantida na Igreja, mesmo após a paz de Constantino. Segundo alguns investigadores eclesiásticos, os padres usavam as melhores roupas, reservadas para estas ocasiões.

Enquanto na antiguidade cristã o vestuário quotidiano diferia no uso não pela forma particular, mas pela qualidade dos tecidos e a sua decoração específica, no decorrer das invasões bárbaras, os costumes e a forma de vestir dos novos povos, introduzidos no Ocidente, conduziram a mudanças relativamente à moda mais profana. A igreja, pelo contrário, manteve inalteradas as roupas usadas pelos sacerdotes nos cultos públicos; foi assim que as roupas de uso quotidiano acabaram por se diferenciar das do uso litúrgico. Na época carolíngia, por volta do século VIII, os paramentos de cada grau do sacramento da ordem foram definidos, assumindo assim a aparência que hoje conhecemos.

Além das circunstâncias históricas, os paramentos litúrgicos têm uma função importante nas celebrações: primeiro, o facto de não serem usadas no quotidiano, tendo desta forma um sentido cultual, distinto do dia-a-dia e das preocupações dos celebrantes, no momento do culto do divino. Em segundo, as formas largas desta indumentária, como é o caso da casula, põem em segundo plano a individualidade de quem as usa, dando ênfase à sua função litúrgica. Podemos dizer que a ocultação do corpo do sacerdote sob o paramento, em certo sentido, o despersonaliza,  deixando de ser o centro, para revelar o que inporta, Cristo. Resumindo as formas e tipos dos paramentos, recorda em nós que a liturgia é celebrada inpersona Chisti e não em próprio nome.

SRD2No rito  romano a forma extraordinária de paramentação é acompanhada por orações relativas a cada paramento,  podendo ainda hoje encontrar-se textos destas orações, em algumas sacristias.

A igreja Matriz de Sardoal é um templo que ao longo da sua já longa história, foi objeto de doações e aquisições de verdadeiras obras de arte para a prática do culto, como cálices, píxides, âmbulas, custódias, cruz processionais e também de paramentos.

SRD3A Matriz possui assim uma colecção de dezenas de casulas, dalmáticas e pluviais. Com conjuntos completos ou individualizados, com os respetivos manípulos e estolas, onde são representados motivos de cariz vegetalista e motivos eucarísticos. Ainda a nível dos paramentos, podemos ainda encontrar, frontais de altar, bolsas corporais e véus de cálice que vão desde o século XVII até à actualidade, sendo que da-se um especial destaque para um conjunto do século XVIII, de grande riqueza decorativa.

Exemplifiquemos agora alguns desses paramentos:

As casulas têm origem na paenula romana, sendo conhecida por ser uma veste larga e de ampla forma circular, usada como resguardo contra o frio e contra a chuva, alvo depois de grandes adaptações formais. Compõem-na o corpo da peça e os sebastos, em pilar ou em forma de cruz, geralmente, delimitados por um galão de aplicação, que marcam o meio da peça, na sua frente e reverso. É uma veste litúrgica utilizada obrigatoriamente na celebração eucarística, de forma simbólica e já Santo Isidoro considerava que a casula era uma veste que envolvia o homem,  sendo assim chamada porque seria como uma pequena casa.

As dalmáticas são inspiradas nas peças de vestuário grego, tendo sido um tipo de veste usada pelos escravos da Dalmácia e que, posteriormente, terá sido adaptada, cerca do século II, como indumentária de jovens cidadãos do império romano. É formada pelo corpo da peça, com mangas largas e abertas, sebasto longitudinal e, por vezes, uma gola amovível. Normalmente esta é a veste dos diáconos nas missas solenes, procissões e bênçãos. É símbolo de distinção, já que a dalmática  foi primeiro adoptada pelo papa, excepcionalmente usada sob a casula, estendendo-se posteriormente a bispos, cardeais e abades.

O Pluvial, ou capa de asperges, tem igualmente origem na paenula romana, sendo assim chamado pela sua ligação às cerimónias onde se recorre ao ato de aspergir com água benta.

SRD1É de forma semicircular, aberto na frente, fechando-se por um pano, munido de ganchos ao qual por vezes, se justapõe uma peça metálica. Lateralmente estes paramentos dispõem, no sentido longitudinal, dois sebastos frontais. Nas costas surge ainda o capuz para protecção da chuva, peça que também se foi estilizando e transformando, com o tempo, num adereço decorativo com o formato de escudete. Não estando regulamentado para o ofício da missa, o pluvial estava prescrito para procissões, bênçãos realizadas no firmal de altar e outras solenidades.

O Frontal de altar é o ponto central de toda a celebração do ofício da missa, é a peça de arte sacra que mais se destaca, adaptada a partir da toalha que cobria a mesa até ao chão. É composto por frontaleira  e painéis centrais divididos por sebastos verticais e delimitado por um galão aplicado.

A Bolsa Corporal, por fim, é uma capa de cartão revestido a tecido, destinado a guardar o corporal depois de terminado o ofício da missa.

SRD7Importa aqui ainda referir  a simbologia das cores adotadas na indumentária religiosa. São cinco as cores principais da liturgia romana: o branco, o vermelho, o verde, o preto e o roxo. O ouro é utilizado como substituto das três primeiras, desde que seja ouro verdadeiro e nunca uma imitação.

O branco é considerada a cor perfeita onde se consubstanciam todas as outras. A mais luminosa que ajuda na busca da fé esclarecida e da revelação da inocência  e pureza no coração dos crentes.

O vermelho é usado para a celebração dos Apóstolos e Mártires da Igreja. Vivo e brilhante associado ao fogo e ao sangue, o vermelho revela-se sinónimo de abnegação e sacrifício, efetuado em nome do amor divino.

O verde consubstancia-se na esperança de alcançar a salvação eterna. A igreja recorre a esta cor num tempo em que não ocorre nenhuma celebração específica no calendário dos ofícios e festas religiosas.

O preto marca a época do Advento, os dias de jejum, os ofícios de defuntos e ainda o período que decorre entre a septuagésima e o sábado de Aleluia. É um sinal de luto rigoroso, de dor e de tristeza.

O roxo comunga dos mesmos sentimentos de mortificação e penitência explicitados pela cor preta. Está ainda associada à festa dos Santos inocentes e ao 4º domingo da Quaresma.

SRD6Importa também referir a ornamentação, que confere à indumentária religiosa um valor acrescido quer a nível artístico quer a nível religioso e simbólico, dignificando a função de celebrante econferindo maior solenidade aos atos sagrados.

A decoração dos paramentos dos Séculos XVII e XVIII no Sardoal recorre a motivos geométricos e vegetalistas, embora se continue a utilizar os veludos, damascos e cetim, que tinham tido um incremento significativo no reinado de D. Manuel I,  As sedas e os tafetás, com os brocados e brocateis, os bordados de fio de ouro e prata são um verdadeiro deleite para os olhares, conferindo aos paramentos uma acrescida sacralidade.

SRD5Deste modo, podemos afirmar que a exuberância do barroco na sua decoração manifesta-se de forma clara no fabuloso conjunto de paramentos de cor branca na Matriz de Sardoal, nos seus ornamentos de bordados com fio de ouro e prata, dando-lhes uma densidade sumptuosa, com um labirinto brilhante dos fios de ouro entrelaçados que lhes dá um requinte supremo.

Texto de João Soares e Maria Rocha

Fotos de Paulo Sousa

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome