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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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Semana Santa do Sardoal | “Painel de Gil Vicente”

A Praça da República, na vila de Sardoal é o centro mais importante da mesma, para aí convergem todos os atos da vida dos sardoalenses e daí igualmente irradiam as decisões mais significativas que determinam a vitalidade da vila. Sendo então um lugar privilegiado no dia-a-dia das pessoas, houve, ao longo dos tempos, a preocupação de o enriquecer com alguns elementos de particular significado.

Um destes elementos, que falaremos em seguida, é o painel azulejar Gil Vicente, que se encontra aplicado na parede sul da Capela do Espírito Santo, um edifício do século XVII, ocupando logo aí um lugar de destaque no Sardoal.

Em Janeiro de 1934, e sob a presidência de Lúcio Serras Pereira, o Sardoal inicia uma fase de requalificação da Praça da República. Para o efeito, determina que para o embelezamento da vila se contacte o arquiteto Raúl Lino, proveniente de Lisboa, pelos seus conselhos e fiscalização das obras. Disto é prova a sessão de reunião da Câmarade 18 de Janeiro de 1934, onde se delibera o pagamento “A Raúl Lino, morador em Lisboa a quantia de 300 escudos, pelo seu serviço prestado em vistoria de embelezamento da vila, pela autorização número 29.

A atual praça, tal como a conhecemos agora, é de indicação do afamado arquiteto. O pelourinho ali colocado foi deliberação do mesmo executivo em 16 de Novembro de 1933, tendo sido demolido o original, para obras de terraplanagem e calcetamento da praça, durante a presidência de Máximo Maria Serrão.

Pensou este executivo, com base nos elementos dispersos, esboçar um desenho que servisse de base à sua reconstrução. “Oarquitecto Raúl Lino aperfeiçoou este desenho nos seus detalhes artísticos a fim de que o Canteiro procedesse sem dificuldade à respectiva execução. Foi este desenho presente à Câmara nesta sessão, que serviu de base à proposta datada de 12 de Outubro findo, apresentada pelo canteiro Delfino Pereira Cacho & Filhos do Rocio de Abrantes, que se propunha à execução do referido pelourinho, pela quantia de 4200 escudos, sendo a base de degraus em cantaria de Tomar e a coluna em mármore.

É nesta vontade de edificar uma obra de valor artístico que, neste mesmo ano, o executivo camarário em 25 de Janeiro de 1934 deliberou “mandar colocar um quadro de azulejo na parede do Espírito Santo para o lado sul, com a figura de Gil Vicente, autor do Teatro Português, em virtude do mesmo ser considerado cientificamente como natural desta vila, autorizando o respetivo pagamento pela autorização número 65. Em dois de Agosto deste mesmo ano a Câmara autorizou o pagamento “a Gabriel Constante Lisboa, a quantia de 1000 escudos por conta do fornecimento do paneaux em azulejo pela autorização numero 14.

Em 9 de Agosto a Companhia de Cerâmica Lusitânia informa que se encontra quase concluída a encomenda de azulejos destinada a esta Câmara, devendo ser feita a sua expedição na corrente semana.

São estes os azulejos do fontanário da praça, de estilo neo-rocaille, produção da fábrica de Cerâmica Lusitânia de António Costa. Em 25 de Outubro é autorizado o pagamento de 138 escudos e 15 centavos provenientes da folha de pessoal na colocação do paneux Gil Vicente, na semana finda em 15 de Setembro. A 18 de Outubro de 1934 é dada a autorização para a liquidação do painel de azulejos ao pintor Gabriel Constante na quantia de 1825 escudos.

Sobre o pintor, cabe-nos dizer que Gabriel Mateus Constante nasceu em Lisboa em 1876 e faleceu em 1950. Sendo um pintor contemporâneo, discípulo de João Vaz e Veloso Salgado, representou principalmente paisagens bucólicas e marinhas a aguarela. Pertenceu ao ciclo de Artur Bual, colaborou com a Fábrica de Cerâmica Lusitânia, durante os anos trinta, executando excelentes trabalhos seguindo um esquematismo Art-Déco. Está também representada uma obra sua no Hotel do Luso, com uma magnífica pintura no teto, datada de 1910. Gabriel Constante ganhou a sua primeira medalha em aguarelana Sociedade Nacional de Belas Artes. Em 20 de Agosto de 1985 a cidade de Lisboa fez-lhe uma homenagem na toponímia através de um edital em rua, com o seu nome no Bairro dos Lóios.

Voltando ao painel de Gil vicente, este é composto por 510 azulejos de cores azul ultramarino e azul-cobalto. Podemos ver lá representada uma cena da tragicomédia pastoril da Serra da Estrela, de Gil Vicente, peça enquadrada nas farsas, onde Jorge e Lopo, foliões e bailadores do Sardoal, dialogam com pastores, por paisagens da serra.

Podemos ver as figuras humanas com maior destaque, vislumbrando-se ao fundo um conjunto montanhoso, típico da zona retratada, Serra da Estrela, onde o bucólico e o campestre se unem na perfeição. O Painel tem ainda escrito na sua zona inferior central, encimada por uma pequena face de anjo, uma frase com o seguinte dizer: “SERRA PEÇOVOLO QUE CANTEIS Á GUIZA DO SARDOAL. ESSE HE OUTRO CARRASCAL ESPERAI ORA E VEREIS”.

A emoldurar este painel azulejar, temos, no mesmo material, uma moldura reta, encimada por dois elementos marinhos e uma concha no seu meio. Para além do efeito moldura, este painel cria um efeito arquitetónico, onde a própria moldura são colunas trabalhadas, com motivos florais vários, incluindo folhas de acanto e dois vasos de flores em cada canto do topo do painel.

De dia, a luz bate de frente nos tons azuis do painel, enaltecendo a sua superfície cerâmica, a cor da paisagem, dando vida aos seres.

O sol ergue-se e depressa a atmosfera enche-se de aves passeriformes e aquele espaço, de traços densos dá origem à azáfama diária, dando lugar à vida.

Ao entardecer, quem deambula pela praça e se senta nos gastos degraus do pelourinho, sente ainda a textura do calcário exposto à erosão, às risadas e aos segredos dos fins de tarde passados.

Esta obra artística é um ex-libris para o Sardoal. Obra essa cuja cena inspirou ainda teatros e cenários, poetas e pintores.

 

Texto de João Soares e Maria Rocha

Foto de Paulo Sousa

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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