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Segunda-feira, Junho 14, 2021

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À Descoberta | O segredo de Queixoperra, num Poço de encantos esculpido pela Natureza

Rumamos a Queixoperra, a partir de Mação, atravessando Penhascoso. O sol começou a aquecer bem cedo, a lembrar que estamos quase no verão. Já trazemos a lição estudada, porque sabemos que na aldeia é difícil o acesso à rede móvel, mas as coordenadas GPS ajudam a criar certezas sobre o caminho a seguir. Desengane-se se pensa que acertámos à primeira. Não. Devíamos ter cortado à direita antes da curva do Palheiro, na zona mais alta da estrada antes da ponte que vai em direção a Queixoperra. Um pequeno largo de mato rasteiro e um estradão bem pisado ajudam a perceber que é naquele trilho que se lançam os aventureiros e os guardiões do mais sagrado templo da aldeia: as azenhas do Poço das Talhas. O mediotejo.net desvenda os passos da história deste ex-líbris em terras maçanicas, o postal que cada vez mais “exploradores” levam de recordação, depois de um dia bem passado no concelho.

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Sabemos de antemão que não reúne consenso o caminho mais fácil para lá chegar. Afinal, foram as pessoas de Queixoperra que trilharam os acessos ao longo das últimas décadas, conforme a natureza foi deixando e mediante as necessidades de deslocação.

Há quem venha do centro da aldeia, pelas hortas e levadas, seguindo o rasto à ribeira, e aqui tem a marcação do percurso pedestre das Rotas de Mação, sendo que nas várias plataformas da associação surgem dicas preciosas sobre como chegar ao Poço das Talhas. Os caminhos estão limpos com ajuda do Centro Recreativo e Cultural de Queixoperra e da junta de freguesia, apesar de já ir faltando alguma sinalética devido a atos questionáveis de amigos do alheio.

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Mas pelo sim, pelo não, não se deixe levar pela sorte se não estiver para aventuras como a nossa. Vá até à aldeia, no largo do Centro Recreativo e Cultural onde se fazem as festas de verão, e peça auxílio. Todas as pessoas estão prontas a receber, afáveis e disponíveis, e muitos até o acompanham de bom grado até lá, dando-lhe indicações fidedignas.

Se preferir, utilize o portal das Rotas de Mação ou a aplicação móvel, e vá por sua conta e risco.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Avisos dados, cá vamos nós. Seguimos o estradão de terra, depois da curva do Palheiro. Deixamos o carro junto à estrada para evitar engarrafamentos desnecessários no meio da floresta e até por uma questão de segurança.

Vamos prontos para uma caminhada em tempo quente e seco, munidos de sapatilhas e roupa confortável, chapéu e na mochila temos água e alguns snacks. Ao pescoço a câmara fotográfica e no bolso o smartphone para registar aquele local envolto em fotogenia e para onde gostaríamos de nos teletransportar quando nos cruzamos com uma imagem postada nas redes sociais. Que apetecível fresquidão!

Depois de percorrer alguns metros em reta, cortamos no eucaliptal à direita, seguindo sempre por esse caminho marcado pelos proprietários de terrenos ali perto. Mas depois é na primeira cortada à direita, com ligeira subida, que devemos entrar. Na segunda consta uma propriedade privada com colmeias, e não é aconselhada a sua invasão, havendo entrada imediatamente anterior, quer por uma questão de segurança, quer por respeito pelo proprietário em causa.

Subindo um pouco, eis que já se houve a água a cair entre as rochas, num eco saboroso e leve, com uma bruma fresca a beijar-nos as faces esquentadas pelo sol madrugador de verão.

Em baixo, os telhados e as paredes rochosas e empedrados de tom avermelhado das antigas azenhas, cheias de segredos, manhas e artimanhas, desertas para contar a sua história aos visitantes.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Descemos e estamos dentro de uma fortaleza, como se numa aldeia isolada e doutro tempo, com os pedaços de terra lavrados e já com plantações de flores para adornar o espaço, com oliveiras e outras espécies autóctones, bem como milho e girassóis já a crescerem num verde sem igual. Falta muito pouco para pontilharem de amarelo o seu canteiro, assim que florirem.

Ali, a mesa de piquenique e a réplica do poço com o balde a fazer lembrar o mecanismo com que se tirava a água, compõem o quadro com a placa identificativa. É a partir daquele ponto que se consegue uma vista panorâmica sobre o espaço. À medida que nos aproximamos, conseguimos encontrar as ditas talhas, os buracos esculpidos pela força da água na rocha que fazem que, conforme a variação do caudal, esta escorra com mais ou menos intensidade, fazendo então lembrar a água a correr para dentro das típicas talhas de barro. Como aquelas que estão junto à réplica do antigo poço, feitas de barro, e quase conseguimos adivinhar o seu desenho e molde pelas mãos de um artesão da região.

Tal fenómeno das outras talhas, as que são abertas nas rochas pela água, alimentou inclusivamente mitos e lendas, como não poderia deixar de ser. Consta que, dentro de uma dessas talhas, está um homem. Pelo menos, assim diziam os antigos. Nunca ninguém o viu.

Foi ali que, há 50 anos, passou a maior parte da sua vida o moleiro Ricardo Marques, avô de Rui Silva, um dos impulsionadores da recuperação deste espaço de memória, usos e costumes.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Rui sonhava com o lugar para onde caminhou durante a infância, acompanhado da sua mãe, mas sem se lembrar do avô. Sonhava com aquele som da água da azenha e da pedra a moer os cereais para fazer a farinha. Esse som acompanhou-o sempre, e a certa altura, após um problema de saúde, que conseguiu ultrapassar, conseguiu também o tempo que antes não tinha para se dedicar a recuperar e restaurar o espaço, tão massacrado pelos incêndios. O fogo já havia destruído o edificado.

ÁUDIO | Entrevista com Rui Silva, neto do último moleiro do Poço das Talhas e que cumpre assim o sonho de recuperar, após 50 anos de interregno, o legado deixado pelo avô, Ricardo Marques

“Sinto-me um homem realizado. Sempre fui aqui criado, vim para aqui com a minha tia e com a minha mãe. Já não me lembro do meu avô, mas sei que saía daqui muitas vezes com uma lanterna a petróleo para ir para casa. Foi sempre um sonho que eu tive: com o barulho da pedra. Estava no ouvido”, conta.

A vida não lhe permitia o tempo necessário para poder vir, com a disponibilidade necessária para pôr as mãos na massa.

Rui Silva foi o impulsionador da recuperação do moinho do poço das Talhas, em Mação. Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Quando a saúde lhe faltou, Rui sentiu-se empurrado para aquele sonho e vontade antigos, aquele bichinho que estava sempre a lembrá-lo das suas origens. Apesar de doente, nunca lhe faltaram capacidades, e eis que decide começar a reerguer o património dos seus antepassados.

“Comecei a vir até aqui, com os meus irmãos, os meus amigos, todos aqueles que eu achava que alinhavam e que teriam um certo prazer em ver isto recuperado. E aqui começámos, perdendo as nossas manhãs, tardes, meios-dias de sábado e domingo. E hoje é um sonho concretizado”, garante, assumindo que nos últimos dois anos o destino tem tido sempre as mesmas coordenadas geográficas: N 39º 32′ 35.099” W 8º 3′ 59.699”

A febre foi tanta, que alastrou a toda a comunidade, dos mais velhos aos mais novos, e até as crianças já negoceiam com os pais bilhetes de ida às azenhas, como sítio predilecto para ouvir as histórias dos antigos e fazer as traquinices e descobertas que os seus avós também já haviam feito em miúdos.

Rui Silva admite que tem sido importante a dinamização de atividades pela associação local, atraindo os mais novos ao sítio que tanto diz aos seus avós, bisavós, trisavós,… E logo lembra o Dia da Criança, e a alegria de todos se encherem de farinha acabada de moer, feita a partir de milho biológico. “Mexiam, sujavam-se, e acho que saíram daqui tão felizes e realizados, que na manhã seguinte muitos diziam às mães «Ó mãe, temos que ir para lá, temos que ir para lá». E por isso, acho que já ficaram com o bichinho. Quando em pequeno se viu e ouviu, mais tarde voltamos a querer reviver o mesmo sítio. Acho que agora torna a estar implantado”, assume, falando pela sua experiência tão semelhante à que agora sucede com os mais pequenos residentes e descendentes da aldeia.

Lurdes Vicente com a neta Julieta. Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

E dúvidas houvesse, temos o caso de Lurdes Vicente, outra impulsionadora deste projeto de recuperação, que sendo avó de quatro netos, se regozija com o gosto e o brilho no olhar de cada um quando se encontra nas azenhas do Poço das Talhas.

ÁUDIO | Entrevista com Lurdes Vicente, uma das impulsionadoras do projeto e que idealizou a concretização do espaço museológico no antigo palheiro que albergava os burros, tendo criado uma exposição que explica o processo desde o cultivo do milho à moagem da farinha

Julieta, de 7 anos, já prometeu à avó que quer prosseguir com o seu trabalho ali. Parece que a passagem de testemunho para as gerações vindouras começa a ficar a assegurada e está em boas mãos.

Lurdes também sonhava com este renascer do Poço das Talhas, mas queria acrescentar-lhe valor, dar-lhe mais motivos para que outros quisessem distingui-lo como destino imperdível num roteiro pelo património local da região. E foi numa das suas buscas para a exposição permanente na sede da associação local sobre as tradições, onde funciona o único café da aldeia que é ponto de encontro e reunião, que Lurdes se apercebeu do potencial que havia de sobra: réstias de memórias sob a forma de ferramentas e utensílios usados pelos antepassados da Queixoperra, que dariam uma pequena exposição. E assim foi.

“Quando começámos a pensar em recuperar as azenhas, havia este espaço vazio, o palheiro onde o moleiro Ricardo guardava os burros. E eu dizia que devíamos arranjar forma de preencher este espaço, e eu pensei que a melhor forma seria reunirmos material envolvido com o cultivo do milho e com a moagem da farinha”, explica, enumerando que estão ali expostos materiais e ferramentas relacionados com o processo, incluindo os apetrechos que aparelhavam o burro para lavrar as terras e do transporte dos cereais e da farinha.

Todos os materiais são património doado por famílias da aldeia, legado valioso que fica disponível ao público, num ato de altruísmo sem precedentes, permitindo que quem não conheça possa saber mais sobre os nomes, as funções e utilizações, visitando o local que esteve desativado num interregno de mais de 50 anos.

“Assim podem saber mais sobre o que os antigos fizeram e deixaram”, nota Lurdes.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

O trabalho, garantem, não está terminado. E porque o sonho comanda a vida, agora surge a intenção de pôr a trabalhar uma segunda pedra, que servia para moer trigo. “O nosso sonho é pô-la a trabalhar também, já está em boa fase e neste verão devemos avançar”, diz Rui, confiante, e ciente deste casamento entre as gentes da aldeia e o Poço das Talhas e sua envolvente, onde há sempre alguma coisa para fazer e acrescentar valor.

Quanto à melhor altura para visitar, e para não defraudar expetativas, explica-se que o Poço das Talhas vive diferentes ciclos consoante a disponibilidade de água, isto é, no verão além de sentirem ali altas temperaturas que exigem que a visita seja feita de manhã cedo ou ao final da tarde, a quantidade de água não é tão esplendorosa como no inverno e início de primavera.

Porém, nessa altura é necessário ter cuidado, porque o caudal é tanto e tão intenso que enche uns bons metros que já marcaram na rocha a quota máxima, e dizem os locais que aí “mete respeito” pela força com que a água invade o espaço. Mas é esse o seu expoente máximo, a altura em que tudo está verdejante, até à chegada do tórrido verão. O que significa que, em final de maio, o ciclo mais apetecível já começa a fechar.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

A placa do espaço museológico do Poço das Talhas foi descerrada com uma pequena cerimónia, na manhã de sábado, dia 21 de maio, com um repasto típico servido a todos os que participaram neste projeto. Os aplausos foram muitos, tendo sido relembrados os donos das propriedades bem como os herdeiros que as cederam. Mas o maior aplauso e elogio, sublinhado pela presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, foi para as gentes de Queixoperra, um exemplo de união, proatividade e determinação, sendo que estão sempre dispostas a fazer mais e melhor em prol de um bem comum.

A pedra vai continuar a moer, e a farinha que dali sair já tem destino traçado, a caminho da valorização de todo o trabalho e esforço ali depositados, levando a marca de Queixoperra mais além: vai estar à venda em saquinhos de papel, podendo ser adquirida junto do Centro Recreativo e Cultural de Queixoperra. No lançamento, em grande, a farinha de milho amarela vai estar disponível na Feira Nacional de Agricultura, em Santarém, juntamente com o pão feito a partir desta.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Deixamos o registo, como habitualmente, em jeito de convite, porque nada é melhor do que praticar o verbo “Ir”, conjugado com o verbo “Sentir” e partir à descoberta. Só queremos deslindar um pouco do mistério e adoçar a boca aos aventureiros e curiosos que por aqui vão querer perder horas a caminhar, a apreciar e aproveitar o património local, a quietude e os dons da natureza.

Aproveite a viagem, vale uma entrada grátis. A porta está aberta e está mais do que convidado a entrar. O único requisito é deixar tudo como encontrou. Prepare-se para se perder de amores, recarregar baterias e ter alguns encontros (in)esperados. Boa viagem e não se esqueça do que se diz em Queixoperra: “Quem for ao Poço das Talhas há-de encontrar por lá alguém”. Com sorte, trará muitas histórias na bagagem.

FOTOGALERIA

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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