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À Descoberta | No trilho do Olho da Mari’Paula numa Páscoa de pandemia (PR11 ACN e GR54)

*texto atualizado às 09h25 de 4 de abril de 2021

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A confinar com a Serra de Aire e Candeeiros, um dos pontos fortes do concelho de Alcanena é a paisagem que se pode observar dos seus picos para a imensidão da planície. Aqui finda o Ribatejo e começa a Beira (litoral). De carga às costas e sapatilhas nos pés, em Domingo de Ramos pandémico, decidimos empreender outro tipo de penitência. O trilho é do PR11 ACN – Rota de Santa Marta.

O objetivo não é porém a célebre ermida, mas um ponto perdido nos limites da serra, a nascente do ribeiro do Carvalho, também conhecido por “Olho da Mari’ Paula”. Pelo caminho acabámos por confluir numa Grande Rota (GR54), um novo trilho a ser descoberto no Médio Tejo.

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“Vão a Santa Marta? O corte é já ali à esquerda”

Moitas Venda. Todos os anos, no feriado da Ascensão, a população desta freguesia de Alcanena sai em romaria até ao cabeço de Santa Marta, onde uma ermida com o mesmo orago se encontra quase escondida numa clareira no monte. Já noutros anos percorremos estes caminhos, mas confortavelmente de carro. O trilho existente, denominado PR11, prometia há muito outras aventuras.

O Olho de Mari Paula é uma pequena cascata no interior do concelho de Alcanena. Esta primavera estava seca Foto: mediotejo.net

No pequeno largo de Moitas Venda, próximo à capela de Nossa Senhora da Conceição, onde se situa uma fonte e um recatado jardim, um grupo de desportistas refresca-se depois do que aparenta ter sido a corrida matinal. É domingo de Ramos, mas não se ouvem sinos nem se veem procissões recordando o martírio de Cristo. É aqui que o trilho começa, com um placar a identificar a rota circular, com dois desvios – aos moinhos em ruínas e ao Olho de Mari’Paula –  que implicam um posterior retorno. A informação refere serem 8,4 quilómetros, cerca de 3h30 de caminhada, de um grau de dificuldade médio.

O grupo de madrugadores dispersa, nós começamos. Estamos a meio da manhã e levamos uma criança às costas, numa estrutura própria para o efeito. A parte mais difícil parece ser o primeiro quilómetro, uma subida a pique até ao cabeço de Santa Marta, adequadamente marcado com uma Via Sacra.

É por esta altura que começamos também a encontrar informação sobre uma GR 54, da qual não temos qualquer informação da existência. O trilho porém está marcado devidamente e parece seguir a mesma rota das placas da PR11. Este tipo de informação contraditória tende a ser preocupante, refletimos, porque facilmente cria confusão em quem faz os trilhos pela primeira vez. Esperemos não nos perder…

Largo com fonte em Moitas Venda Foto: mediotejo.net

Logo após o início do percurso inicia-se a subida, marcada com uma via-sacra Foto: mediotejo.net

A criança às costas chama a atenção de quem passa. “Vão a Santa Marta? O corte é já ali à esquerda”, adverte uma senhora idosa. Cruzamos com outros corredores a terminar o desafio da manhã. Nós subimos, na direção oposta. O primeiro quilómetro é assim, sempre a subir. Ou não fosse dia de penitência.

A via sacra é a parte psicologicamente mais desafiante, mas, em retrospetiva, a menos interessante do trilho. Chegados ao cabeço de Santa Marta a paisagem compensa o esforço, ainda com o corpo fresco, da subida. Depois sobe-se mais um pouco, um desvio de 200 metros para ver a ermida, onde a ausência de vigilância no último ano já trouxe alguns sinais de vandalismo, mas também um certo ar selvagem que cobre de charme o ponto icónico, testemunho das mais fiéis tradições do povo português.

O PR11 é acompanhado por uma Grande Rota, marcada como GR54, da qual não conseguimos encontrar informação Foto: mediotejo.net

Com a ermida fechada, a paragem é curta. A criança come, o corpo descansa. Tiram-se algumas fotografias de ocasião ao aparente abandono, ainda que o caixote do lixo esteja bastante cheio. Agora vai começar a descida.

O espaço da ermida de Santa Marta apresenta alguns sinais de vandalismo. Foto: mediotejo.net

Parece que caminhamos a par da tal GR54, mas não percebemos bem onde começa nem onde termina, ou quantos quilómetros possui. Também não encontramos nada sobre o trilho online. Um pouco confusos, descemos a encosta do cabeço de Santa Marta de novo até Moitas Venda pelo trilho do mato (a subida foi pelo alcatrão), saindo da aldeia no sentido do Covão Feto.

A paisagem sobre Alcanena a partir da serra é um dos pontos fortes do turismo natureza desta concelho Foto: mediotejo.net

Um pouco mais à frente, os moinhos em ruínas, do Tí Foito e do Soares, um dos pontos desta caminhada, não nos despertam particular atenção, uma vez que implicam um desvio de 630 metros e respetivo regresso à rota num trilho já de si longo. O nosso foco é o Olho da Mari’ Paula e é para lá que seguimos, apanhando pelo percurso parte da Rota dos Arrifes (PR6 ACN).

À saída de Moitas Venda, apreciamos uma das suas grandes fontes e das mais belas Foto: mediotejo.net

A carga já pesa, mas a zona do arrifes é a mais bela, com a vantagem do terreno ser a direito, sem subidas ou descidas. A exuberância da vegetação cruza-se com a mão humana, os seus muros de pedra e a vida animal que por aqui faz o seu pastoreio. Rebanhos de ovelhas, cabras e vacas mostram um pouco da vida agrícola da região.

O mato típico da Serra de Aire acompanha-nos, sem conseguirmos descrever com a devida riqueza a sua flora.

Nos arrifes, cruzamos com a PR6. Sempre a direito, esta é a passagem mais bela, cruzando terrenos de pastoreio Foto: mediotejo.net

A informação diz-nos que o Olho de Mari’ Paula é um desvio de 600 metros, depois do qual temos que voltar atrás. Mas a misteriosa marcação da GR54 diz-nos que há indicações de retorno a Moitas Venda a partir desta marco, eventualmente passando ao largo de Vila Moreira.

Que fazemos? Voltar atrás ou seguir em frente?

Os muros típicos da Serra de Aire e Candeeiros, uns mais degradados que outros, são um dos componentes mais característicos da paisagem Foto: mediotejo.net

A carga já pesa. Passa há muito o meio-dia. Compensa mais seguir depois em frente.

Embrenhamos-mos no mato alto e denso, como que numa floresta encantada, percorrendo caminhos marcados pelos traços das bicicletas de todo-o-terreno. Até que o terreno abre e finalmente o vemos, completamente seco mas rodeado pelo verde da Primavera, o Olho de Mari’ Paula.

Embrenhamos-mos no mato alto, seguindo as marcações de trail. Parece que mergulhámos num conto de fadas Foto: mediotejo.net

A nascente da ribeira do Carvalho só é abundante em inverno rigorosos. Em agosto de 2005, a Sociedade Portuguesa de Espeleologia procedeu à abertura de um acesso ao nível freático da nascente, através da qual se obteve passagem para um conjunto de galerias situadas ainda acima do nível da água.

No entanto, as intervenções efetuadas conduziram à degradação do espaço e da sua morfologia inicial, tendo a instabilidade dos taludes da escavação determinado a construção de uma entrada artificial.

Espaço do Olho de Mari’Paula foi requalificado em 2016 Foto: mediotejo.net

Já em 2012 celebrou-se um protocolo de recuperação da nascente entre o município, a união de Alcanena e Vila Moreira, a Sociedade Portuguesa de Espeleologia e o ICNF – Instituto de Conservação da Natureza e Florestas. Já em 2014 foi assinada uma adenda a este protocolo, que incluiu também a AUSTRA – Associação dos Utilizadores do Sistema de Águas Residuais de Alcanena.

Olhos de Mari’ Paula está seco neste início de Primavera Foto: mediotejo.net

Os trabalhos ficaram concluídos em novembro de 2016. Incluíram a reposição dos blocos de pedra calcária que haviam sido removidos da zona da nascente, reposição da morfologia inicial do terreno, desmatação da zona envolvente e construção de uma estrutura em betão armado para os espeleólogos e outros investigadores acederem à nascente de forma subterrânea.

A informação é facultada pelo município de Alcanena. Para o inculto em matérias de espeleologia, ou geologia por si só, é um buraco obscuro, sem grande história para contar neste domingo de Ramos de 2021. A zona é bonita e aparenta ter havido um esforço de preservação, embora também evidencia alguns sinais de abandono.

Seguimos o caminho, após breve paragem para um lanche. A criança acorda depois de uma sesta às costas dos pais e quer ver tudo. Fica fascinada com as borboletas, as cabras e ovelhas, a água que corre discretamente pelo (quase) seco ribeiro.

O calor aperta. As abelhas circulam em êxtase e euforia. Os barulhos da natureza sobem de intensidade consoante o sol faz o seu círculo pela terra. Estamos a regressar a Moitas Venda, passando pelo arredores de Vila Moreira e das suas fábricas, descobrindo campos de painéis solares pelo percurso.

A fase final é marcada por novas subidas, menos íngremes mas mais difíceis de ultrapassar. Vergam as costas, cedem as pernas. Somos seguidos por um rebanho de cabras, quiçá questionando se sabemos por onde anda perdido o pastor. Há ainda cercas altas, com sinais de alertar para evitar a aproximação, que não deixam perceber o que escondem.

A fase final, de regresso a Moitas Venda a partir do Olho de Mari’ Paula, revela-se a mais difícil. O cansaço, o calor e carga dificultam o trajeto Foto: mediotejo.net

Um rebanho de cabras segue-nos parte do percurso. Pelo trilho é possível ver vários grupos de animais Foto: mediotejo.net

O turismo natureza, nomeadamente ligado aos percursos pedestres, é um dos pontos fortes do concelho de Alcanena e que tem sido valorizado nos últimos anos Foto: mediotejo.net

Quem connosco se cruza diz “Boa tarde” e sorri para a criança. Esta ora corre pelo próprio pé ou já cede também ao cansaço. Ao vermos-mos de novo em Moitas Venda deixamos-mos cair nos bancos do jardim. Pede-se água. Está demasiado calor para um dia de março.

A criança pede um abraço e encosta a cabeça. Para ela foi mais um dia de aventura. Na segunda-feira terá o que contar aos colegas de escola. São as vantagens de viver no campo em tempos de crise sanitária.

Terminado o percurso fazem-se as contas com o auxílio dos equipamentos digitais. Um total de 10,6 quilómetros, bem mais de três horas. Valeu a pena.

O mediotejo.net tentou obter informação sobre a GR54 junto do município de Alcanena e da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (entidade que atribui a certificação dos PR e GR), não tendo conseguido mais dados até à publicação desta reportagem.

Posteriormente fomos informados que se trata da Grande Rota do Carso, sob tutela da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT). Existe efetivamente uma pequena informação no site da entidade, indicando tratar-se de um percurso de 125 quilómetros pela Serra de Aire e Candeeiros, que percorre os concelhos de Alcanena, Ourém e Torres Novas.

“Nesta Grande Rota, há a oportunidade de percorrer centenas de milhares de anos, que vão desde o início da formação do Maciço Calcário Estremenho, no Centro Ciência Viva do Alviela, em Alcanena, às Grutas do Almonda em Vale da Serra, em Torres Novas, onde há cerca de 480.000 anos, surgiram os primeiros homens modernos da Península Ibérica”, refere a mesma informação.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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