À Descoberta | Namorar ao estilo romântico da Belle Époque na Quinta de Coalhos em Abrantes (c/fotos)

Quinta de Coalhos. Créditos: DR

Com o São Valentim a entrar-nos portas adentro, saiba que no concelho de Abrantes há um lugar envolto em romantismo e tranquilidade à beira Tejo. Com uma casa classificada de interesse municipal, a Quinta de Coalhos conta-se talvez entre os derradeiros exemplos portugueses da adaptação da arquitetura da Belle Époque à realidade atual. Transformada em unidade de Turismo de Habitação, qualquer visitante percebe que está efetivamente instalado numa casa privada. José Alberty, o proprietário não descura os detalhes e está sempre presente na receção e na partida dos seus hóspedes.

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Antes de entrar na aldeia do Pego encontramos, à esquerda para quem vem do Sul, um discreto portão azul e no muro amarelo um painel de azulejos onde se lê Quinta de Coalhos. Lá dentro, o espaço principia com uma arbórea avenida, em terra para não haver dúvidas que estamos no campo, ladeada de árvores pontiagudas e terrenos verdejantes, onde pastam cavalos. Naquela entrada adivinha-se um tradicional espaço rural de características ribatejanas, mas desengane-se o vidente, porque se espreitar por entre a vegetação vê despontar um telhado que parece ter saído dos contos de fadas.

José Alberty na sua Quinta de Coalhos com a sua cadela Prada. Créditos: mediotejo.net

A Quinta de Coalhos, propriedade da família de José Alberty há mais de 100 anos, tem a estrutura típica dos chalés construídos no início do século XX. A casa apalaçada, edificada ao melhor estilo romântico da Belle Époque e concluída em 1906, foi idealizada pela mesma pessoa que mandou construir o palacete do Campo Grande, em Lisboa, demolido em 1951 para construção da Cidade Universitária (ver galeria de fotos em baixo).

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Falamos do veterinário João Maria Gomes Júnior, proprietário da Quinta, familiar de João Franco, bisavô de José Alberty, que herdou a propriedade e ali reside, juntamente com os funcionários da Quinta, tendo por companhia a sua pequena cadela Prada e o seu cão Armani.

“A herdeira foi a minha mãe, Regina Franco Alberty, que ao fazer partilhas com a minha tia, ficou com a casa. Esta Quinta tinha cerca de 70 hectares e agora terá 12. A minha mãe gostava que a Quinta de Coalhos ficasse para mim e para a minha mulher porque via em nós o gosto de a recuperar” e por sorteio, entre os herdeiros, por sorte lhe calhou conta ao mediotejo.net.

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Quinta de Coalhos. Jardim com estatuaria de Teixeira Lopes. Créditos: mediotejo.net

José Alberty escolheu para a sua família – a mulher e 4 filhas – a Quinta de Coalhos em 1978, fazendo do local residência permanente. A recuperação total da casa demorou cerca de duas décadas. Antes da Guerra do Ultramar estudou Direito, curso interrompido quando foi colocado em Moçambique, onde esteve 28 meses e comandou um aeródromo militar na fronteira com a Tanganica (Tanzânia). Voltou e decidiu estudar Marketing pela Escola Superior de Marketing de Paris, formação que lhe traçou o caminho profissional de uma vida inteira.

O sonho adolescente passava pela medicina veterinária, mas ditou o destinou que José não tivesse queda para a matemática, contrariante ao avô António Maria Dias Milheiriço, médico “grande matemático contemporâneo de Bento de Jesus Caraça com quem trocava equações e correspondência”, refere.

E foi assim, numa manhã de sol de inverno, em plena zona de aluvião do Tejo, sob vigia do Castelo de Abrantes, que encontrámos aquela beleza secular, aliada ao entorno natural de um bosque. Um local perfeito para celebrar o amor, protegido de olhares indiscretos, talvez sonhado pelos mais românticos, portanto um sítio ideal para uma escapadinha a dois, em honra de São Valentim, em qualquer época do ano.

Quinta de Coalhos no século XX. Créditos: DR

Casa hoje classificada de interesse municipal, foi concebida não como moradia mas para convívio com os amigos da família. Palco de grandes festas e bailes, tem patente na escadaria que leva à balaustrada a exuberância de um estilo que bebe diversas influências da sua época. Um representativo edifício da primeira década do século passado, recuperou o brilho de outros tempos e exibe-se como um exemplo de preservação do património português.

“Nunca ninguém aqui viveu. Esta casa só tem salões que recuperei, mantendo os frescos, recuperando pinturas. O objetivo dos seus proprietários era ter uma casa onde recebessem os amigos. Não tinha quartos. No andar antes da torre haviam uns quartos esconsos onde dormiam os empregados e a torre tinha uma particularidade; não se chegava às janelas”, explica.

Uma das primeiras coisas que José Alberty fez foi “conseguir que o chão da torre desse utilidade às janelas para ter a minha sala de música e de repouso. Esta casa não tinha água nem eletricidade, não tinha vidros nas janelas, tive de levantar estuques para passar canalizações. Tive de mandar reproduzir as peças, e tenho peças suplentes para os desenhos dos telhados. Foi um trabalho muito moroso. Uma obra de 20 anos”, reforça.

Avenida arbórea na entrada da Quinta de Coalhos. Créditos: mediotejo.net

Mas voltemos à avenida! Comprida como cumpre a qualquer avenida que se preze, estende-se até à entrada do pequeno e circular jardim bucólico com uma piscina cuidada a sal. Noutros tempos embelezava apenas como lago, permanentemente observado pelas 10 estátuas do escultor Teixeira Lopes, algo partidas nos conturbados anos pós 25 de Abril.

Agora as águas frescas apresentam-se essenciais para os dias mais quentes. No silêncio, interrompido apenas por um pintassilgo em leve beberete ou pelo canto melódico de uma carriça, a completar o espaço mesas de jardim, cadeiras e locais para meditar entre canteiros e relvados.

Do lado esquerdo, uma casa de campo com as cores do Ribatejo, pintada em amarelo ocre delineada a branco, portas e janelas de madeira azul e uma camélia que floresce em tons rosa à entrada. Lá dentro dois quartos, sala de refeições, sala com lareira, as respetivas casas de banho e cozinha. Ao lado desse edifício, uma espécie de pátio em forma circular com torres acasteladas que conferem um charme inigualável ao espaço.

José Alberty não esconde o entusiasmo quando fala na recuperação da casa da Quinta de Coalhos, o projeto de turismo de habitação que inaugurou em 2003. Essa antiga casa de família restaurada, mobilada, preservando memórias e aberta aos turistas, grande parte deles estrangeiros vindos do Brasil à Escandinávia que procuram um refúgio para uns dias de serenidade.

Quinta de Coalhos. Casa de Campo. Créditos: mediotejo.net

A ideia surgiu do futuro, ou seja de um desejo de ocupação na reforma. “Sempre gostei muito de contactar com pessoas até pela vida profissional de relações públicas, áreas comerciais e de viajar, viajava por todo o mundo”, explica José Alberty.  Certo é que mesmo aposentado “gostaria de continuar com uma vida de contactos, de descobrir coisas novas e de discutir ideias, assim decidi fazer o Turismo de Habitação. Realmente queria ocupar-me nessa atividade”.

O projeto avançou em 1999, diferente do atual porque integrava a organização de eventos. “Foi aprovado e atribuíram-lhe um fundo perdido que dava para realizar todo o projeto” com um investimento de 120 mil contos (600 mil euros), indica.

Contudo “em 2002 houve a junção de Lisboa ao Vale do Tejo para tentar baixar o rendimento per capita de Lisboa para que passasse também a ter subsídios comunitários e isso falhou. Estivemos quatro anos sem financiamentos comunitários. Perdi o direito que tinha aos subsídios. Nunca tive um cêntimo de apoio para nada”, nota o empresário.

Quinta de Coalhos. Créditos: DR

A especificidade da Quinta de Coalhos baseia-se na simples realidade que qualquer visitante percebe: está efetivamente alojado numa casa privada. José Alberty, de 78 anos, recebe e despede-se pessoalmente dos seus hóspedes. E enquanto permanecem na Quinta organiza roteiros, recomenda restaurantes e tenta resolver qualquer problema, o que também lhe dá gosto.

A unidade turística da Quinta de Coalhos resulta também do aproveitamento harmonioso das construções existentes ligadas à atividade agrícola. No que era antes o lagar e o moinho construiu-se três quartos de características diversas, sala de estar com lareira e outra de jogo, cozinha, lavandaria, sala das máquinas e garagem onde aguarda, por um passeio no asfalto, um automóvel clássico.

No restauro, além de respeitada a traça arquitetónica original, introduziram-se elementos de conforto como o aquecimento central ou o sistema para aquecer as toalhas, essenciais também a quem procura a ruralidade ou a mística.

Quinta de Coalhos. Jardim. Créditos: DR

A casa da Quinta de Coalhos é composta por três quartos e uma suite, a que foram dados nomes de cores: azul, amarelo e grenat. Enquanto o azul encanta pelo romantismo do leito em ferro, o quarto grenat exalta o sabor da paixão entre madeiras, motivos florais e quadriculados. A este lote juntam-se mais dois quartos na casa de campo.

A suite, única acomodação a permanecer na estrutura da casa principal, dispõe, além de casa-de-banho como os restantes quartos, de uma pequena sala privativa. Todos os quartos dão para o jardim das traseiras com vista para a zona agrícola.

Nos quartos, mantendo a decoração feita, ao tempo, por sua mulher Maria Isabel Godinho Alberty que optou por formas sóbrias e confortáveis, o bom gosto encontra-se nos pequenos detalhes, replicados em toda a casa: mosaicos antigos, toalhas com monograma bordado, faiança do século XVIII que se cruza com peças decorativas contemporâneas.

O palacete está repleto de recordações, frescos, fotografias em sepia, fotografias a preto e branco, um mobiliário que há um século vem acompanhando a vida dos seus proprietários, mobiliário rústico e um cartaz original anunciando a primeira corrida na praça de touros de Abrantes, construída pelo bisavô de José Alberty, João Franco e pelo seu irmão António Franco, localizada onde atualmente funciona a Escola Secundária Dr. Solano de Abreu.

A Quinta de Coalhos não dispõe de serviço de restauração, mas a pequena cozinha apoia o serviço de pequeno-almoço, oferecendo produtos feitos no local, incluindo o pão. A refeição é servida numa sala, onde se destaca uma bonita tapeçaria, com acesso ao exterior, um pequeno recanto muito apreciado pelos visitantes nórdicos, quer como espaço de leituras, quer como local de pausa enquanto apreciam uma bebida.

José Alberty na sua Quinta de Coalhos ao lado de um louceiro com faiança do século XVIII. Créditos: mediotejo.net

Para José Alberty esta atividade “passa muito por ser um hobby. Não a vejo como sendo económico o interesse principal. Vivo aqui, tenho de manter o espaço o mais conservado possível, jardins arranjados. Quando tenho hóspedes é uma ajuda para manter a Quinta. A alternativa é não manter e deixar cair”.

A pensar no futuro diz necessitar de encontrar “uma base de sustentabilidade que poderia passar pela parte do projeto que não executei, de organização de eventos, ou outra para que a Quinta de Coalhos possa sobreviver”. Defende a expansão do espaço de alojamento até ao momento impedida por se situar em Reserva Agrícola, Reserva Ecológica Nacional e em leito de cheia.

Acrescenta que em Abrantes “não há a sensibilidade de perceber o fluxo turístico que tem de vir de fora para dentro, e tudo quanto se faz é de dentro para dentro e não gera turismo para estas áreas”, observa.

Na Quinta de Coalhos, um quarto duplo com pequeno-almoço por noite custa 90 euros. E a partir do alojamento os visitantes podem partir para propostas de lazer desde passeios a cavalo, a corridas de kart no Kartódromo de Abrantes, caminhadas à beira rio, visitar o Castelo, a igreja de São João, da Misericórdia ou de São Vicente ou ainda a galeria quARTel, que já foi precisamente quartel dos bombeiros.

Para chegar a Coalhos, a partir de Lisboa, escolha a A1 até Torres Novas, onde sai para entrar na A23, em direção Abrantes. Em Abrantes saia a Oeste e cruze a cidade em direção a Rossio ao Sul do Tejo, onde chega depois de atravessar a ponte sobre o rio Tejo.

Depois da rotunda, vire no cruzamento à esquerda para a Estrada Nacional 118 em direção ao Pego. Seguindo em frente, passa por uma passagem de nível e também numa ponte sobre a Ribeira de Coalhos. Pouco depois encontra o muro amarelo e o portão azul da Quinta. Basta tocar à campainha.

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A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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