À Descoberta | Mação: No encalce da arte rupestre do vale do Ocreza

Não tem a dimensão de Foz Côa. Mas avaliando pela importância das descobertas e das gravuras ali existentes, o vale do Ocreza consegue ter tanto ou mais interesse no que toca aos estudos arqueológicos e de arte rupestre. Em Mação, algures na freguesia de Envendos, o circuito rupestre iniciou a pique, testando a força de vontade e a curiosidade através das pernas dos cerca de 40 participantes em visita promovida pelo Museu Municipal, no passado domingo.

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O autocarro fez a ligação entre a vila de Mação e Envendos, local onde se deu o pontapé de saída. Curiosos, entendidos na matéria e alunos do programa Erasmus integraram este grupo de caminhantes destemidos que viria a completar cerca de 8 km (difíceis de contabilizar ao certo) com grande inclinação e trilhos bastante agressivos, reaproveitados, pois eram os trilhos dos antigos que, ali, tinham essencialmente olivais. Ainda hoje por lá se encontram os socalcos e os muros de proteção feitos com rochas.

“Há uns anos trabalhei por aqui. E, um dia, trouxe uma tangerina para comer. Não tinha trazido mais nada. Deixei-a cair, e lá foi ela, a rebolar por ali fora”, recordava uma das participantes, natural de Envendos, que se fazia acompanhar do marido. São proprietários de um dos terrenos, mais lá no cimo do vale.

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Todos munidos de cajados improvisados ou bastões de caminhada, que de facto foram muito úteis no terreno. Afinal, o Ocreza ainda está lá para baixo. Há muito por descer.

E quando se começa a descer vale abaixo, já se vai notando a flora e a fauna, ainda que, segundo disse Anabela Pereira, responsável pela organização do passeio, “às vezes encontra-se alguns animais, lontras e os peixes do rio. As plantas, se calhar não é a melhor altura para as vermos, mas em março, normalmente encontra-se uma flora muito interessante”.

A técnica do Museu Municipal disse aos presentes que aproveitassem “a paisagem. Podemos ir parando ao pé das pontes, ao pé das ribeiras. No início do percurso não vamos ver arte rupestre. Só vemos a arte rupestre no final, para lá da ponte. A arte paleolítica e a pós-paleolítica”.

“Embora exista alguma arte rupestre ao longo do percurso, não vai ser possível ver. Ou porque a água subiu, ou porque ficou tapada pela água da barragem. Ou porque está no noutro lado…”, foi explicando, ao longo dos trilhos.

Foto: mediotejo.net
Os trilhos foram reaproveitados, tendo sido colocadas pontes para facilitar a descida pelas encostas do Vale. Foto: mediotejo.net

O passeio “já era para ter sido feito no âmbito do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, Dia Internacional dos Museus, e estamos a fazê-lo agora no âmbito das Jornadas Europeias do Património. O tema das jornadas fala sobre paisagens culturais, portanto, estamos todos dentro desse tema”, justificou Anabela.

E eis que, a meio do percurso, mais coisa, menos coisa, na outra margem, sobem a alta velocidade, pelo vale, mãe e crias de javali. Autêntica manada que fez as delícias aos caminhantes. O tempo parou para ver, ao vivo e cores, aquele espetáculo da mãe natureza. E, claro está, todos gabaram e ansiaram para ter a força daqueles seres a fim de conseguir terminar o moroso percurso que ainda agora havia começado…

As gravuras rupestres do Ocreza: o cavalo e os veados

O Vale da Rovinhosa, no Ocreza, tem ali duas das descobertas que impulsionaram o projeto do Museu de Arqueologia maçaense. Distam cerca de 1 km entre si, mas os dois pontos já foram visitados, investigados e fotografados pelos mais importantes investigadores e teóricos da área, a nível mundial.

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A Rocha do Cavalo trata-se de pequena superfície, descoberta a 6 de setembro de 2000, quase totalmente preenchida pela representação de uma gravura de cavalo picotado a linha de contorno em estilo Paleolítico, há cerca de 15.000 a 10.000 anos atrás. Tal como acontece muitas vezes em figuras desta época, o corpo do animal apresenta características naturalistas, ou seja, próximas da realidade, quer na forma quer nas proporções, apesar de não estar completo pois falta-lhe a parte terminal da cabeça e só tem representado um membro de cada par de patas, segundo se pode ler num trabalho de Luiz Osterbeek, estudioso da área e presidente do Instituto Terra e Memória, em Mação.

Gravura de cavalo em estilo Paleolítico (15.000 – 10.000 anos). Foto: mediotejo.net

A  Rocha dos Dois Veados, seguida da anterior gravura, é uma pequena rocha dividida em dois painéis decorados. O primeiro apresenta duas figuras de zoomorfos de pequenas dimensões, executados a linha de contorno picotada. A figura mais à esquerda tem representado as duas patas traseiras mas apenas uma dianteira. Uma série de pontos parecem representar o início do pescoço mas a cabeça está ausente. A figura mais à direita, está muito danificada por uma fratura. Actualmente é possível ver, com clareza, uma parte do corpo e as patas traseiras.

Rocha dos Dois Veados. Foto: mediotejo.nett
Rocha dos Dois Veados. Atacada pelos líquenes, mas ainda assim do lado esquerdo favorece a forma do zoomorfo representado. No lado direito, a parte traseira está praticamente intacta. Foto: mediotejo.net

Junto às gravuras, havia tempo para reflexão e leitura guiada dos elementos rupestres. Nisa, Vila Velha de Ródão (ali ao lado, na outra margem) e Mação representam um património muito importante de arte e paisagem rupestre. As gravuras foram identificadas em 1971, poucos anos antes da conclusão da barragem de Fratel. Hoje em dia mais de metade dessas gravuras estão submersas pela água da barragem.

Até hoje ainda não foram identificadas mais gravuras, “o que não significa que não possam eventualmente vir a ser encontradas”, disse Anabela Pereira, respondendo a um dos participantes, esperançoso quanto ao património que ainda estará por descobrir.

Depois de se aproveitar para parar e restabelecer forças, eis que está na hora de regressar. E aquilo que se havia descido com dificuldade… agora teria de ser subido. Mas no grupo imperava a sede de saber, de visitar e portanto, o esforço estava compensado.

No Museu de Mação estão representadas todas as figuras, e podem ser visitadas para que, quem tenha curiosidade, possa saber mais sobre este património arqueológico do concelho. Ainda assim, a visita ao local, em pleno Vale do Ocreza, em nada se comparará. Existem muitos elementos que fazem viajar no tempo e tentar, pelo menos, imaginar qual a motivação e qual o objetivo da gravura. Porquê um cavalo? Porquê ali? E o traço… o picotado seria assim porquê? E os dois veados, em posição de luta, porque teriam sido representados? Seria um retrato da vivência, do lugar?

Mais um motivo para mergulhar no Mação profundo. Nas profundezas do rio Ocreza, onde estão guardados os tesouros sagrados da arqueologia maçaense.

Com certeza que serão organizados novos passeios, e assim poderá acompanhar um grupo com pessoas entendidas na matéria, que lhe possam esclarecer (ou tentar) todas as dúvidas.

Estava à espera que fosse aqui relatado o fim do percurso? Não se preocupe. Acredite que valerá o esforço. Na verdade, a descer todos os santos ajudam. E a subir… devagarinho se chega ao destino. E não tenha pressa. Porque há muita paisagem para observar, e quiçá, fotografar.

Mas, por agora, pode espreitar a fotogaleria do mediotejo.net. Ainda assim, não se acanhe! Parta à descoberta!

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