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Domingo, Setembro 19, 2021

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Especial Mação | Chave Dourada, o vinho da fórmula secreta (c/ fotos e vídeo)

É um vinho generoso, tem o nome de Chave Dourada e o sabor de um segredo. Guarda em si a fórmula que poucos conhecem e que precisa da “mãe” para que a sua produção seja fidedigna e assegurada. Diz-se que o Vinho de Carcavelos foi baseado na sua receita, depois de o Padre António Pereira de Figueiredo enviar pipas para servir à mesa de D. José e para o Marquês de Pombal. Há 7 anos consideraram que este estaria à beira da extinção… Mas a união e força de vontade de alguns produtores fizeram com que, hoje, se lute para passar a receita secreta de geração em geração, com a ajuda da Confraria, que tem como principal missão a preservação e comercialização deste produto endógeno, diferenciador do concelho de Mação. Uma das formas de dinamizar este produto passa também pela realização do Tasca Tour Chave Dourada, um rally tascas com visita guiada, que ao passar pelas várias terras, vai relembrando memórias e lendas, dando a provar iguarias e o tão aclamado vinho. O mediotejo.net embarcou na última edição e conta-lhe tudo sobre a experiência.

O Vinho da Chave Dourada foi o responsável pela saída da sede do concelho, logo pela manhã, de umas boas dezenas de participantes. Um vinho generoso, aditivado a partir de vinhos maduros e não de mosto e que tem um segredo para ser feito: “é preciso ter uma “mãe” com uma enzima especial para ser feito”. Este vinho era o vinho produzido no concelho de Mação, na altura do Padre António Pereira de Figueiredo, para a mesa do Rei D. José e para o Marquês de Pombal, explicou António Cardoso, um dos membros da direção da Confraria do Vinho da Chave Dourada.

O Marquês de Pombal a partir do Vinho da Chave Dourada “criou um vinho muito idêntico ao nosso, que é o Vinho de Carcavelos, que teve e está a ter uma expansão enorme. Mas o original é o Vinho da Chave Dourada, que entretanto caiu em desuso (…) na ementa de inauguração da estátua de D. José, vem em primeiro lugar o Vinho da Chave Dourada”, recordou.

 

Foto: mediotejo.net

A Confraria, criada em 2015, está, segundo António, a dar “alguma visibilidade ao vinho”. Este aglomerado surge pela vontade de “revitalizar o vinho; e andámos com várias ideias até que surgiu fazer uma confraria”, contextualizou, acrescentando que os poucos produtores que existiam queriam fazer uma associação ou algo do género, por causa do Vinho da Chave Dourada.

O próprio António Cardoso “produzia cerca de 10 garrafas por ano”, mas esta nova era proporcionou novas metas. “Eu aumentei a minha produção em 200 ou 300 por cento (…) neste momento tenho pipos de 7 anos, há pessoas com pipos de 15 anos, pipos de vinhos com 20 anos, …”.

Quanto ao consumo, também se requerem alguns cuidados. Uma vez que o vinho é envelhecido; caso tenha “mãe” pode ser consumido a partir dos 5 anos, se não tiver “mãe”, só a partir dos 10 anos.

“Só se tira de cada pipo um terço do vinho, depois é reatestado. Está sempre a fazer sobre-fermentações. Todos os anos faz uma sobre-fermentação nova”, assumiu António Cardoso.

A fórmula foi-se mantendo e aguentando entre as famílias, passando de geração em geração; porém, acontece que só algumas mantiveram esta tradição. “Neste momento, a Confraria está a divulgar para aparecerem novos produtores, porque quanto mais produtores houverem, melhor”, disse, confirmando 12 produtores registados atualmente.

Antes deste empurrão, houve uma altura em que o vinho da Chave Dourada estava quase a desaparecer, sentindo os confrades que está de novo a ganhar visibilidade. “Já temos um produtor a produzir perto de 3 mil garrafas por ano. Já tem uma adega com pipos de 10 anos”, contou António Cardoso.

Este produto regional, que segundo a confraria tudo tem para acrescentar valor à economia local e ao desenvolvimento do concelho, tem levado à realização de iniciativas que promovem a preservação da memória histórica, da cultura popular e da tradição oral.

Neste sentido, a iniciativa Tasca Tour é implementada, e levada a cabo pelas profundezas do concelho. A missão é simples: pretende divulgar a Chave Dourada, para quem não conhece, dando a conhecer quer tasquinhas, quer património, a pessoas de fora e às do próprio concelho, apresentando património que geralmente está fora dos circuitos do património célebre.

António Cardoso (ao centro), da direção da Confraria da Chave Dourada, dinamizou este passeio-guiado pelas tascas e lugares do património histórico e cultural. Foto: mediotejo.net

O ponto forte? O contacto de proximidade, pois “uma coisa é ir só ao museu e outra coisa é ir ao local. Por exemplo aquela casa onde esteve o Zeca Afonso, existem essas situações que são património imaterial que não está propriamente documentado, está documentado parcialmente em muitos documentos. Mas não há uma história construída e publicada toda por inteiro, tem que se ligar as partes”, referiu António Cardoso.

Pôr os locais a contar as histórias é muito importante.

Os 30 participantes nesta edição variaram pouco. “Alguns mantiveram-se em relação a anos anteriores, outros vêm pela primeira vez, mas este ano temos menos participantes que no ano passado”, notou o responsável pela visita guiada.

O Tasca Tour é um evento que acontece anualmente e que, pela vontade da Confraria, continuará a acontecer com a mesma regularidade e nos mesmos moldes.

Para já, o trabalho de divulgação faz-se através da página de Facebook, mas segundo a Confraria está para chegar um novo site. “Vai aglomerar um portal que além das tasquinhas, divulgue casas de alojamento local, quando se quiser vender, vende-se na mesma (…) Queremos ter o portal operacional porque queremos arranjar alojamento, que faz muita falta às pessoas que vêm cá e não têm onde ficar; temos de ir para a Abrantes”.

Mas não se pretende somente alojar pessoas. A ideia é disponibilizar um alojamento diferente; um alojamento que só acontece nas aldeias, por exemplo, do Vale da Abelha, que ao lado da tasquinha da Comissão de Melhoramentos, tem uma casa onde se diz que nasceu Camões.

Caso a pessoa se interesse, e queira ser produtora? Basta deixar mensagem no Facebook. “Entra em contacto com a confraria, e explica-se onde é que pode ir comprar os pipos necessários, ou a própria confraria fornece os pipos, porque não pode ser usado um pipo qualquer. Ou dizemos à pessoa onde é que pode ir comprar, geralmente é sempre no Norte ou em Vila Nova de Gaia. Ou quando vamos buscar, trazemos para a pessoa também”, enumerou António Cardoso.

Depois é explicado todo o procedimento, “ensinamos como é que se faz, a pessoa recebe a mãe. A fórmula secreta é dada à pessoa com a mãe; sem a mãe nada se faz. Um litro de mãe dá para um pipo de cerca de 60 litros”.

Não é um compromisso contratual, mas é de palavra.

A pessoa, ao assumir o compromisso com a Confraria do Vinho da Chave Dourada, não pode ceder a fórmula secreta a ninguém. Não pode passar a não ser a outros confrades.

Pedro Pinheiro, de Penhascoso, começou a produzir por incentivo de outro confrade, a quem comprou uma pipa. Foto: mediotejo.net

Pedro Pinheiro, produtor, 41 anos, Penhascoso – Adega Vale da Má Tempra

Não tinha tradição familiar de fazer este vinho, nem sequer conhecia, explicou Pedro ao mediotejo.net.

“Conheci através do Vergas, que é neste momento o maior produtor deste vinho, e há uns anos foi ele quem me vendeu uma pipa. Eu já sabia há uns anos, mas não muitos, porque eu vinha cá só de férias, e quando ouvi falar disto fiquei um bocado curioso, porque o meu avô sempre fez vinho e nunca ouvi falar disto em lado nenhum. Então depois quis provar, achei que era muito interessante”, contou.

“Quis fazer. No início não se falava muito disto aqui no concelho, nem as pessoas sabiam como se fazia, e entretanto há uma pessoa que começa a difundir isto, o Tó Vergas, e eu a partir dessa receita comecei a produzir, e agora estou sempre a tentar evoluir e tentar pôr mais pipas, porque não é uma coisa barata e como não há um mercado, não se pode fazer grandes investimentos”, continuou Pedro.

Isto é uma coisa para se ir fazendo.

O processo é muito específico, e este vinho tem tanto de secreto como de genial. “Nunca se pode tirar tudo de uma pipa, então começamos com uma pipa que, teoricamente, passados dez anos é que se começa a beber, e dessa pipa nunca se pode tirar nada até aos dez anos. Vai-se sempre repondo, tapando o pipo. O que acontece é que chega uma altura em que se começa a consumir, mas nunca se tira tudo. Só um terço e sempre a repor. Uma pessoa que tiver mil litros só pode utilizar um terço dessa produção, o que acaba por ser um handicap mas é assim… Este produto é assim que se fabrica”, esclareceu Pedro.

Já no que toca aos sabores, esses vão alterando de fermentação em fermentação. “Não há um grande controlo da nossa parte quando aos sabores, porque cada pipa desenvolve os seus sabores e aromas, são todas um bocadinho diferentes. Há pessoas que se calhar, no fim, juntam para o produto ficar todo igual, eu prefiro ter as pipas todas diferentes. Acontece que depois não tenho um produto único…”, confessou.

Ao juntar-se à Confraria, Pedro Pinheiro tem uma visão de futuro, com vista à passagem deste segredo para o seu descendente. “A minha ideia é continuar, manter e provavelmente evoluir. Até porque com a confraria e a questão da associação, estamos a dar um passo para divulgar mais o produto para todo o país”.

“É algo importante da região, é sempre bom termos coisas que nos distinguem das outras regiões, isto é um produto do qual nunca tinha ouvido falar em lado nenhum. A ideia é passar de geração em geração, é um vinho que vai envelhecer e nunca vai perder caraterísticas… pelo contrário, vai sempre evoluir”, insistiu o produtor.

Isto não é um vinho que se faça para beber amanhã, todos os anos vai ter uma magia, ao abrir o pipo. Todos os anos tem uma fermentação nova.

Quanto ao facto de se abrirem as portas de casa aos confrades e curiosos inscritos no Tasca Tour, Pedro Pinheiro reconhece importância nestes encontros na primeira pessoa. “Já estou habituado, uma vez que estudei Artes nas Caldas da Rainha e recebia sempre muita gente em casa (…) é divertido, é uma coisa que deve continuar a acontecer, e é uma belíssima oportunidade das pessoas verem e nós mostrarmos, e cruzarmos mais conhecimento entre todos”.

Tasca Tour  – uma visita guiada pelas lendas e património histórico do concelho

Vale da Abelha, a tasquinha da Comissão de Melhoramentos, foi o primeiro posto. Diz-se que, na casa ao lado, nasceu Camões. Além disso, a casa é conhecida como a Casa da Maçonaria, uma vez que o avô de um dos responsáveis pelo espaço pertencia à organização e ali aconteceram muitas reuniões.

No vale, diz-se que os deuses gregos vinham ali passar férias. Um dia, a Artemisa, deusa da caça, convidou Apolo para vir caçar com ela naquela zona. Depois, Apolo teve um ataque de sede sem ter por onde beber, e diz-se que Artemisa, com o seu arco e flecha, terá disparado contra uma das rochas lá em baixo, onde fica a Fonte do Moinho, e começa a jorrar água para matar a sede a Apolo.

A caminho de Ortiga, para-se para decifrar quem foi o artista do século XX que corria nu nas florestas de Mação, o enigma colocado para o primeiro passatempo cujo prémio seria a Carta Gastronómica de Mação, bem como conhecer o refúgio do jardineiro João Francisco Pires, dono dos terrenos onde os participantes caminhavam. O homem empenhou-se de tal forma que ficou “um bocadinho passado das ideias” e fez o refúgio, que agora está em betão mas que foi sofrendo alterações. “Veio viver aqui para uma cabana, quando a casa dele é ali em baixo”, contou António Cardoso.

O jardineiro era muito bom, tendo sido convidado por Bernardo da Costa Cabral, Marquês de Tomar, Joaquim Manuel Monteiro, Paiva Raposo, para a construção do Jardim Guerra Junqueiro, conhecido como o Jardim da Estrela, construído conjuntamente com Jean Bonnard.

“Este senhor era avô de uma senhora que era a Natércia Campos Pires, diretora da Associação José Afonso, sendo este o artista que andava a correr pela floresta todo nu. Veio antes do 25 de abril e depois”, decifrou António.

Antes do 25 de abril, este edifício servia de refúgio a militantes do Partido Comunista, que se escondiam lá dentro, num grande alçapão.

No Café da Liga, espaço houve para contar-se a Lenda do Lobisomem da Ortiga. Diz a lenda que na família dos Francisquitos, um dos membros era lobisomem e que, em noite de lua cheia, tinha a má sina de ter de se ir rebolar nas pegadas dos animais, desde cães, lobos, bois, e depois acabava por se transformar nesse animal. Corria 7 vilas ou cidades acasteladas do Médio Tejo, voltando ao ponto de partida, onde deixava a sua roupa. Acontece que, certa noite, a mãe desconfiada foi à procura dele e, não o vendo, tirou a roupa do sítio. Dita a lenda que, assim, se quebrou o encanto: quando se tira a roupa do sítio onde se transformou, o lobisomem deixa de o ser.

No Lar do Pescador, Esplanada do Centro, ouviu-se a lenda das Bruxas de Ortiga. As Genjas, bruxas do linho, que não eram propriamente más. Fiandeiras mitológicas, recebiam comida ou prendas em troca dos serviços de fiar o linho das colchas e lençóis. As pessoas deixavam os materiais para laboração, as Genjas passavam de noite e faziam o trabalho, para que de manhã pudessem fazer a troca e receber a sua recompensa.

O grupo de participantes e confrades da Chave Dourada.

Autarquia disponível para desenvolver projeto. Nova sede poderá vir a caminho

A CM Mação não coloca de parte a ideia de poder ser, de alguma forma, a mentora do projeto da Chave Dourada, conforme tinha sido estabelecido, corria o ano de 2011. “Não colocamos de lado a possibilidade de fazer em articulação com a Confraria da Chave Dourada, ou a Confraria ter aqui um papel de maior destaque, mas há a possibilidade de assegurar os mesmos objetivos em conjunto com a CMM, acho que todos temos a ganhar ao trabalharmos em conjunto para um objetivo comum, portanto, nestes moldes a CM Mação está disponível e congratula-se com o facto de haver associações que possam também connosco colaborar em algo importante para o concelho e único na região”, admitiu Vasco Estrela, presidente da CM Mação ao mediotejo.net.

Para o autarca, além da vertente de acrescentar valor e dinamizar a economia local, também a “vertente da preservação histórica e da memória dos antepassados, daquilo que são as tradições do concelho” se assume como importante mote para o desenvolvimento do projeto.

O autarca reconhece “variadíssimas virtudes”, uma vez que “importa preservar e ter em conta a sua potenciação em prol do desenvolvimento do concelho. Estamos disponíveis para com outras entidades colaborar para atingir este objetivo”.

Em vista estará uma nova sede, uma vez que a Confraria criada em 2015 não tem sede própria. Segundo Vasco Estrela, presidente da câmara, “já aconteceram conversações a esse respeito, há um espaço identificado como sendo possível para que a confraria possa ter a sua sede e desenvolver melhor a sua atividade, é algo que estamos a avaliar. É muito provável que possa vir a acontecer, as coisas estão bem encaminhadas para assim ser. Vamos aguardar mais um tempo para fazer um pequeno projeto e perceber os custos que poderão estar associados, para se proceder às soluções finais”, terminou.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

3 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia a todos. Queria apenas fazer uma rectificação. Inadvertidamente, no calor do passeio, devo ter dito que o jardineiro que desenhou e plantou o Jardim da estrela em Lisboa era pai da Natércia, mas na verdade era seu avô. Ou seja: o jardineiro João Francisco Pires que construiu o Jardim da Estrela, conjuntamente com Jean Bonnard, era avô de Natércia Campos Pires, de Ortiga, a falecida fundadora e diretora da Associação José Afonso (AJA). Esta senhora foi também diretora de produção da companhia de teatro O Bando e diretora de arte da Expo 98 em Lisboa.
    Pelo sucedido peço as minhas desculpas.

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