Sábado, Fevereiro 27, 2021
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Semana Santa do Sardoal | Convento e Igreja de Santa Maria da Caridade – I

No alto de uma encosta ensolarada, com uma privilegiada vista sobre a vila de Sardoal e avistando-se ao longe a cidade de Abrantes, surge altivo e misterioso, como numa obra romanceada, o Convento de Santa Maria da Caridade.

Este monumento marca a história desta vila, com a sua vivência na forma como os religiosos aqui permaneceram, pelo menos, até ao ano de 1834. Deixaram-nos, no entanto, um valioso e vasto património cultural que nos que leva a crer no gosto estético e intelectual da comunidade franciscana.

De modo a compreender melhor a data da fundação deste convento (1571) fazemo-nos valer da CRÓNICA DA PROVÍNCIA DA PIEDADE, de Frei Manuel de Monforte – Capítulo LIII:

“No tempo em que a primeira e mais antiga Casa de Santo António de Abrantes, estava na Ribeira da Abrançalha, quase a meia légua do povo, ficava em igual distância pouco mais ou menos, da Vila do Sardoal, que fica para a outra parte, por ser uma légua de uma a outra Vila. Por esta causa participava também o Sardoal da comunicação dos Frades daquele Convento, ajudando-se deles nas pregações, confissões e mais socorros espirituais. Mas como o Convento fosse mudado do lugar da Abrançalha para junto da Vila de Abrantes, sentindo os moradores do Sardoal a falta dos bens espirituais que padeciam com aquela mudança, por ficarem mais longe e fora de mão os Religiosos, pediram-lhes que quisessem aceitar outro Convento naquela sua Vila, oferecendo-se para fazê-lo. Não foi isso fácil de alcançar, porque como ficavam as Vilas tão perto uma da outra, que só distavam de uma légua, tinham os nossos Frades por grande inconveniente multiplicarem-se tanto as Casas, que viessem a ficar tão vizinhas. Mas, finalmente, aceitaram o oferecimento, não podendo mais resistir aos rogos e importunações, com que os procurava aquele devoto povo.

Para o Convento se fazer, deu logo a Vila uma Ermida de muita devoção e célebre romagem, chamada Nossa Senhora da Caridade, donde o Convento tomou o apelido que hoje tem. Está mui perto da Vila, porque além de não haver em muita distância dela outro lugar tão acomodado, tinha já a experiência ensinado a nossos Frades os inconvenientes que traziam consigo os nossos Conventos fundados em desertos.

Fica em sítio alto, sadio e descoberto a todos os ventos, com boa vista para o Rio Tejo, ainda que seco e faltado de água, porque a que se bebe vem de fora e se traz de longe. Para o serviço da Casa se ajudam os Frades de uma cisterna, último remédio em outros semelhantes. Há contudo um pomar de diversas frutas que não tem inveja aos que se regam com copiosas águas.

No fundo da cerca que desce por um recosto abaixo grande espaço, por chegar aonde alcance um pequeno poço, que o mais do tempo não corre, se faz a horta que se rega com água, que com grande trabalho se tira à bomba para a hortaliça necessária.

No ano de 1571, sendo Ministro Provincial, Frei Maseu de Elvas, se começou a fábrica junto à dita Ermida que nos fica servindo de bastante Igreja. Toda a gente do povo, conforme a possibilidade de cada um, acudia liberalmente com suas esmolas para as obras. E como naquele tempo residisse naquela Vila, onde se veio aposentar, D.Duarte de Almeida, filho de D .Lopo de Almeida, terceiro Conde que foi da Vila de Abrantes, devotíssimo dos Frades, não somente contribuiu no princípio com grossas esmolas, mas também prosseguiu em as dar com grande liberalidade até ao fim da obra, tomando à sua conta vê-la posta em sua perfeição. Com a mesma vontade e largueza socorreu sempre, enquanto viveu, todas as necessidades que sentiu nos Religiosos ali moradores, dando-lhes o que não podiam haver facilmente mendigando. Tratava-os como irmãos, amava-os como filhos e respeitava-os como a Anjos, estimando-os em muito sua espiritual conversação, de que frequentemente se costumava aproveitar para a saúde da sua alma. Este amor e devoção grande que lhes tinha, foi causa de que tendo em pouco os antigos sepulcros de seus ilustres pais e avós, escolhesse ser sepultado entre os frades seus irmãos. Está a sua sepultura na Capela-mor deste Convento, junto aos degraus do Altar-mor. O Padroado é da Igreja Romana, como todos os mais que são edificados de diversas esmolas dos povos, sem particular Padroeiro, que reserve o tal direito para si.

Para esta mudança deu também licença o Bispo da Guarda e juntamente para se fundar o Convento do Sardoal, que se edificou no mesmo tempo. O teor da licença é o seguinte: D .João de Portugal, Bispo da Guarda. Por este fazemos saber ao Vigário-Geral de Abrantes que o M.R.P. Fr. Maseu, Ministro Provincial da Província da Piedade, me fez a saber que ele com os Padres da dita Província determinava mudar o seu Mosteiro de Santo António da Abrançalha para outro chão junto das Bicas, mais perto da Vila. E ali fazer um Mosteiro de novo ma Ermida de Nossa Senhora da Caridade, na Vila de Sardoal e me mandou pedir para isso licença e aprovação. E por quanto serviço é de Nosso Senhor e mercê, que nos faz em tomarem os ditos Padres mais Casas e estarem em lugar mais cómodo para a sua saúde e para bem do povo, em que tanto fruto fazem com o seu exemplo, conselho, confissões e pregações e tanto o ajudam diante de N.Senhor com as suas contínuas e devotas orações, penitências e sacrifícios.

Nós lhe damos licença e autorização conforme o Direito e o Santo Concílio e folgaremos ser muito parte em tão santa e necessária obra e de tanto serviço e fruto. Pelo que vos mandamos assim o guardeis e publiqueis ao povo, quando for necessário ou pelo M.R.P. Ministro ou outros Padres vos for requerido e lhe deis toda a ajuda e favor que necessário for e procedeis contra todos aqueles que por alguma via os quiserem impedir, sendo justo e necessário e para isso vos cometemos nossas vezes, porque a dita obra se faça com a bênção de Deus e o P. S. Francisco e Santo António e a nossa.”

Relativamente à Igreja do Convento, esta é de uma só nave, de abóbada caleada, com uma capela-mor, de abobada de berço e dois retábulos laterais da transição do Maneirismo para o Barroco. O retábulo da Nossa Senhora da Esperança, situado do lado da Epístola, é um retábulo relicário com colunas pseudo-salomónicas, folhas de acanto e parras de uva com entalhes na zona dos nichos relicários, de recorte maneirista.

SARDOAL2Este retábulo em talha dourada, do séc. XVII, tem ainda sete pinturas, em óleo sobre cobre, retratando quatro delas o ciclo de vida do Menino Jesus; duas cenas relativas à traição de Judas e, por último, uma pintura representando a Ascensão do Nosso Senhor e da Nossa Senhora aos céus, ladeados pelos apóstolos.

Este conjunto pictórico é proveniente de Nagasaki e é de uma riqueza iconográfica espantosa para a época. Ao centro, numa mísula, está a Nossa Senhora da Esperança, escultura policroma do séc. XVII e por baixo da mesma encontra-se um oratório de arte Namban, também vindo de Nagasaki, oferta de Tiago de Lacerda, natural de Valhascos a Jerónima de Parada, sua esposa, que por sua vez, a doou ao convento, na condição de ficar sepultada junto a esse retábulo. Do lado do Evangelho, está o retábulo relicário de São José, também datado do séc. XVII, com entalhe e decoração simétrica ao retábulo da Nossa Senhora da Esperança.

SARDOAL3Este retábulo tem duas pinturas a têmpera sobre madeira representando iconograficamente a Rainha Santa Isabel e Santa Clara. Ao cimo e ao centro encontramos ainda outra pintura, também em têmpera sobre madeira retratando a Aparição de Nosso Senhor e de Nossa Senhora a São Francisco. Este conjunto revela ainda uma certa influência oriental no que concerne à decoração, quer com efeitos arquitetónicos quer policromas. Na parte central, numa mísula, podemos encontrar uma escultura policromada de Santa Isabel, prima de Maria, do séc. XVII, com um excelente trabalho a nível do estofado.

Já na capela-mor temos um retábulo com representação de duas épocas distintas: a primeira do séc. XVII, contemporânea aos retábulos laterais anteriormente falados, com duas pinturas sobre madeira representando São Pascoal e São Bernardino de Sena; duas mísulas laterais e duas esculturas (Santo António e São Francisco). No centro a tribuna e o trono são já dos finais do séc. XVIII, o respetivo retábulo, do séc. XVII foi avançado para criar profundidade ao espaço, tendo sido colocada uma moldura Rocaille, para receber a tribuna e o trono. Foi encomendado neste período uma escultura policroma da Nossa Senhora da Assunção, da escola de Coimbra, escultura esta impressionante do ponto de vista do trabalho estofado que a mesma apresenta.

Na tribuna vemos uma escultura em pedra calcária, policroma, do séc. XIV, iconograficamente representativa de Santa Maria da Caridade. Tratar-se-á da imagem original da padroeira deste convento, que estaria inicialmente na primitiva ermida.

Do lado do Evangelho, na capela-mor surge-nos ainda um belo exemplo de tumulária do séc. XVII, em pedra calcária policroma, em tons de vermelho e dourada a folha de ouro, onde jaz D. Gaspar Barata Moura Mendonça, primeiro Arcebispo da Bahia, Primaz do Brasil e que, segundo a leitura da parte central epigrafada do seu túmulo, concluímos que, devido aos seus achaques, ficou impedido de ir ao Brasil, governando assim a província à distância.

O túmulo encontra-se encimado pelo brasão do Arcebispo e assenta em cima de três leões; nas laterais temos duas colunas ao gosto clássico, decoradas por motivos florais e por fim o frontão com uma cruz dourada no topo.

No teto podemos visualizar também uma pintura mural, representativa do brasão do Arcebispo da Bahia.

O Convento de Santa Maria da Caridade encerra um mundo de sonhos e mistérios que preenchem o imaginário dos Sardoalenses, de frades, de navegantes, de cavaleiros, damas e donzelas onde o sagrado e o profano coexistem.

Texto de: Maria Rocha e João Soares

Fotos: Paulo Sousa

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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