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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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À Descoberta de Ourém: Conhece o Park do Rato?

À entrada há um aviso: “Parque privado de utilização pública. Seja responsável por si e pelos seus. Mantenha o Parque Limpo”. O “Park do Rato”, ou Salgueyro – Park, pertence a Fernando Ferreira, proprietário de uma serração na localidade de Matas, concelho de Ourém, a poucos metros do local onde instalou uma piscina e parque de merendas para convívio de amigos e que hoje disponibiliza à população. “Dá-me prazer”, afirma, admitindo que devem passar pelos espaço, nos dias mais quentes, cerca de 500 pessoas. 

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Ouvimos falar numa praia fluvial em Matas. Matas?! Não há aí nascente de rio, nem rio que se defina como tal. Mas já ali se concentraram autarcas em campanha eleitoral e parece ser uma estrutura minimamente conhecida no concelho. Partimos à descoberta desse estranho rumor, que surgiu inusitado no pico do verão. Uma praia que atrai multidões, junto a um parque de merendas, e que há vários anos faz as delícias balneares das gentes da região, no cruzamento do distrito de Santarém com o de Leiria. Também nos disseram que havia proprietário. Mas…como assim? Então não é uma praia fluvial?!

A viagem não tem nada que enganar. Entrando em Matas é procurar a placa que diz “Parque de Merendas”. Ao fim de cerca de 500 metros corta-se à direita, numa estrada de tuvenant, e descobrimos o grande portão e a gravura em pedra que alerta estar-se a entrar em terreno privado, que abriu à utilização pública. O portão abre às 7h30 e fecha às 21h30. Teve que ser! – explica mais tarde o proprietário. Havia pessoas a frequentar a piscina a altas horas da noite.

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foto mediotejo.net
foto mediotejo.net

É uma história algo invulgar a que nos conta Fernando Ferreira e com a sua dose de altruísmo. Começou por volta dos inícios do século, quando os filhos deste começaram a querer fazer casas num terreno paralelo à cova onde se situa hoje o Park. O silvado que aí existia era de tal ordem que Fernando Ferreira, conta-nos, foi falar com a proprietária da cova para que esta limpasse o terreno. Nada feito, passaram-se três anos em negociações, até que Fernando acabou por adquirir o espaço. Feito o negócio, começou por fim a limpar o mato, em 2008.

“Comecei a cortar o mato em maio e pensei meter lá uma mesa”, explica, na expetativa de aí fazer alguns convívios. “Acabei por meter oito”. No local existia uma presa de regadio, a qual alargou e fez um “lago”, na ocasião com a intenção de fazer aí uma estrutura para alguns jogos de pesca. No final do verão, a sua pequena praia caseira juntou cerca de 1500 pessoas numa grande festa, onde se comeu e bebeu às muitas dezenas de quilos e litros, enumera. Terá sido por essa altura que o Park começou a ganhar fama…

foto mediotejo.net
Foto: mediotejo.net

“Começaram a vir pessoas à piscina, ainda com o fundo em terra”, explica Fernando. Cerca de 20/30 pessoas, jovens, mas já em idade adulta, que por ali se divertiam apesar de o fundo da piscina ser só lama e não haver qualquer forma de se lavarem. “As pessoas saiam daqui enlameadas e voltavam”, relembra, ainda surpreso com aquele entusiasmo. Decidiria então investir e criar um equipamento balnear em condições, aberto à população.

Começou pela piscina. Sendo a água da antiga presa muito “férrea”, fez dois furos e procurou água mais própria para banhos. Aquando o processo, surgiu um cheiro intenso e desagradável que quase invalidou o projeto. Segundo Fernando Ferreira, foi o responsável pelos furos que lhe explicou que se tratava de água termal, semelhante à utilizada nas termas de Monte Real, razão pela qual exalava aquele cheiro intenso, que desapareceria em contacto com a atmosfera. Não há registo de curas de pele, apenas uma ou outra história de algum alívio após um mergulho, mas também nenhum problema de contaminação a registar, afirma.

O controlo da água é feito pelo proprietário, que periodicamente faz análises em laboratório. Chegou a ter uma promessa dos serviços municipais para um controlo mais organizado, mas nunca teve conhecimento da passagem dos funcionários. Garante, porém, que a água é “pura” e nunca ali teve problemas.

Acabaria por fazer a estrutura em pedra, pintada de azul como as piscinas “oficiais”, e arranjar toda a envolvente, que hoje tem relva, e onde as pessoas se deitam ao sol. O parque de merendas ao lado já conta com duas dezenas de mesas, com casas-de-banho e churrasqueiras. Joga-se ao prego e fazem-se piqueniques, enquanto os mais novos saltam para a piscina. Há um chuveiro exterior e o espaço está todo vedado e iluminado.

Fernando Ferreira. foto mediotejo.net
Fernando Ferreira. Foto: mediotejo.net

O mediotejo.net passou pelo Park durante uma tarde de muito calor à procura do proprietário de tão estranha praia. Encontrou-o cheio, com dezenas de pessoas a conviver e a nadar na piscina. “É só a segunda vez que cá venho, mas julgo que se pode andar aqui à vontade”, comentou um senhor meio atrapalhado, surpreendido pela referência a um suposto dono de tão aprazível espaço. Voltamos no dia seguinte, cerca das 20 horas, e encontramos o senhor Fernando na rega e a apanhar o lixo deixado durante o dia. Durante a conversa, três adolescentes ainda nadam na piscina e chegam duas jovens, já ao anoitecer, para também se divertirem um pouco.

Fernando Ferreira é bisneto de um jovem do norte que veio até ao concelho com as tropas francesas durante as invasões. Perdida a guerra, ficou por Urqueira e aí fez família. Será desse avô que vem a alcunha de Rato, que ainda hoje é o cognome da família e do parque de lazer que criou na sua propriedade. “Há muitos fins de semana em que passam aqui 500 pessoas”, comenta, referindo que já ali estiveram pessoas de Braga, Porto e Lisboa.

Reconhece que nem tudo está devidamente legalizado e que tem empreendido esforços para que se criem mais condições de segurança e o município o ajude a fazer a manutenção da estrutura. Por ano gasta ali 6/7 mil euros, mas é a autarquia quem recolhe o lixo. Há protocolos já apalavrados e tem a expetativa de que num verão próximo ali possa vir a estar destacado um nadador-salvador. Para já, em todo o parque, são bem visíveis os avisos de que o proprietário não se responsabiliza por acidentes, sendo este um espaço privado que foi deixado ao usufruto da população.

Mas porquê?, questionamos. “Pelo prazer”, comenta várias vezes Fernando Ferreira, que confessa não saber nadar e ter tido uma vez um acidente quase fatal no mar. Gosta de conviver e desde que não venham a mal a porta está aberta. “Continuo a ter felicidade nisto”!

E a entrada é gratuita.

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Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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