À Descoberta | Caminhada cultural em Belver pelos 500 anos do Foral (c/FOTOS)

Belver

A Caminhada pelo Património da vila histórica de Belver, em articulação com os Museus do Sabão, das Mantas e Tapeçarias, do Castelo e da Igreja Matriz abriu as festividades deste sábado, 19 de maio, dos 500 anos do Foral Manuelino. Atualmente no concelho de Gavião, desde 1898, o concelho de Belver foi extinto em 1836, sendo a freguesia integrada no município de Mação. Um passeio que levou cerca de 170 caminhantes a visitar ainda a Capela da Nossa Senhora do Pilar e o Caminho da Fonte Velha. Foram sete quilómetros em três horas, num percurso fácil, sempre com a companhia do rio Tejo e uma paisagem natural de cortar a respiração.

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Chegámos à entrada de Belver, depois de atravessar a ponte sobre o rio Tejo, dez minutos antes das 09h00 com o pensamento no Largo 5 de Outubro, junto à Igreja Matriz local de concentração dos caminheiros. Àquela hora o sol já fazia transpirar aqueles que insistiam em trazer consigo um agasalho temendo a aragem da manhã. Depressa o Largo do Pelourinho, onde afinal as gentes se juntaram, se encheu de vozes e cor.

As tendas da Feira Quinhentista mantinham-se “adormecidas”. Mais abaixo, uma carrinha da Junta de Freguesia de Belver distribuía garrafas de água e maçãs para quem precisasse retemperar as forças durante o percurso. E lá arrancámos de mochilas às costas e olhos postos na história em promessas de que iria ser contada.

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E foi! Primeiramente por Carlos Grácio, professor na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, em Abrantes, que nos apresentou a Igreja Matriz de Belver, um templo do século XVI dedicado à Nossa Senhora da Visitação. A história desta Santa prende-se com o nascimento de São João Baptista. Após a anunciação do nascimento, Maria foi visitar a sua prima Isabel, um ato de caridade considerado acontecimento de Jesus.

Essa história está espelhada no painel do altar mor. “A imagem da Santa é de roca, um pau, que é a estrutura da própria imagem, com cabelo natural” explica Carlos Grácio.

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Como obra de arte de importância destaca-se o quadro representando S. Miguel no Purgatório atribuído ao pintor Pedro Alexandrino de Carvalho. Tal como o painel do altar mor. Os painéis estão assinados “pelo mais famoso pintor do século XVIII em Portugal, com oficina em Lisboa mas que fazia obra para todo o País e também para o estrangeiro. O altar mor da Sé de Lisboa também é do mesmo autor”, refere o professor. Significando que em Belver no século XVIII “houve quem tivesse dinheiro para adquirir estas telas”.

Igreja Matriz de Belver

A Igreja Matriz de Belver é uma igreja de “salão, apesar de ter três naves, é de piso amplo. Tem um púlpito original em granito, tal como as colunas que também são originais”, indicou. Num dos altares uma arca com as santas relíquias, que em sua honra é realizada a festa anual da freguesia.

“São relíquias que vieram da Terra Santas. Na Idade Média, Belver era uma terra de Hospitalários, também chamados de Ordem de Malta fundada em Jerusalém, que foi evoluindo à sombra do castelo que é Hospitalário, do século XII, do reinado de Dom Sancho I. As relíquias foram entregues ao Grão Prior da Ordem de Malta, a Ordem foi ‘colecionando’ essas relíquias que estão nesta arca”, explica. E as relíquias são “o anel de São Brás que era bispo, cabelos de Maria Madalena, palhinhas da manjedoura do menino Jesus, ossos… está aquilo que a imaginação da Idade Média criou à volta das relíquias e do negócio” que as envolveram.

Do exterior observa-se uma Igreja branca com um campanário e “um pórtico em arco de volta perfeita” explicou Carlos Grácio.

Da Igreja Matriz caminhou-se até ao Museu do Sabão, também muito representativo da história de Belver uma vez que no século XVI a produção de sabão assumiu inegável importância económica e social na região. Nesta localidade foi instalada uma Real Fábrica de Sabão, que funcionou em regime de monopólio régio.

“Os saboeiros não podiam vender o seu sabão livremente, para isso tinham de pagar um imposto ao rei”, ou seja, partilhar o lucro da venda com a coroa. Alguns trabalhadores das saboarias reais revoltaram-se, aproveitando os conhecimentos adquiridos e a disponibilidade das matérias-primas, criaram as suas próprias indústrias artesanais, quando este monopólio terminou em 1858.

As explicações foram dadas aos visitantes por Sílvia Bernardo, funcionária do Museu que referiu ser o sabão, naquela época, utilizado sobretudo na lavagem de roupas e nos soalhos das casas que eram em madeira. A recuperação e transformação da antiga escola primária no Museu do Sabão pretende criar um espaço de divulgação dos conhecimentos adquiridos pelos antepassados dos belverenses e homenagear a memória coletiva dos saboeiros de Belver.

Parte do grupo da Caminhada Cultural por Belver no Museu do Sabão

Nesta visita ficámos a conhecer a história do sabão no mundo, do seu aparecimento na antiga Mesopotâmia e Egito, a lenda associada à sua origem contada por Sílvia Bernardo, e a evolução até aos dias de hoje. Também a história do sabão em Portugal, a sua importância económica do século XIV ao século XVIII, com exposição de alguns produtos que marcaram gerações.

E apreciamos alguns monumentos do concelho de Gavião em pequenas esculturas de sabão, iniciativa para comemorar o quinto aniversário do Museu do Sabão em 2018.“O início do Museu explica como é composto o sabão quimicamente, mostra-nos a imagem da molécula do sabão e as diferenças entre sabão mole (composto por potássio) e sabão duro (composto por sódio).

“O sabão de Belver era feito com cinza, borras de azeite, cal como aditivo para branquear e água. Este sabão ficava mole por causa das cinzas e não era utilizado para a pele”, refere Sílvia. O sabão em Belver foi fabricado até meados do século passado mas “atualmente já não existe nenhum saboeiro vivo” na freguesia.

Depois do único Museu do Sabão português (e o terceiro da Europa, existe um em Espanha e outro na Polónia), a Caminhada cultural passou pela Capela da Nossa Senhora do Pilar, observada apenas do exterior, encontrando-se em obras. Esta ermida era um espaço privado que estava em ruínas. O Município conseguiu através de um projeto reabilitá-la exteriormente. No seu interior existe um altar simples, mas o mais interessante de observar são os frescos que existem no tecto, que apesar de todos os esforços ainda não foi possível recuperá-los e por isso se mantém fechada.

Os caminheiros seguiram o Caminho da Fonte Velha. Mas não é só uma fonte, é também uma exposição de arte contemporânea, de escultura passo-a-passo, da harmonia do antigo com o moderno, do velho com o novo. As esculturas apresentadas são de vários autores e foram esculpidas por ocasião da obra de recuperação do Caminho. Verificámos diferentes traços mais rústicos e outros ais contemporâneos. Com esta iniciativa a autarquia pretende tornar o percurso mais interessante e retratar alguns pontos associados às atividades das gentes de Belver.

Trata-se de uma fonte bastante procurada, pela sua água férrea. O Caminho era também muito procurado por casais de namorados pela sua beleza cativante.

Caminho da Fonte Velha, Belver

Lá em baixo, junto à ponte que atravessa o rio Tejo, encontrámos o Núcleo Museológico das Mantas e Tapeçarias de Belver. Para nos receber Olga Teixeira que ensinou os passos básicos da tecelagem e até incentivou a experimentação dos visitantes. Uma das senhoras arriscou sentar-se ao tear manuseando a navete por entre os fios.

Em 1934 que Maria Nunes da Silva abriu naquele edifício uma unidade de produção de tapetes, mantas de lã, passadeiras de trapos, peças de linho e estopa. As lãs eram ali tingidas em caldeiras grandes. Foi a sua irmã Natividade Nunes da Silva quem deu continuidade ao negócio e mais tarde a sua filha, Maria Nunes da Conceição, seguiu o seu legado até ao seu encerramento definitivo. À entrada foi possível observar o linho em flor.

E depois subimos até ao Castelo, a parte do percurso que apresenta maior dificuldade. Imponente, com o epíteto de Sentinela do Tejo, o Castelo de Belver, envolvido numa profusão harmoniosa de cores, ergue-se num rude penhasco sobre o Tejo.

Foi o primeiro castelo construído pelos Hospitalários em território português, por decisão régia de Dom Sancho I, constante do documento de doação que, em 1194, atribui à Ordem do Hospital um vasto território na margem norte do Tejo, uma região entre o rio Zêzere e o rio Tejo, denominada Guidintesta.

O linho em flor no Museu das Mantas, Belver

A sua localização estratégica prevenia novas incursões para norte, quando o Tejo era espaço de fronteira entre cristão e muçulmanos. A segurança desta fortaleza e a capacidade de organização dos Hospitalários, leva Dom Sancho I da destinar Belver como um dos locais para depósito do tesouro real português.

Atualmente o castelo encontra-se em bom estado de conservação tendo sido restaurado nos anos de 1940. Isto porque em 1755 e 1908 aconteceram dois grande terramotos que provocaram a destruição parcial do monumento. Além disso, mais recentemente foi alvo de vários restauros, nomeadamente na torre de menagem onde se encontra o Centro Interpretativo.

O Centro Interpretativo do Castelo de Belver funciona de quarta a domingo das 10h30 às 13h00 e das 14h00 às 18H00. Este sábado o castelo apresentava uma decoração diferente para as celebrações dos 500 anos do Foral de Belver e as anunciadas recriações históricas.

Capela de São Brás, no Castelo de Belver

Tem ainda a Capela de São Brás, construção do século XVI, que ostenta um retábulo/relicário “em pau santo ou pau ferro” as opiniões dividem-se, explicou Carlos Grácio, mas é por certo de “madeira exótica”, dedicado ao bispo São Brás. Todo o retábulo é composto por pequenas esculturas que têm um buraco no peito e a maioria não tem mãos, precisamente para guardarem o conjunto de relíquias que se diz terem sido trazidas da Terra Santa pelos Cavaleiros Hospitalários.

Elemento diferenciador na paisagem, o castelo participava em diversos aspetos da vida quotidiana das populações. À sua sombra protetora realizavam-se feiras e transacionavam-se mercadorias, originando encontros e alterações da rotina do dia-a-dia pela presença animada de forasteiros e almocreves. A recriação histórica destes tempos medievais está no programa da Feira quinhentista.

Programa para domingo 20 de maio, dia do encerramento:

09h00 – Geo caminhada dos 500 anos do foral manuelino de Belver. (geocaching Vila de Belver – programa específico)
14h30 – “As plantas aromáticas e medicinais na época quinhentista”, apresentação pela Professora Doutora Fernanda Delgado Sousa. (Miradouro do Outeirinho) – moderadora – Profª. Madalena Dias
16h00 – Apresentação do desdobrável turístico da Freguesia de Belver, pelo Dr. António Ceia – Presidente do Turismo do Alentejo e do Ribatejo (Castelo – Capela de São Brás)
17h00 – Torneio de armas a cavalo na praça de armas do castelo.
18h00 – Dança quinhentista pela Universidade Sénior de Gavião. (Largos da Igreja Matriz)
19h00 – Missa solene presidida por Sua Excelência Reverendíssimo Bispo de Portalegre e Castelo Branco, Antonino Dias.
Participação e acompanhamento do Coro Misto da Covilhã sob a direção do maestro Luís Cipriano.
Presença dos Cavaleiros da Ordem de Malta. (Igreja Matriz)
19h30 – Espetáculo de música e dança quinhentista. (Largos da Igreja Matriz)
20h30 – Espetáculo de encerramento – Teatro de fogo “Belo de Ver” com acrobacia aérea na frontaria da igreja pela Viv’Arte. (Largos da Igreja Matriz)

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