Quarta-feira, Março 3, 2021
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À Descoberta | Calcorrear a Rota do Pão e provar o Vinho por época de São Martinho

Em época de provas de vinho novo aproveite para visitar um vinhedo e sentir a natureza, no concelho de Sardoal, começando pela Lapa. No passado, local de romaria em honra de Nossa Senhora da Lapa, atualmente recebe outro tipo de forasteiros que procuram paz de espírito na tranquilidade do campo. Na Rota do Pão e do Vinho, optando por uma caminhada irá passar por antigas azenhas, uma ponte medieval e se tiver sorte, observar lontras. De lá subir até aos moinhos de Entrevinhas, tal como muitos subiram para moer os cereais para fazer o pão. Depois atravessar as vinhas da Quinta do Vale do Armo, comer uma uva se alguma tiver ficado esquecida na videira, provar os vinhos, novos e velhos, ou simplesmente, apreciar as múltiplas cores que a paisagem oferece.

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Seguindo a tradição popular, com provérbios a condizer, é por altura de São Martinho que os apreciadores vão às adegas provar o vinho novo. O outono, com o seu colorido predominante que vai do amarelo ao vermelho, é também uma boa estação, se outro santo ajudar, para palmilhar caminhos do concelho de Sardoal, conhecendo precisamente o circuito turístico da Rota do Pão e do Vinho, que inclui a visita a três moinhos, também a algumas azenhas da região e ainda às vinhas da Quinta do Vale do Armo.

O percurso pedestre ‘Do Pão ao Vinho’ de Sardoal é circular, de pequena rota, com 9,5 quilómetros de extensão, com duração aproximada de três horas e grau de dificuldade nível III, ou seja, algo difícil, por isso deve levar calçado próprio para caminhantes, roupa confortável, água e um reforço alimentar. Apesar de não ser longo, apresenta vários pontos de interesse naturais e culturais. Saindo da Lapa, Cabeça das Mós, um pouco abaixo do lugar da Palhota, é ponto de partida para conhecer locais integrados na história do fabrico do pão e do vinho daquele concelho do Médio Tejo.

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Rota do Pão e do Vinho, Sardoal. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Uma vez na Quinta de Arcez poderá apreciar o espelho de água e a Capela da Senhora da Lapa que mergulha as suas raízes num passado longínquo, de tal modo que várias gerações trouxeram até hoje memórias de lutas com mouros, ainda que não comprovadas documentalmente. Contudo, segundo é contado no site do Município de Sardoal, por volta de 1600 já o culto da Senhora da Lapa tinha grande divulgação.

A pequena capela rural foi então edificada na década de 50 do século XVII por ordem do abade João Cansado, numa das margens da Ribeira de Arecês, mais recentemente transformada em albufeira para captação de água e espaço de lazer. Ao lado, um parque de merendas, apoiado por equipamento diverso como wc, água potável, zona para churrasco e um extenso campo verde com árvores de grande porte. Para melhor se orientar consulte o mapa deste percurso, disponível num pequeno telheiro à entrada.

A capela está descrita, pela Direção-geral do Património Cultural, de planta retangular, apresentando uma fachada simples, antecedida por uma escadaria. É destacada a riqueza do programa decorativo interior, contrastando com a simplicidade do exterior. O interior do templo é coberto por abóbada e apresenta na parede testeira uma estrutura retabular assente sobre colunas, que enquadra um nicho, onde estava inserida a imagem de Nossa Senhora da Lapa, atualmente guardada na casa da Quinta. Este conjunto, bem como a imagem da padroeira, foram mandados executar cerca de 1721 por Duarte de Sousa França, sobrinho do fundador e detentor do padroado da capela na época.

As paredes laterais são revestidas com painéis de azulejos, e a abóbada foi decorada com um conjunto de pintura que enquadram figurações da Adoração dos Reis Magos, Adoração dos Pastores, Anunciação, Assunção. Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1996.

E o passeio segue, agora percorrendo a velha, embora alcatroada, estrada que liga a Lapa ao Porto de Mação. Ali encontrará ruínas de várias azenhas e a antiga levada de água, nas margens da Ribeira das Sarnadas, onde poderá, em dias bons, encontrar lontras. No final da levada está sinalizado um desvio para visitação de uma ponte medieval oculta na galeria ripícola. No momento seguinte, o roteiro leva o caminheiro até à aldeia de Entrevinhas e ao seu núcleo de moinhos. Na passagem encontra a Fonte do Vale.

Preservado, o núcleo de moinhos de vento possibilita, no interior de um deles, a observação de alguns artefactos que ajudam a perceber como se fazia o pão. Para obter informações mais pormenorizadas, pode agendar com a Câmara Municipal de Sardoal uma visita guiada. A altitude daquele lugar permite avistar também uma parte do concelho vizinho de Abrantes. Em destaque no horizonte o Castelo de Abrantes e a Torre de Telecomunicações no topo da cidade e a Central Termoelétrica no Pego.

Durante mais de um século, os quatro moinhos de vento testemunharam a subsistência dos habitantes das aldeias de Entrevinhas e Palhota e de algumas freguesias circundantes, assegurando a moagem dos cereais. Trata-se do mais importante núcleo de moinhos do concelho de Sardoal. Datam de finais do século XIX e funcionaram em pleno até ao verão de 1959.

Ao descer dos moinhos descobre a fonte do Pocinho, e depois, ao percorrer os trilhos da zona envolvente à Venda Nova poderá apreciar, se tiver sorte, algumas espécies da flora local como a orquídea ou o lírio-amarelo, caso contrário será motivo para regressar na primavera.

Rota do Pão e do Vinho, Sardoal. Foto: Paulo Jorge de Sousa

No site da Câmara Municipal indica-se que findo este caminho encontrará as vinhas da Quinta do Vale do Armo, que distancia cerca de 4 quilómetros da vila de Sardoal. Nos tempos da II Guerra Mundial, a quinta era um grande empregador do concelho, mas não se destacava apenas na produção de vinho, também no linho, que curiosamente originou o seu nome, uma vez que o armo é a peça que compõe a roca, instrumento que tece o linho. Em 2004 foi revitalizada.

Se tiver interesse, agende uma prova de vinhos, a quinta organiza um dia diferente na adega. Para tal criou programas quer para grupos grandes, quer para um pequeno grupo de familiares ou amigos. Disponibiliza, nos dias frios, a sala de provas aquecida com lareira tradicional, onde poderá desfrutar de uma prova acompanhada por sugestões gastronómicas. Nos dias mais quentes recebe no alpendre da adega.

“As provas são presenciais com enólogo, por isso para melhor articulação as visitas estão sujeitas as marcação” explicou ao mediotejo.net Sara Remigio, responsável pelo marketing da Quinta do Vale do Armo, adiantando que, por tratar-se de uma pequena equipa, “a época de vindimas e de enchimentos são mais complicadas, mas tentamos sempre receber quem nos visita”.

A loja para adquirir os produtos só funciona em dias úteis, no mesmo horário da adega, das 09h00 às 12h00 e das 13h30 às 17h30, mas ao sábado os vinhos podem ser comprados na loja Cá da Terra, situada no Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal.

A vinha foi plantada em 2005, inicialmente com 10 hectares, de castas brancas e tintas sendo predominantes as castas portuguesas. Em 2007 tiveram necessidade de adquirir mais terreno para novas plantações. Neste momento a vinha atingiu os 60 hectares.

Seguindo a rota, após o vinho e as vinhas, inicia-se o regresso ao ponto de partida. Os terrenos apresentam-se mais ou menos acidentados e acompanham linhas de água descontinuadas.

Neste percurso pedestre “Do Pão ao Vinho” irá encontrar marcação feita nos dois sentidos, que obedece ao regulamento da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal. As cores utilizadas são o amarelo e o vermelho, em conformidade com o definido para os percursos de pequena rota.

Para que a visita termine da melhor maneira, o caminheiro é aconselhado a ter alguns cuidados especiais como, não fazer lume, seguir somente pelos trilhos sinalizados, não deitar lixo para o chão, não danificar a flora, observar a fauna à distância, preferencialmente com binóculos, não colher amostras de plantas ou rochas e também evitar os dias de caça.

 

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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