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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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“A Constância para ver a ponte”, por António Matias Coelho

A primeira ponte fixa que se construiu sobre o Tejo em território português foi a primitiva ponte ferroviária a ligar a Praia do Ribatejo a Constância Sul.
D. Pedro V, um dos mais cultos e mais desditosos monarcas portugueses, veio à vila para ver as obras de construção que estavam a decorrer. Foi em outubro de 1861, faz agora 160 anos.

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Sua Majestade veio ao Ribatejo sem ter anunciado a sua visita com muita antecedência. Um dos motivos fundamentais da real deslocação a estas terras era tomar contacto com os trabalhos da construção da linha de caminho de ferro que então estavam em curso e que permitiriam a ligação ferroviária de Lisboa a Espanha, passando por Constância e por Abrantes – sem dúvida a obra de maior vulto do seu curto reinado.

E foi pela vila de Abrantes que o rei começou a visita, nela se demorando dois dias. Acompanhava-o uma ilustre comitiva que integrava o ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, responsável mais direto pela construção da linha férrea.

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O rei subiu ao castelo de Abrantes, de onde pôde contemplar a vastidão em redor e respirar o ar puro de que muito andava carecido. Para perpetuar a presença real naquela praça, foi mandada colocar, algum tempo depois, uma lápide que ainda lá está para quem a quiser ver e que aqui reproduzimos.

Só no dia 5 de outubro, a três dias da chegada do monarca a Abrantes, é que se soube em Constância que era vontade de el-rei visitar também esta vila. Foi o administrador do concelho que trouxe a notícia de que Sua Majestade tencionava pernoitar em Abrantes no dia 8, passar lá todo o dia 9 e seguir para Constância a 10 pela manhã.

Dar tudo para receber bem

O presidente da Câmara Municipal de Constância, José de Sousa Falcão Júnior, estava ausente, tratando de negócios em Lisboa. Na emergência, coube ao vice-presidente José dos Santos Gouveia a difícil tarefa de coordenar a execução de todos os preparativos para que o concelho e a vila pudessem receber condignamente o augusto visitante.

A Câmara tinha pouco dinheiro e tinha também a consciência de que não se poderia dar a luxos excessivos. Mas não é todos os dias que se recebe uma visita real e todos queriam que Sua Majestade se sentisse bem em Constância e dela levasse uma agradável recordação.

Deitou-se de imediato mãos à obra, que não havia tempo a perder. A estrada que vinha de Abrantes e que nesse tempo ainda era em terra e estava cheia de buracos, foi reparada, terraplenada e limpa desde o limite do concelho até à vila. Arranjaram-se arcos que foram montados à entrada de Constância e decorados com o esmero possível para que a real comitiva entrasse triunfalmente na vila. Compraram-se muitas girândolas de foguetes para saudar a chegada de el-rei. Todos os recursos humanos disponíveis foram mobilizados para que, em apenas quatro dias, todo o caminho que Sua Majestade havia de percorrer em terras do concelho estivesse em condições de honrar tão ilustre visitante. Nestes trabalhos se gastou a importante verba de 71$135 réis que correspondia a um grande esforço do município mas que se despendia com compreensível satisfação.

O reverendo prior de São Julião, Dr. Luís Ribeiro Guimarães Drack, foi chamado à Câmara para se acertarem pormenores quanto ao envolvimento religioso da visita. Ficou combinado que seria celebrado um solene Te Deum cantado «na igreja de Nossa Senhora dos Mártires que serve de matriz». O pároco comprometeu-se a tratar «das mais esplêndidas e aparatosas decorações da igreja», nada mais querendo da Câmara senão os mestres d’obras que fosse necessário contratar, especialmente para preparar o dossel com que pretendia brindar Sua Majestade enquanto permanecesse no interior do templo.

O administrador do concelho pôs a sua casa à disposição do monarca para que pudesse descansar e tomar a refeição do meio-dia. As ruas por onde a comitiva iria passar no trajeto entre a igreja e a casa do administrador, situada na atual Luís de Camões, foram todas postas «no possível asseio» e juncadas de murta e de alecrim.

Em tempo recorde a vila ficou num brinquinho, pronta para receber a real visita e, como então se afirmou, para dar a Sua Majestade uma viva demonstração «de que se mais não fizemos era porque mais não comportava a curteza do tempo e estreiteza do lugar».

Na manhã do dia 9, quando os trabalhos da estrada e dos arcos estavam praticamente prontos, soube-se na vila que el-rei só nesse dia chegaria a Abrantes e que, portanto, apenas a 11 estaria em Constância. Com mais um dia para preparar a visita, a Câmara mandou ainda compor melhor alguns pontos da estrada que vinha de Abrantes. Mas no dia seguinte, 10 de outubro, o administrador do concelho chegou à vila com novas desagradáveis: que el-rei, sim senhor, o honraria a ele, administrador, aceitando almoçar em sua casa, mas que a jornada de Abrantes a Constância a faria… pelo Tejo…

Tanto trabalho para quase nada… Mas a Câmara, com menos de 24 horas pela frente, não desanimou e mandou fazer a toda a pressa, no Zêzere, um cais e uma ponte de barcas para o desembarque do rei e seus acompanhantes. E nisto se gastaram mais 88$770 réis, elevando para cerca de 160 mil réis os custos dos preparativos para a receção.

Mas D. Pedro V veio e a sua presença simpática fez esquecer os contratempos e os gastos que se poderiam ter evitado se a visita tivesse sido anunciada com mais tempo e mais rigor.

D. Pedro V nas notas de 1000 escudos de 1968

Um dia memorável

Esse dia 11 de outubro de 1861 é uma data memorável para o povo do concelho de Constância. E a memória chega-nos através da descrição do que do grande acontecimento nos deixou José Correia Pinto de Morais, escrivão da Câmara, que com muito gosto e grande beleza descreveu a chegada do rei e a sua jornada na vila. Dêmos-lhe, pois, a palavra:

«Na manhã do dia onze começou a afluir a esta vila muito povo das aldeias vizinhas, tendo a Câmara mandado pôr d’atalaia um homem que anunciasse a chegada de Sua Majestade e comitiva. Dado o sinal d’alerta, correu a Câmara ao sítio do desembarque com muitos cavalheiros que para este fim tinha convidado, apinhando-se este local de povo, a ponto de ser custoso formar em devida forma o Esquadrão de Cavalaria n.º 4 que fazia a guarda de honra a Sua Majestade, que à proporção que se aproximava à vila, subiam ao ar muitas girândolas de foguetes, até que pela volta do meio-dia desembarcou Sua Majestade e comitiva no cais que a Câmara lhe destinou, onde o esperou».

Coube ao vice-presidente da Câmara a honra de dar as boas-vindas a D. Pedro V, pronunciando as seguintes palavras:

«Senhor! A Câmara Municipal do Concelho da Notável Vila de Constância vem cheia de júbilo prestar a homenagem devida a tão excelso monarca.

A receção a Vossa Majestade dentro dos limites deste concelho é mais um brasão de glória que lhe é concedido por seus reis.

Os habitantes deste concelho já de largos anos são tidos por seus monarcas em consideração muito acima de seus feitos patrióticos, o que bem mostra o real decreto da augusta mãe de Vossa Majestade de sempre saudosa memória de 7 de dezembro de 1836 [referia-se ao decreto de D. Maria I que mudou o nome da vila de Punhete para Constância].

 Esta Câmara Municipal e os habitantes do concelho que representa, ainda, real senhor, nutrem a favor de Vossa Majestade, de toda a Família Real e das livres instituições que felizmente nos regem iguais sentimentos aos que lhes granjearam tão honroso brasão.

Esta Câmara Municipal, submissa, implora a permissão de beijar as régias mãos de Vossa Majestade e pede ao Todo-Poderoso que prodigalize a Vossa Majestade as venturas de que é credor e que os bons portugueses lhe ambicionam.

O Céu dilate e guarde a vida de Vossa Majestade por tantos anos quantos mester são à nação»

D. Pedro V agradeceu e ordenou ao ministro das Obras Públicas que recebesse o texto da felicitação, dando a seguir a mão a beijar aos elementos da Câmara e às pessoas que se conseguiram aproximar.

Depois organizou-se o cortejo que conduziu o rei e a comitiva à igreja matriz. Sua Majestade seguiu debaixo de um pálio cujas varas eram pegadas por membros da Câmara e pelo administrador do concelho.

O prior, acompanhado de todo o clero do concelho que tinha sido convidado para participar na cerimónia, veio, de cruz erguida, ao encontro do rei, acompanhando-o até à igreja. Com música de órgão e canto celebrou-se o solene Te Deum, sempre de pé. Terminada a cerimónia, o rei foi conduzido até à porta da igreja sob o pálio, mas depois fez questão de descer a vila mais à vontade, liberto dessa honraria.

O cortejo desceu a rua de S. Pedro, passou pela Praça e subiu depois as ruas da Cadeia e do Cimo de Vila onde se situava a casa de Vicente Ferreira Annes de Oliveira, administrador do concelho, transformada nesse dia em aposento real. Pelo caminho, pisando o tapete de aromas com que Constância forrara o chão das suas ruas, D. Pedro V foi permanentemente saudado e vitoriado por muito povo que veio presenciar a sua passagem.

Sua Majestade foi recebido à porta pelos donos da casa, que a tinham decorado com o primor possível. Seguiu-se o almoço, para o qual foram convidados o prior, o vice-presidente da Câmara e o vereador fiscal.

Terminada a refeição, o rei foi conduzido ao cais improvisado no Zêzere, onde desembarcara de manhã, e tomou lugar no barco que a Câmara lhe preparara para o conduzir ao meio do Tejo, onde se trabalhava na construção da ponte para a passagem da via férrea.

Comboio passando a ponte em 1862. Foto: Alfred Fillon (1825-1881). Copyright: DGPC

Constância tem mais encanto

Regressado ao cais do Zêzere, chegou o momento das despedidas. O jovem rei deixava em Constância uma excelente impressão da sua pessoa pela forma afável como se relacionou com os constancienses durante o dia. Agradeceu à Câmara o modo cortês como fora recebido e à população do concelho que veio à rua vitoriá-lo e dar-lhe mostras de fidelidade e de carinho.

E à partida, quebrando o protocolo, como hoje se diria, Sua Majestade confessou ao vice-presidente da Câmara que «sentia não se poder demorar mais um dia nesta vila». Comoções de jovem sensível ou rendição de rei aos encantos de uma terra?

D. Pedro, que tinha apenas 24 anos e morreria de febre tifoide exatamente um mês depois, não voltou mais a Constância. Mas muitos outros depois dele, mesmo não sendo reis, experimentaram sem dúvida uma sensação semelhante.

Nota: Este texto retoma, com ligeiras alterações, o que foi publicado, há 30 anos, no «Boletim Informativo» da Câmara Municipal de Constância, n.º 11, setembro / outubro de 1991, p. 10/13.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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