“A cidade do medo”, por Vasco Damas

Conta a lenda de uma qualquer mitologia ancestral que em determinado país existia uma cidade que era governada pelo medo. Esta cidade do medo, como era chamada nesses tempos idos, era governada pela promiscuidade, pela mentira, pela falsificação de documentos oficiais, mas, acima de tudo, ela era governada pelo sentimento que lhe dava nome, o medo.

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Este medo era construído através de jogos cruzados e de estratégias de reação e era incutido em quem tinha a faculdade de mudar as coisas, transformando a realidade para que ela fosse vista de forma prismática, desfigurada e deturpada.

O medo, mais que latente, era pungente e isso percebia-se quando se sabia que aqueles que tinham a faculdade de mudar as coisas, tinham efetivamente vontade de as mudar,  mas, eleição atrás de eleição, não só nada mudava, como se reforçava o cenário para que tudo continuasse na mesma.

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Naqueles tempos idos, era normal haver quem tivesse determinados poderes, porque, desde sempre, os poderes do mal foram combatidos pelos poderes do bem. Um desses que detinha faculdades especiais, era também um dos que tinha maior vontade de mudança. A sua faculdade era, com as devidas distâncias e contextualizando as coisas à época, a de construir aquilo que hoje conhecemos aproximadamente como sondagens, através da sua capacidade de ler o pensamento de todos aqueles que manifestavam silenciosamente a mesma vontade de mudança que ele próprio tinha.

Todos os dias até à véspera das eleições, ele construía a sua sondagem e, mais do que otimista, ficava feliz, porque concluía que, aqueles que desejavam a mudança eram incomparavelmente em maior número que aqueles que se resignavam em querer manter tudo na mesma.

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Mas a frustração e a desilusão iam-se construindo eleição após eleição, porque o resultado era invariavelmente o mesmo, e a vontade de mudança da maioria não se refletia no único momento em que era possível produzir essa mudança. O pensamento queria uma coisa, mas o medo da mudança “obrigava-os” a fazer precisamente o contrário daquilo que queriam.

“Cambada de eunucos cobardes” vociferava invariavelmente no fim de cada ato eleitoral, este ser fantástico dotado de capacidades extraordinárias.

Acabou por viver toda a sua vida numa eterna ilusão de mudança, desejando que a sua cidade um dia encontrasse a sua identidade e mudasse de nome com base num sentimento nobre.

Conta-se que mesmo no fim da sua vida, já no seu leito de morte, renovou a esperança que chegou a julgar definitivamente perdida. Talvez a solução existisse e a alternativa se construísse. Bastava que…

Diz quem o viu, que passou para o “lado de lá” com um sorriso nos lábios.

Termina a lenda afirmando que, aquele ou aqueles que decifrarem o enigma e conseguirem completar a frase, libertarão a cidade que passará então a ser a “cidade sem medo”.

Eu não acredito em lendas, mas que as há, lá isso há.

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