“A Caixa de Pandora”, por Aurélio Lopes

A eleição de personagens como Trump e Bolsonaro, cujos comportamentos face à Pandemia demonstram um inqualificável desrespeito pelos cidadãos de que são supostamente os primeiros responsáveis (abrindo assim, a “Caixa de Pandora”, com consequências inimagináveis nos respetivos países e não só), pode e deve, de alguma maneira, fazer-nos refletir sobre as insuficiências e incongruências dos sistemas democráticos modernos. Desde logo, como mecanismos de acesso ao poder.

PUB

Cujas estritas numerologias eleitorais, os tornam facilmente instrumentalizáveis pelos mais diversos poderes políticos e empresariais e, em que os meios de comunicação social institucionalizados (supostos espaços de liberdade de expressão e opinião), constituem, frequentemente, fatores de instrumentalização de mentes; induzindo, deste modo, ações e opiniões pré concebidas. Mais grave, ainda, porque muitas vezes tal não é facilmente percetível e, tende  a passar despercebido ou menorizado.

Será que se trata, apenas, de imperfeições na aplicabilidade dos pressuposto político-sociais democráticos?

PUB

Afinal, como dizia Churchill há algumas décadas atrás, “a Democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras que foram experimentadas”. Dito de outra maneira, a Democracia é o melhor, dos piores sistemas de governo!

Contudo, a experiência verificada com os sistemas eleitorais diretos, não deram, como era previsível, resultados satisfatórios. Pois os mesmos implicam, nos diversos níveis de escolha dos representantes, imposições não necessariamente das opiniões mais numerosas mas, sim, daquelas cujos membros estão mais organizados. Aspeto, que se torna mais importante conforme se vai subindo de nível de votação, numa implícita ou explícita filtragem que, acabará por ir afastando, de todo, potenciais ou efetivos divergentes.

PUB

Situação a que o voto público (supostamente mais livre mas, condicionado pelos interesses em presença), se torna, ele próprio, um fator de constrangimento (quando não de medo) e um obstáculo à livre expressão da respetiva vontade.

São sistemas políticos que tornaram, é certo, as sociedades mais justas. Porém, facilmente tornadas autoritárias e, afinal, incapazes de competir economicamente, num mundo cada vez mais interativo e interdependente, com as economias capitalistas.

Se calhar, o problema está mesmo em nós e, nas naturais imperfeições e hipocrisias, das nossas organizações sociais.

À semelhança da classe politica, que fala do povo, enquanto eleitores, como um corpo homogéneo e esclarecido já que, enquanto ocupantes ou candidatos a cargos públicos, dele decorre, afinal, a sua legitimidade.

É, de alguma forma, uma nova versão do “bom povo português”, próprio do Estado Novo. Povo, que nem por ser visto de forma paternalista e enviesada (bem enviesada, convenhamos), deixava de ser entendido, de alguma forma, como foco emanante do suposto “direito” a governar. Dele e de Deus, já se vê.

PUB

Ora, aqueles a quem chamamos “povo”, constituem um conjunto de pessoas que, sejam quais forem as suas matizes e valores dominantes, está imbuída de pressupostos caracterológicos multivalentes: de bons a maus, de cruéis a piedosos, de solidários a indiferentes, de altruístas a interesseiros.

E que podem encarar (e muitas vezes encaram), os detentores de poder (mesmo que, por exemplo, “condenados por corrupção”), não necessariamente como criminosos, indivíduos indesejáveis ou, até, pessoas menos aconselháveis mas, pelo contrário, como exemplos a seguir, em ambicionadas e perseguidas carreiras politicas.

Como aliás revelam os episódios (de outra forma incompreensíveis) das consagrações eleitorais das fátimas felgueiras, ferreiras torres, valentins loureiros, isaltinos morais e afins; do nosso abastardado comportamento político.

Afinal, é o mesmo povo que afirma que, “quem parte e reparte e, não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”!

E o que não falta, por aí, são “artistas”.

PUB

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here