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Quinta-feira, Dezembro 2, 2021

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“A cabra e o ‘cabrão’”, por Aurélio Lopes

O presente texto, tem a ver com a singular reinterpretação de determinados epítetos adjetivados que, no vernáculo das sociedades latino mediterrâneas (nomeadamente na nossa), adquirem especificas estigmatizações em contornos de género, que envolvem até, poderemos dizer, uma singular inversão do conceito e valor, associados aos chifres e ao adultério.

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Chifres (“cornos”, na linguagem popular) que, em muitas sociedades, se relacionam simbolicamente com as noções de virilidade e potência sexual, de poder masculino e potencial másculo.

O que é natural, já que entre muitas espécies animais com que as sociedades tradicionais lidam, os “cornos” são, quase sempre, símbolo do macho, que os possui em exclusivo ou em predominância. Daí a utilização dos mesmos nos contextos bélicos e aguerridos mais diversificados.

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Afinal, até a figura arquétipa do Diabo no imaginário cultural das sociedades europeias, exibe chifres num contexto concomitante com os “sabats”, em que o mesmo, acredita-se, procede a ajuntamentos carnais com as mais diversas bruxas e feiticeiras.

E nem sequer o facto desta figura (de origem erudita e não popular, esclareça-se) configurar um sátiro, altera tal situação. Afinal, os sátiros são igualmente personagens mitológicas com o lascivo particularmente relacionados.

Então, porquê, os “cornos” (atributos dos machos) têm sido, de alguma forma, identificados com os maridos traídos, tal como o correspondente “cabrão” (entre nós, denominação popular do bode), se tornou sinónimo, ofensivo, de “enganado” e “impotente”?!

Vejamos. Se há animal que o imaginário popular considere particularmente irrequieto e incontrolável (comendo do que não deve, fugindo para onde não deve e metendo o nariz em tudo o que deve e não deve), é a cabra.

A associação da mesma à mulher (ou, se quisermos, à imagem misógina da mesma numa sociedade patriarcal como a nossa) que encontramos ancestralmente por todo o país, na imensidão de ditos e provérbios populares, torna-se, portanto, óbvia e ilustrativa.

São assim como estereótipos de um comportamento associal, que necessita de ser controlado. Sob pena de redundar, como redunda, num conjunto de ações indesejadas e vistas socialmente, no caso das mulheres, como imorais e indecentes.

E se a mulher (como a cabra) se comporta deste modo, o culpado segundo a concepção popular é naturalmente o marido que, como o “cabrão”, não consegue controlar o, visto como tal, caráter rebelde e pecaminoso da sua fêmea.

Se quisermos, num prosaico popular, se a mulher o traiu é porque o mesmo não a conseguiu, cabalmente, satisfazer. O que levou, então, a que alguém, à semelhança do cuco, viesse a conseguir pôr ovos em ninho alheio.

E se a identificação padrão do macho caprino são os cornos, os mesmos hão de, naturalmente, acompanhar o estigma social, tornando-os naquilo que são hoje: atributos (noutros contextos símbolos de potência e capacidade sexual), transformados, por reinterpretação popular, num estereótipo de estigmatização e impotência!

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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