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Quinta-feira, Julho 29, 2021

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“A Arquitetura e a sociedade. Movimentos da década de 60”, por Sónia Pedro

Muito se tem falado nos últimos tempos de arquitetura… E pese embora o apreço que tenho pela disciplina, pela beleza intrínseca aos edifícios e estruturas… aqui me confesso apaixonada pelas formas originais e extravagantes, mas também pela engenharia e materiais que possibilitam desafiar as leis da física em espetáculos de pura criatividade.  E todavia, a relação dialética entre a forma e a função não é desprovida de sentido.

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A década de 60 do passado século XX marcou a crise da arquitetura moderna, enredada entre os imperativos da arte burguesa e a condição de mero produto de mercado.

Numa dualidade discursiva que persiste nos dias de hoje, surgiram por esta altura as utopias urbanas supertecnológicas – assumindo-se como tentativas de redimensionar a morfologia do espaço territorial da cidade. De sublinhar as abordagens mais tecnólatras – são exemplos Archigram, Paul Rudolph, Yona Friedman, Kenzo Tange -, às mais românticas e pretensamente orgânicas, deduzidas da observação das estruturas naturais como em Buckminster Fuller, Superstudio, Noriaki Kurokowa e o grupo Metabolism. Ainda as contribuições da arte pop e da arte op.

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No decurso dos anos 60 foi, portanto, ganhando consistência a critica a um determinado modelo de arquitetura que sobrevalorizava a autoria artística do objeto arquitetónico.  A valorização da arquitetura como competência de diversas comunidades e formas de organização social e que apregoava a arquitetura sem o tradicional vedetismo da historiografia tradicional foi o mote da exposição do Museum of Modern Art, comissariada por Bernard Rudofsky: “Architecture Without Arquitects” (1964).

Em cima da mesa estava sobretudo a resolução dos problemas da crise habitacional. Motivados por questões socioeconómicas, as questões do alojamento tornaram-se um problema mundial, quer nas metrópoles consolidadas dos países ricos, como nas metrópoles emergentes dos países pobres.

De um lado, os países designados por desenvolvidos debatiam-se com as dificuldades de compatibilizar as politicas da habitação e planeamento com a especulação imobiliária. Por outro lado, os países subdesenvolvidos debatiam-se com a impossibilidade de levarem a cabo qualquer tipologia de planeamento que pudesse fazer frente aos fluxos populacionais que chegavam às suas cidades e que faziam proliferar extensas aglomerações de habitações precárias nas periferias.

E todavia, o problema do alojamento só se tornou real quando os meios de comunicação social fizeram aproximar esta realidade incómoda das metrópoles superpovoadas do terceiro mundo do olhar das boas consciências dos países ricos.

O objetivo da crónica desta semana é trazer-vos três exemplos que refletem as preocupações de arquitetos politica e socialmente empenhados, e foram beber da produção teórica de Henri Lebefvre e Manuel Castells. Pois, na maioria das vezes a arquitetura apenas responde à encomenda – por parte do Estado ou do capital – reproduzindo a desigualdade, a opressão e a geografia do poder.

No Egipto, o arquiteto Hassan Fathy, nascido em 1900, empenhou-se em demonstrar que os recursos tradicionais deveriam ser usados nas construções modernas e que as adaptações às novas condições de vida se conseguiria através do projeto. Em 1946, contactado pelo Departament of Antiguities para elaborar um projeto de realojamento de 7000 camponeses pobres em Nova Gourna (nas ruinas da antiga Tebas), teve oportunidade de colocar em prática as suas teorias. Uma parte significativa da obra incorporou o trabalho dos futuros habitantes, reduzindo assim os custos das operações, mas também possibilitando os vínculos imprescindíveis ao uso da casa pelos futuros moradores.

No Brasil, Carlos Nelson Ferreira dos Santos começou a trabalhar em 1966, nas operações de reabilitação de favelas. Especialmente em S. Brás de Pina, uma favela situada numa área pantanosa subjacente à costa ocidental da Baia de Guanabara – zona norte do Rio de Janeiro – em que o terreno agudizava as situações de insalubridade. Os processos de intervenção permitiram que as casas deixassem de ser estigmatizadas pela diferença e passassem a ser incluídas no cânone identificável da habitação pequeno-burguesa carioca. Carlos Nelson Ferreira dos Santos deixou, contudo, de ter solicitações para trabalhos dentro do âmbito disciplinares da arquitetura.

Em Portugal, as operações SAAL – Serviço Ambulatório de Apoio Local constituíram, entre 1974 e 1976, intensas experiências de democracia e intervenção participativas no domínio da habitação social. Surgiram pelas mãos do Secretário de Estado da Arquitectura e Urbanismo – Arq. E Urb. Nuno Portas, e são ainda hoje referências para os Estudos Urbanos, pela forma como envolveram arquitetos, engenheiros, juristas, geógrafos, sociólogos e, sobretudo, os próprios moradores de bairros degradados, num esforço comunitário para lutar por uma habitação condigna e pelo direito à cidade.

Para aprofundar sobre estes assuntos poderá pesquisar Bandeirinha, José António, 2007, “O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974”, Coimbra, Imprensa da Universidade

Presidente da Associação Médio Tejo Criativo, Sónia Maria de Matos Pedro é licenciada em Antropologia - Ramo Antropologia Social e Cultural pela Universidade de Coimbra - Faculdade de Ciências e Tecnologia e Mestre em Cidades e Culturas Urbanas pela Faculdade de Economia também da Universidade de Coimbra. Já trabalhou em diversos projetos empresariais. Segundo diz a própria, "ideias e projetos para o futuro é que não faltam".

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