“A angústia mantém-se, mas é normal”, por Hália Santos

Por estes dias, a televisão contou-me que Marco fez 40 anos. Um pouco mais novo do que eu, foi um amigo de infância que eu não voltei a ver. Algumas vezes falei dele à minha única filha. Marco era um nome que não se usava muito naquele tempo. Depois foi aparecendo, em resultado desse fenómeno altamente irritante de escolhas de nomes para filhos e filhas baseadas em ‘inspirações’ nas telenovelas brasileiras. Mas aquele Marco até era italiano.

PUB

Marco convocava-nos para a sua presença através de uma música altamente emocionante, como um encantador de mentes infantis, que destilavam eventuais tristezas escondidas naqueles momentos em que nos contava a sua vida. Marco não era um amigo real, mas entrou na vida dos miúdos de uma geração inteira de um forma intensa e contagiante. Sofríamos como ele, na sua angústia. Ríamo-nos com ele, com as brincadeiras do seu macaquinho. Marco era só um desenho animado.

Marco era só um desenho animado, mas representou para os miúdos portugueses das décadas de 70 e 80 o drama maior. Marco era um menino italiano que andava desesperado à procura da mãe, que tinha emigrado para a Argentina, por causa da crise que se vivia no seu país. O pai, que era médico, não conseguia cobrar as consultas e a vida piorou. E nós, os miúdos portugueses de então, vivíamos cada um dos episódios como se fosse uma desesperante verdade, sabendo bem que era apenas um desenho animado.

PUB

Naquele tempo, raramente as crianças sabiam das dificuldades reais. Sentiam na pele as privações, mas não entravam em conversas de adultos. Poucos veriam os noticiários sobre o “apertar do cinto” que se vivia. Muitas dessas crianças viviam com muito pouco mesmo, mas viviam as suas infâncias naquilo que lhes parecia ser uma normalidade. Por isso, a vida de Marco era um verdadeiro drama, que as fazia pensar que, afinal, até tinham uma vida boa. Embora, na verdade, muitos – até aqueles que se julgavam felizes – passassem por situações pelas quais nunca deveriam ter passado. E foram crescendo, uns melhor do que outros.

Contar a história de Marco aos miúdos de hoje terá um efeito completamente diferente. Já viram crianças abandonadas. Já viram crianças a ser maltratados por familiares e amigos. Já viram crianças a fugir da guerra. Já viram crianças a morrer na praia. Muitas das crianças das décadas de 70 e de 80 também viram – e não foi pela televisão – dramas reais de crianças, mas talvez ninguém lhes tenha dito claramente o que estava errado.

PUB

Quem chorou com a história do Marco e continua a chorar com as estórias de crianças reais fica sem saber o que será melhor: manter as crianças afastadas da dureza da vida enquanto se pode ou permitir que enfrentem a dura realidade acompanhando-as o melhor que se conseguir. Trata-se de combinar discursos e ações, destinadas a mentes e corações de gente miúda, sobre assuntos que mexem com as suas emoções e que certamente influenciam a construção da sua personalidade. Talvez o dilema tenha mesmo que ser persistente e não tenha resposta possível. Talvez cada caso seja um caso e talvez uma gestão do dia a dia seja a melhor solução.

A angústia das crianças que viram Marco à procura da mãe mantém-se. Só que agora são mães e pais e a preocupação – real – é em relação aos seus próprios filhos. Tudo normal, portanto.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here