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Quarta-feira, Junho 16, 2021

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“40 anos de um Camões sempre jovem”, por António Matias Coelho

Inaugurado em 1981, o Monumento a Camões, obra genial do escultor mestre Lagoa Henriques, faz 40 anos agora pelo 10 de Junho. Verdadeiro ícone da vila de Constância, foi recentemente reabilitado pela Associação da Casa-Memória e traz-nos a lembrança de um Camões ainda com ambos os olhos, fitando a corrente do Zêzere eternamente jovem.

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Um dos aspetos que suscita curiosidade e às vezes espanto a quem visita pela primeira vez o Monumento a Camões é o facto de estar representado com os dois olhos e a cara liberta da pala que em geral se associa à sua imagem. A explicação é simples: se o poeta viveu em Constância (então chamada Punhete), como a tradição diz que viveu, terá sido ainda em jovem, cerca de 1546-47, com vinte e poucos anos, antes de partir como soldado para o Norte de África onde, em combate, perderia a vista direita.

O Monumento a Camões foi o primeiro dos três bens patrimoniais associados à memória do nosso épico que a dedicação e a persistência da jornalista Manuela de Azevedo legaram a Constância. Os outros dois seriam o Jardim-Horto de Camões, inaugurado em 1990, e a Casa-Memória de Camões, cujo edifício ficou concluído em 2005.

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Nasceu primeiro na cabeça de Manuela de Azevedo e só depois saiu das mãos de Lagoa Henriques. Resultou de uma iniciativa da fundadora da Associação que tratou de reunir as condições necessárias – incluindo, naturalmente, as financeiras – para que a obra se pudesse concretizar, procurando apoios e promovendo uma subscrição pública entre a população de Constância.

No ateliê do escultor Lagoa Henriques. Fotografia: Associação da Casa-Memória de Camões em Constância

Foi a Associação da Casa-Memória de Camões em Constância que pagou as despesas da execução da escultura, tanto o trabalho do escultor como a fundição do bronze e o transporte dos materiais. É essa a razão porque, ainda hoje, 40 anos passados, apesar de o monumento se encontrar em espaço público, continua a ser a Associação a cuidar da sua conservação, como recentemente aconteceu.

Compõem o Monumento três tipos de peças: a estátua do poeta, em bronze; a estrutura que a enquadra, em betão; e um elemento que exibe uma cronologia e versos do poeta, em mármore. Para a sua realização, Manuela de Azevedo facultou a Lagoa Henriques um conjunto de documentos e de informações sobre a muito antiga tradição popular, passada em Constância de geração em geração, segundo a qual o épico teria vivido, durante algum tempo, sendo ainda jovem, numa casa à beira do Tejo, então já em ruínas, que em tempos tinha tido, no piso superior, uma linda arcaria e que por isso a gente da vila a conhecia por Casa dos Arcos.

Foi por esse motivo que o mestre desenhou a estrutura em betão evocando uns arcos. Em verdade, se Camões, como diz o povo, de facto esteve em Constância, não terá nunca visto esses arcos naquela casa porque, como está sobejamente provado, eles só lhe foram colocados no século XIX, quase trezentos anos mais tarde. Mas, afinal, é a memória dos tardios arcos da casa, enquadrando a figura do poeta, que o Monumento nos transmite.

A inauguração, em 1981, teve honras de chefe de Estado: o Presidente da República, general Ramalho Eanes, certamente ocupado noutro lugar com as cerimónias oficiais do Dia de Portugal, não poderia vir a Constância no próprio dia 10 de Junho. Mas veio antes, a 6, sendo essa a data que consta da placa que assinala o descerramento do Monumento.

O Presidente Eanes discursando na inauguração. Fotografia: Associação da Casa-Memória de Camões em Constância

Entretanto passaram 40 anos. Muitos milhares de pessoas visitaram a imagem do poeta – na verdade não há ninguém que venha de visita a Constância que não o faça, sentando-se a seu lado, fazendo-lhe um afago, tirando com ele uma fotografia para o levar consigo.

Quarenta anos, quase meio século, é muito tempo. E o passar do tempo produz os seus efeitos: no bronze deixa a patine que lhe confere maior beleza, mas no mármore faz acumular sujidade e no betão provoca desagregação de materiais. Por isso, no início deste ano, o Monumento, em especial na sua componente de betão, apresentava sérios sinais de degradação, já com o ferro das armaduras à vista e em natural processo de oxidação. Foi, por isso, necessário intervir, consolidando essa estrutura e dando-lhe acabamento de betão afagado, tratando, por outro lado, da conveniente e adequada limpeza da parte em mármore.

O Monumento a Camões após os trabalhos de reabilitação de 2021. Fotografia: António Matias Coelho

Aos 40 anos – se fosse pessoa, estaria na força da vida! – o Camões de Constância, a mais camoniana das terras de Portugal, aí está, virado para o futuro, para sempre ligado à Vila Poema e jovem, eternamente jovem!

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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