“33 – 27 – 45, fixe estes números”, por Helena Pinto

Foto: DR

A internet está repleta de informações sobre manifestações, protestos, actos simbólicos, envolvendo milhares e milhares de mulheres que por todo o Mundo saíram à rua contra a violência machista. O 25 de Novembro – Dia Internacional Pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, criado há 20 anos pela Assembleia Geral da ONU, tem vindo a afirmar-se como um dia de consciencialização sobre a violência contra as mulheres, um dia de avaliação das políticas públicas de protecção às vítimas e das medidas punitivas dos agressores. Um dia em que também se apresentam números, os números do femicídio.

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Em Portugal o crime que mais mata é a violência contra as mulheres em contextos de intimidade. São os maridos, companheiros, namorados, ex-maridos, ex-companheiros e ex-namorados que matam, violentamente, depois de muita perseguição, assédio, pancada.

Temos de facto um grave problema de segurança e esse problema está dentro de casa. Muito se tem dito e escrito sobre as dificuldades de combate a este crime, sobre as suas características muito próprias que envolvem sentimentos, relações e compromissos familiares, mas também relações de poder, em que uma parte quer mandar na outra.

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Se analisarmos cada caso verificamos, na sua maioria, como o exercício do poder sobre a mulher, a não-aceitação da sua vontade própria esteve na origem das violências. O ex-marido que não aceita o divórcio, o ex-namorado que não aceita um “não”, um marido ou um namorado que não aceita uma forma mais assertiva de se exprimir, um modo de se vestir, as amizades que escolhe, etc., etc..

Muito se tem avançado neste combate que é, nem mais nem menos, um combate de civilização. Hoje verificamos que os governantes vão à televisão falar sobre este assunto, saem à rua nas manifestações, as forças policiais fazem campanhas próprias, a lei está melhor, há mais serviços de apoio.

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Mais lentamente as autarquias vão assumindo o seu papel. Lamenta-se esta demora em assumir este combate pois têm um papel insubstituível no apoio directo com soluções partilhadas entre municípios e não menos importante um papel de proximidade na mudança de atitudes e na condenação social dos agressores.

Nunca é demais referir que foi a persistência das feministas anos e anos a fio que conseguiu que a violência contra as mulheres fizesse parte da agenda política. Sem essa coragem de ir contra a corrente, sem a resiliência para ultrapassar os “rótulos” e os preconceitos, não teríamos chegado onde chegámos. “Mexeu com uma, mexeu com todas” é o seu lema.

33 Pessoas foram mortas em contexto de relações de intimidade (25 mulheres e 7 homens). Sobre os homens há que dizer que 3 foram mortos por homens em contexto de relações homossexuais, 2 eram actuais companheiros de mulheres que também foram vítimas sendo o agressor o ex-marido, 1 foi morto pelo próprio filho que alegou não suportar mais a violência exercida sobre ele e a mãe e 2 foram mortos pelas mulheres, ambas alegaram situações de violência.

27 É o número dos crimes considerados tentativas de homicídio, ou seja não resultaram em mortes por mero acaso porque a intenção era matar e o meio utilizado proporcionava esse desfecho.

45 É número de órfãos destas situações.

33 – 27 – 45 é preciso não ignorar estes números, eles convocam a nossa responsabilidade colectiva. Temos que fazer mais, muito mais.

 

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