Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Segunda-feira, Junho 14, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“1921 – 2021. O centenário da Misericórdia da Barquinha, II parte”, por Fernando Freire

O vocábulo “Misericórdia” vem do Latim, de miserere (ter compaixão), e cordis (coração). “Ter compaixão do coração”. Esta expressão revela o abeirar dos nossos sentimentos aos sentimentos dos outros, ou sermos solidários com o próximo. (continuação)

- Publicidade -

- Publicidade -

A Santa Casa da Misericórdia da Barquinha é uma associação de féis, com personalidade jurídica canónica, cujo fim é a prática das catorze obras de Misericórdia: 1ª – Dar de comer a quem tem fome; 2ª – Dar de beber a quem tem sede; 3ª – Vestir os nus; 4ª – Dar pousada aos peregrinos; 5ª – Assistir aos enfermos; 6ª – Visitar os presos; 7ª – Enterrar os mortos; 8ª – Dar bons conselhos; 9ª – Ensinar os ignorantes; 10ª – Corrigir os que erram; 11ª – Consolar os tristes; 12ª – Perdoar as injúrias; 13ª – Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;14ª – Rogar a Deus por vivos e defuntos. Estas têm como fim o serviço e apoio, com solidariedade, a todos os que precisam bem como a realização de atos de culto católico, de harmonia com o espírito tradicional, informado pelos princípios do humanismo e da doutrina e moral cristãs, conforme consta do seu compromisso de 17 de julho de 2015.

No ano de 1895 foi instituída uma associação que tinha como objeto social a filantropia então com a designação de Grémio Barquinhense. Na designação popular era o Clube Barquinhense ou o Clube dos Ricos. A sua vida ou atividade, apesar de alguns percalços, manter-se-ia até 1937. Era ao seu tempo tida uma associação elitista sendo frequentada por indivíduos com maior posição social no concelho. A admissão de sócios era feita por votação entre os seus pares daí a sua reconhecida seletividade pois a maioria dos sócios pertencia à elite local. O Grémio Barquinhense possuiria no seu seio um grupo musical privativo e o seu estandarte, em ótimo estado de conservação, ostentava inscrito um intervalo temporal de quarenta e dois anos de vida, isto é, entre 1895 e 1937. (1)

- Publicidade -

Em 21 de Julho de 1901 surge a Associação Hospitalar do Concelho de Vila Nova da Barquinha. Esta associação possuía, nos seus estatutos, como fins específicos os de “organizar e instalar um hospital na sede do Concelho”, alvitrando, uma vez atingido esse desiderato “organizar um regulamento de harmonia com as necessidades de funcionamento dessa instituição de beneficência e cessar a sua atividade”. Ou seja, o seu móbil faria sentido até à concretização objetiva da obra desejada, a instalação de uma unidade hospitalar concelhia.

Em 1903 a Associação Hospitalar da Barquinha tem de receita 750$000, Saldo 1:295$400, total de 2:045$400, aplica 2:037$200 réis à construção do hospital.” (2)  

Em 1908, por doação, a propriedade da Praça de Touros da Barquinha passa para a posse da Associação Hospitalar da Barquinha. (3) 

Em 27 de março de 1921 é inaugurado do Hospital Civil da Misericórdia da Barquinha, com o nome do Dr. Barral Filipe, com a presença da Filarmónica de Rio de Moinhos, e das diferentes entidades oficiais, conforme podemos visualizar no cartaz do arquivo municipal deste concelho.

Em 22 de agosto de 1921, com a construção do hospital civil, a Associação converte-se em Misericórdia de Vila Nova da Barquinha.

O alvará de aprovação do respetivo compromisso situa-se à data de 22 de agosto de 1921, reportando-se a sua atual designação Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova da Barquinha só mais tarde, em 25 de fevereiro de 1959.

Vejamos a redação do Alvará de 1921: “O Dr. César d’Almeida Fontes, bacharel formado em medicina pela universidade de Coimbra e Governador Civil substituto em exercício no Distrito de Santarém: Faço saber a quem este alvará virem que tendo sido apresentado para receber a necessária aprovação o compromisso da Misericórdia da Barquinha, e considerando que tal compromisso está elaborado nos termos previstos pelas várias disposições legais que regulam o assunto; considerando que o referido compromisso em nada contraria as leis da República; considerando que nestas condições merece o aludido compromisso a indispensável aprovação, pelo que: usando da faculdade que a Lei me confere, aprovo para todos os efeitos legais o compromisso da Misericórdia do Concelho da Barquinha. Passado e selado em Santarém e Governo Civil do Distrito em 22 de agosto de 1921. a) César de Almeida Fontes…(3) (4)  

O hospital da Barquinha teria o nome de um filho da terra, Dr. Carlos Barral Filipe. Nasceu nesta vila a 28 de setembro de 1859 e faleceu em Lisboa a 27 de outubro de 1910. Foi médico pela Escola Médico-cirúrgica de Lisboa. Terminou o curso de Medicina em 1885, publicando nesse mesmo ano a sua tese inaugural sobre a cólica hepática calculosa. Foi nomeado cirurgião interino do banco do Hospital de S. José em 15 de setembro de 1887, e definitivo em 27 de fevereiro de 1890. O Dr. Carlos Barral Filipe foi proprietário da Germânia – Fábrica de Cerveja, mais tarde Portugália. “Em Lisboa e arredores pede-se a imperial e o que talvez não saiba é que a culpa é dos alemães, mais propriamente da fábrica de cerveja Germânia. Criada há mais de um século, o seu proprietário era Carlos Barral Filipe, um médico-cirurgião que apostava nas propriedades deste elixir e cuja fábrica se estendeu por um quarteirão inteiro numa avenida da capital portuguesa.

Conhecida dos lisboetas pelas carroças de distribuição puxadas a mulas, a Imperial andava pelas ruas exibindo a imperial águia negra, a ave germânica, entenda-se. E se a bebida era boa para o estômago, o mesmo não acontecia com o desenho da ave de rapina desde que a guerra começara, o que obrigou os responsáveis da fábrica a tapá-la logo em 1914… Onde antigamente se observava a águia negra, passou a constar um modesto letreiro onde se lia Sociedade Portuguesa Germânia, a letras verdes e encarnadas! O problema ressurgiu quando a Alemanha declarou guerra a Portugal em 1916, quando mesmo o nome se tornou incomodativo. Uma notícia publicada na época explica as razões tamanha preocupação: “Uma comissão de revolucionários do grupo Defesa da República, de Arroios, porque lhe constasse que se preparavam manifestações hostis contra a fábrica da cerveja Germânia, foi ontem a esse estabelecimento e falou com um dos proprietários, o qual se apressou a explicar que o escudo que a fábrica ostenta não era alemão, como alemã não é a fábrica, pois que os seus proprietários são portugueses.” (…) Para evitar, porém, que houvesse qualquer mal-entendido, o Sr. Henriques Carvalho mandou imediatamente cobrir o escudo e declarou que não podia despedir o técnico alemão que ali tem, porque, não havendo quem saiba fabricar a cerveja, se tal fizesse, se veria forçado a encerrar a fábrica, ficando mais de 300 operários sem colocação. O gerente técnico, Richard Eisen pôde ficar em Portugal para continuar a nobre tarefa de fabricar a cerveja, e apesar das mudanças o nome “Imperial” manteve-se nas bocas do povo, mesmo que Germânia já não pudesse ser. E assim o nome Germânia desapareceu, mas não a cerveja que reapareceu nos escaparates rebatizada como Portugália, nome que mantém até hoje.” (5)

O Dr. Carlos Barral Filipe, natural da Barquinha e proprietário da fábrica de cerveja Germânica, será um dos iniciadores e benfeitores para a construção do hospital de Vila Nova da Barquinha.

Em 1923 é publicada em Diário da República, de 26 de maio, a Portaria n.º 3580, mencionando a aceitação da doação de Eugénia Raposo e Silva, que constava de bens móveis e imóveis à Misericórdia.  

Nesse mesmo ano de 1923 já a Ilustração Portuguesa faz alusão às famosas festas em favor do Hospital da Misericórdia, grande fonte de receita para esta associação benemérita.  

Em 1929, pela I série do Diário da República n.º 122, Decreto n.º 16923, era publicado o quadro do pessoal da Misericórdia da Barquinha e seu hospital, bem como os respetivos vencimentos anuais, o qual ficava constituído da maneira seguinte: 1 médico com 7.200$00; 1 enfermeiro com 4.320$00, 1 enfermeira, ajudante 2.880$00, 1 escrevente, gratuito. O pessoal deste quadro seria contratado, podendo os seus vencimentos ser pagos aos meses ou às semanas.

Em 1931, por Portaria n.º 7204, de 15 de outubro, são alterados os seus estatutos, em Diário da República n.º 242, I Série, pág.2278.

No mesmo ano é construído e inaugurado o primeiro edifício de apoio a idosos, designado como asilo da Misericórdia, destinada a pessoas carenciadas ou sem rendimentos.

Em 15 de novembro de 1938 o Dr. Luís Magalhães conta-nos que: “Ultimamente, com a comparticipação do Estado, construíram-se novas dependências, sala de espera, consultório médico, dispensa e rouparia, e foram reparadas algumas já existentes que disso careciam. A obra já realizada, que é vasta e complexa tem merecido as mais desvanecedoras apreciações de todos que dela têm conhecimento e ainda ultimamente, em público, o Ex. Senhor Dr. Carlos Mendes, denodado paladino das Misericórdias e seu ilustre representante à Câmara Corporativa, dizia que a Barquinha se poderia orgulhar da sua Assistência – a Misericórdia – e que felizes se sentiriam muitas terras mais importantes se dispusessem uma instituição semelhante. E o muito que está feito, mas não é o suficiente, nem de modo algum se julga ter atingido o ideal e alcançado todos os objetivos, Mais do que nunca se torna necessário acudir, não só o Estado, mas os particulares a estas Instituições visto que aumenta sem cessar o número dos indivíduos que a elas recorrem, mercê de várias circunstâncias entre as quais avultam o desemprego e insuficiência de salários … O nosso concelho conta com 615 irmãos, número diminuto para a quantitativo populacional … De 1 de janeiro de 1938 a 10 de novembro entraram 99 doentes, sendo 48 do Entroncamento … No ano de 1937 foram hospitalizados 147 doentes, sendo 45 do Entroncamento. Concederam-se 937 consultas  e fizeram-se, no banco, 5.155 curativos. Nasceram no hospital 5 crianças, fizeram-se 514 sessões de raios ultravioletas, forneceram-se centenas de medicamentos a vários doentes pobres…” (6)

O Dr. Luís Magalhães foi o médico residente durante longos anos do Hospital da Barquinha. Por relato no Diário de Notícias de 9 de junho de 1934 (pág. 3) ficamos a conhecer que houve grave acidente numa oficina pirotécnica na povoação da Moita do Norte, “… e ao ter conhecimento do acidente, o Sr. Luiz Francisco da Silva, oleiro, ofereceu-se para ir, em bicicleta, prevenir da ocorrência o médico e o pai do sinistrado, que viera para o hospital desta vila da Barquinha, com graves queimaduras no rosto e no tórax. Ao regressar, porém, chocou de bicicleta com uma motocicleta, conduzida pelo Sr. Manuel dos Santos, fator de 2.ª classe dos Caminhos de Ferro, em serviço na estação do Entroncamento, do que resultou três costelas partidas no ciclista, e o motociclista ficou com uma clavícula fraturada. Foram tratados, o primeiro, pelo Sr. Dr. Eustáquio, da Atalaia, e o segundo, no hospital da Barquinha, pelo Sr. Dr. Luiz de Magalhães, que prestou, também, os primeiros socorros ao António Costa, da pirotecnia.”

O clínico ainda prestava serviço no hospital da Barquinha em 1958, pois por relato do mesmo jornal de 5 de agosto de 1958 (pág. 3) “… o trabalhador Sr. José Gameiro, natural de Roda .., ao tentar subir para uma torre que serve de suporte aos fios elétricos de alta tensão, a fim de ver a corrida de touros na Praça da Barquinha, propriedade da Santa Casa da Misericórdia, sofreu um choque e caiu desamparadamente no solo, ficando com um braço e costelas fraturadas e lesões internas. Depois de receber socorros no hospital da Barquinha, prestados pelo Sr. Dr. Luís Magalhães, foi transportado, na ambulância dos bombeiros voluntários da Golegã, para o hospital da Misericórdia de Tomar.”

Em 1941 o Jornal o Moitense, na sua edição n.º 61, conta-nos que por Portaria de 25 de fevereiro, foi comparticipada, pelo Ministério das Obras Públicas e Comunicações, Comissariado do Desemprego, a verba de 11.900$00, para a construção de uma capela anexa ao hospital desta vila.

Em 1949 a Câmara Municipal expropria um terreno para a construção de um bairro de casas para famílias pobres, cuja construção será efetuada pela Santa Casa da Misericórdia, segundo projeto já aprovado e comparticipado pelo Estado devendo as obras iniciar-se no prazo de 30 dias a contra da data em que for entregue o terreno, e estar concluído treze meses depois, conforme Diário da República I serie, n.º 53, de 16 de março de 1949.

Era o Bairro S. João Deus, inaugurado em 1952 conforme a placa toponímica no seu jardim ainda testemunha.   

Em 1973, por Portaria n.º 483/73, de 13 de julho, Diário do Governo n.º 163, I série, é criado o Centro de Saúde de Vila Nova da Barquinha que funcionava no hospital.

Após o 25 de abril, o hospital encontrava-se numa fase de declínio, já sem grande parte dos seus serviços. Todavia, o hospital funcionou até 1977 dispondo de uma maternidade e de um bloco operatório onde se realizavam intervenções cirúrgicas, para além dos consultórios, enfermarias e uma sala de fisioterapia.

Em 1977 o Asilo passou a chamar-se Lar de Idosos.

Em 2001, em consequência da inauguração do novo Centro de Saúde, junto do atual Jardim de Infância, ex-escola EB1, deixaram de ser prestados serviços de saúde no antigo edifício do hospital da Barquinha.

Nesse mesmo ano de 2001 o edifício do Lar sofreu obras de remodelação e ampliação com a instalação de uma cozinha e um amplo refeitório no piso inferior, ficando o 1.º andar com 7 novos quartos. A obra contemplou a instalação de aquecimento central, tanto no novo como no antigo edifício, assim como um elevador. As obras custaram cerca de 65 mil contos e foram financiadas em 55% pelo Programa de Investimento e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC).

Em 2007, o antigo edifício do hospital encontrava-se devoluto pelo que foi reaproveitado para instalar a creche, surgindo a primeira resposta de apoio à infância com a designação “Berço do Tejo”.

Em 2008, surge a resposta social de apoio à infância, para crianças retiradas dos progenitores, designada por Centro de Acolhimento Temporário (CAT) para crianças e jovens em risco “Cat Pr´amar”, a funcionar na Praia do Ribatejo em edifício cedido pelo Município.

Em julho de 2014 há uma nova ampliação de instalações e aquisição de veículo para a Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova da Barquinha no âmbito SP3, SubPrograma3, Dinamização das Zonas Rurais, Programa de Desenvolvimento Rural.

Em 2021, por protocolo com a Associação de Paralisia Cerebral, com a cedência das instalações “Casas Moinho de Vento”, na Moita do Norte, funcionará um Lar Residencial e uma Residência Autónoma para deficientes.

Atualmente, com acordos de cooperação celebrados com a Segurança Social, nas diferentes respostas sociais, em estabelecimento residencial para idosos (37); centro de dia (10); centro acolhimento temporário (17); apoio domiciliário (30); e com cerca de meia centena de trabalhadores, toda a sua missão implica uma permanente atenção aos valores da formação e da vida mormente com o socorro aos reptos da pobreza, aos grupos sociais mais débeis, à doença, ou às limitações na idade mais avançada, às crianças em risco de exclusão ou vítimas de maus tratos físicos ou psicológicos. Estes são, outrossim, compromissos que veem desde o tempo da Misericórdia de Tancos, fundada em 30 de agosto de 1582, da Misericórdia da Atalaia, erigida em 15 de fevereiro de 1588, ambas por alvará de D. Filipe I, e da Misericórdia de Paio de Pele, cuja continuidade, princípios e valores, foram transmitidos à Misericórdia da Barquinha criada em 22 de agosto de 1921.

Num tempo em que imperam lógicas de rendimentos, ideias e regras de celeridade, generalização e gestão, em que tudo parece gravitar em torno do binómio custo-benefício; num tempo da desmedida desfaçatez, corrupção recorrente, falsidade, cobiça, predomínio da barbárie e indiferença; num tempo que se parece nortear no descrédito da pessoa humana; num tempo de relativismo que vai cursando nalgumas mentalidades é reconfortante saber que também há instituições que se guiam pela generosidade e pela humanidade.

Parabéns, pois, pelo 100.º aniversário aos seus irmãos, trabalhadores, dirigentes e a todos quantos, desde o tempo da sua criação, dignificaram e honram a Santa Casa de Vila Nova da Barquinha!

BIBLIOGRAFIA

(1) Gomes, Júlio de Sousa. Associação dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova da Barquinha :75 anos de história, 2000

(2) Diário do Governo, n.º 103, 11 de maio, pág.1550, ano de 1903

(3) Roldão, António Luís – Barquinha, Crónicas Históricas I e II, Vila Nova da Barquinha, Câmara Municipal, 2014 e 2020

(4) Compromisso da Misericórdia do concelho de Barquinha, Anais das bibliotecas e arquivos de Portugal, Volumes 3-4, Impress. Universidade, 1922

(5) https://ensina.rtp.pt/artigo/da-germania-a-portugalia/

(6) Jornal “O Moitense”, n.º 33, pág.2 e 3, de 15 de novembro de 1938

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

- Publicidade -
- Publicidade -

COMENTÁRIOS

Please enter your comment!
O seu nome