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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022
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“1171-2021 – 850 anos do castelo de Almourol”, por Fernando Freire

“ …Os templários não ergueram sobre a ilha de Almourol a sua sentinela do Tejo, por acaso. As lendas mais secretas, aquelas a que apenas um punhado de seres viventes têm acesso, falam de criptas e lugares escondidos nas profundezas da terra, debaixo dos seus alicerces de granito… Nunca ninguém os alcançou …” 1

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Torna-se impossível fixar a data da fundação do castelo de Almourol. A antiguidade do sítio poderá ter origem num castro lusitano, reconstruído durante o domínio romano, séc. I a.C., e logrará ter sido alterado por alanos, visigodos e almorávidas, designadamente ao nível das fundações com a utilização de restos de materiais daquela época.

Uma coisa temos como certa. A fortaleza foi reerguida por Gualdim Pais em 1171, pelo que no ano de 2021 celebramos 850 anos desse feito. As fontes epigráficas, lápides, ali presentes que permanecem embutidas no castelo, uma a coroar o pórtico principal na entrada, e a outra na porta da segunda cerca na alcáçova, permitem documentar a intervenção do Grão-Mestre dos Templários, ano de 1171, a quem se deve a sua reedificação. Na obra reutilizou materiais líticos de épocas anteriores, como são exemplo a parte inferior da torre de menagem, onde é visível o opus romano, e até uma lápide sepulcral romana entalhada na ombreira esquerda do lado de dentro da porta de entrada do castelo. A presença romana também é testemunhada pela descoberta de moedas romanas aquando das escavações de 1898 e 1899 orientadas pelo Coronel de Eng.ª Gomes Teixeira.

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Almourol é monumento nacional por decreto de 16 de junho de 1910 e foi adaptado, já no século XX, a residência oficial da República Portuguesa. Aqui tiveram lugar alguns importantes eventos do Estado Novo.

Tem a especial característica de estar plantado numa ilha no meio do Tejo. A nascente, as rochas da ilha afrontam o rio. É aqui que se ergue o castelo construído sobre granito. A poente da ilha surge a área arenosa, consequência do desgaste milenar incessante nas rochas e da sua deposição aluvionar.

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O panorama que hoje vislumbramos da torre de menagem do castelo de Almourol, do concelho de Vila Nova da Barquinha, para o Arripiado e Tancos, vendo ao longe a torre templária da Quinta da Cardiga, e a quietude da grande massa de água que o Tejo detém desde antanho, então designado Pego de Almourol, tendo por nascente a vista majestosa das margens na Praia do Ribatejo, concorreu para a grandeza temporal e intemporal do lugar numa suavidade incomum em Portugal.

A antiguidade e majestade das suas muralhas graníticas brotando de entre colossais blocos, a ilha toda coberta de verde vegetação, o rio serpeando em sua volta, o fim do vale encaixado e rochoso do Médio Tejo e o começo da planura aluvionar da lezíria do Ribatejo, tudo conflui para infundir uma impressão de grandeza condimentada ao mesmo tempo de enorme ternura e contemplação.

Almourol sendo baluarte na reconquista, com a Ordem do Templo, depois Ordem de Cristo, renovou a sua importância no começo do século XV, com o início da epopeia dos descobrimentos. As primeiras embarcações serão feitas no rio Zêzere, perto do lugar de Cafuz, com especial empenho de Frei Gonçalo Velho, Comendador da Cardiga e de Almourol.

Sendo um dos monumentos medievais mais emblemáticos e cenográficos da Reconquista é, também, um monumento fértil em património cultural intangível, pois muitas lendas correm em romances e livros de cavalaria, ligadas a esta fortaleza onde foram realizadas cortes de amor, como são exemplo: a crónica de Palmeirim de Inglaterra, de Francisco de Morais, que situa aqui o rapto das princesas Polinarda e Miraguarda, e o combate entre o Palmeirim e o Cavaleiro Triste; as lendas: “D. Beatriz e o Moiro”; “Dom Ramiro”; “Almorolon”; “Assalto ao Castelo”; “Almourol e da Cardiga”, esta última ligada à descoberta dos Açores, o que constitui um património imaterial inimitável.

Em 13 de outubro de 2021, o Município de Vila Nova da Barquinha, através do Centro de Interpretação Templário de Almourol, publicou um livro para a comemoração do 850.º aniversário da sua reconstrução.2

Do mesmo retiro alguns acontecimentos ligados a Almourol e pouco conhecidos do grande público.

Medalhão – achado nas escavações de 1898 e 1899

1385

27 de julho (Abrantes) – INCÊNDIO NO CASTELO

Há uma carta de D. João I acerca de um incêndio no castelo de Almourol. Fonte: [ANTT: Col. Esp., cx 32, doc. 31] Em 1899, esta evidência é corroborada pela prova do extrato do relatório do Alferes Luís Teixeira Beltrão: “Foi encontrada à profundidade de 3,17 uma camada de cinza espessa com fragmentos de madeira carbonizada…”

No mês seguinte acontecia a grande batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385, entre portugueses e castelhanos.

1415

23 de abril  – DESCOBRIMENTOS

Relatório do espião castelhano Ruy Dias de Vega ao rei D. Fernando I de Aragão, redigido em Lisboa, dá-lhe minuciosa notícia, entre outras coisas, dos preparativos da armada que então se organizava em Portugal, dos navios de que se compunha, tonelagem, tripulação e soldo, dos boatos que corriam a propósito do seu destino, nomeadamente contra o reino da Sicília, e a oferecer-se para obter a retirada imediata dos barcos de Espanha e para lançar fogo a todos os restantes fundeados no Tejo, se a seu monarca assim aprouver, o que considera feito de fama. Refere o Zêzere como o local do estaleiro onde os navios da Ordem de Cristo são construídos. Fonte: [ACA: Cartas reales, cx. 1, Fernando I, n. 3 (ed. in Monumenta Henricina, v. 2, Coimbra, 1960, p. 132-146)]

vide: https://www.mediotejo.net/fustas-e-galeotas-no-medio-tejo-por-fernando-freire/

O Mestre de Cristo, D. Lopo Dias de Sousa, participa na conquista de Ceuta. Acompanham-no o Infante D. Henrique, Diogo Lopes (cavaleiro, Comendador de Castro Marim), Diogo Lopes de Sousa (fidalgo, Comendador da Ordem de Cristo), Gonçalo Rodrigues de Sousa (Comendador de Nisa, Montalvão, Alpalhão, Idanha e Dornes), etc.

1416

DESCOBRIMENTOS – Frei Gonçalo Velho, Comendador da Cardiga.

Nova expedição às Canárias e além deste arquipélago, ordenada pelo Infante D. Henrique.

[BSB: Codex Hispanicus 27 (Diogo Gomes, De prima Jnventione Guinee)]

Frei Gonçalo Velho, baixo-relevo numa parede da Quinta da Cardiga

1460

28 de outubro  – DESCOBRIMENTOS

No seu 2º testamento, Infante D. Henrique faz doação para sempre ao Infante D. Fernando, seu filho adotivo, e respetivos descendentes, da Guiné, Ilhas Terceira e Graciosa, Pico, Faial, S. Jorge, Flores e Corvo, Porto Santo e Desertas e ainda da comenda de Santa Maria de África (Ceuta) e de Santa Maria da Misericórdia em Alcácer Ceguer, reservando o espiritual e a vintena para a OC. [ANTT: OC/CT 233, fl. 24 (1568); OC/CT 516, fl. 2; BN: FG 737, fl. 42]

Frei Gonçalo Velho é investido no cargo de primeiro Capitão das ilhas açorianas de Santa Maria e de São Miguel. Chama a esta “o gigante Almourol” e à primeira “a pequena Cardiga”. [ANTT: cod. 516; OC /CT, 233 e 235; BN: cod. 737]

1540

12 março – ESCAMBO

Depois de avaliado, o concelho de Paio de Pele (atual Praia do Ribatejo) é doado à comenda de Almourol, “com todas as suas rendas e foros”, em troca das courelas “místicas” (mistas) que Almourol detinha nas terras pertencentes à Cardiga. Tal escambo é duplamente vantajoso para a comenda de Almourol, pois este passa a deter a quase totalidade da extensão primitiva do território de Ozezar e aliena território que havia de ficar submerso, em consequência da mudança do leito do Tejo. [ANTT: Chancelaria de D. João III, liv. 50, fl. 149]

1755

1 de Novembro – TERRAMOTO

“Defronte do mesmo Convento (Loreto) para a parte do Sul; e no meio do Rio Tejo está

situado o Castelo de Almourol que antigamente foi grande fortaleza e habitação dos Comendadores de Almourol, porém já esta haverá 100 anos desabitado, e arruinado por muitas partes; e com o impulso do Terramoto lhe caiu da parte do sul um bocado de parede que teria duas braças; e além das ruinas antigas não se lhe conheço mais que esta.”3

1853

9 de junho – ALEXANDRE HERCULANO  

Visita Almourol no decurso da Missão Científica que realiza para a Real Academia das Ciências de Lisboa.

1898

30 de junho – POSSE DO CASTELO PELO EXÉRCITO

Despacho do Secretário dos Negócios das Obras Públicas, Comércio e Indústria cede ao Ministério da Guerra, o castelo de Almourol e ilha homónima.

Achados arqueológicos: vide: https://www.mediotejo.net/os-achados-descobertos-nas-escavacoes-arqueologicas-em-almourol-por-fernando-freire/  

1938

27 de junho – Receção ao Corpo Diplomático em Almourol

Promovida pelo MNE, na qual participa António de Oliveira Salazar. Fonte: [ANTT: Arquivo Salazar, PC-2D, cx. 587, pt. 4;  NE-1ª, cx. 397, pt. 7]

1955

O castelo de Almourol é adaptado a residência oficial da República Portuguesa.

  

1971

20 de junho – MIGUEL TORGA

“O que me vai valendo nesta penitenciária pátria é nunca perder de vista alguns recantos que nela são oásis de libertação e de esquecimento. Empoleirado no terraço desta fortaleza lírica que os Templários ergueram no meio do Tejo, debruçado sobre o abismo a deixar o rio deslizar brandamente na retina, quero lá saber se a política vai bem ou mal, se a literatura anda ou desanda, se a nau coletiva singra ou soçobra! Extasio-me, apenas. Ou melhor: numa espécie de petrificação emotiva, acabo por fazer corpo com as muralhas, e ser o próprio baluarte erguido na pequena ilha, inexpugnável a todas as agressões do real.” 

A obra sobre o 850.º aniversário de Almourol transportar-nos do passado para o futuro, referenciadas que estão as provas e as evidências e constitui um fator agregador na preservação da memória como marco de prestígio nacional e internacional da nossa cultura e do turismo.

Bibliografia

1 MIRANDA, Emílio. Os autos da Barquinha. Edições Mahatma, 2014.

2 GANDRA, Manuel J. – ALMOUROL 850.º aniversário da sua fundação, no contexto da história da Ordem do templo em Portugal. Câmara Municipal, 2021

3 PEREIRA, Júlio Manuel – A Região da Barquinha no Séc. VXIII – A visão dos Inquéritos Paroquiais, Vila Nova da Barquinha, Câmara Municipal, 1993

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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