Zêzerearts | A ópera mais difícil de sempre subiu ao palco do Teatro Ivone Silva (c/vídeos)

"As Bodas de Fígaro" de Mozart foram reinterpretadas com um figurino moderno e uma orquestra em palco Foto: mediotejo.net

O elenco de 11 cantores líricos foi reduzido a nove, a orquestra original de 30 a 40 elementos reduzida a apenas 10. Alguns cortes, os temas clássicos de sempre. A ópera “As Bodas de Fígaro” de Mozart é uma obra intemporal, indo ao encontro de temas que continuam a fazer parte das nossas histórias. Encerra na noite deste sábado, 4 de agosto, o Zêzerearts, depois de uma primeira exibição na sexta-feira, dia 3, com casa cheia no Teatro Ivone Silva, em Ferreira do Zêzere. 

Fígaro e Susanna vão casar, mas há impedimentos de variada ordem até à consumação da boda. As personagens e as confusões sucedem-se, num entra e sai de figuras que de alguma forma representam os vícios da sociedade, acompanhados pelo timbre italiano e os agudos ao máximo. Tudo acaba bem, mas não sem antes haver enganos e sofrimento à boa maneira dos clássicos, com direito a mães que querem casar com os filhos e condessas vestidas de criadas.

Bodas de Figaro. Zezerearts

Publicado por mediotejo.net em Sexta-feira, 3 de Agosto de 2018

Escrita ente 1785 e 1786, a obra “As Bodas de Fígaro” é considerada a obra-prima de Wolfgang Amadeus Mozart. O Zêzerearts conduziu o desafio de levar uma das óperas mais complicadas de sempre ao palco do Teatro Ivone Silva, reduzindo a orquestra aos mínimos, assim como o número de cantores. O resultado é um espetáculo que traz a essência desta ópera austríaca, preparada para grandes palcos e equipas e usufruto das elites, ao coração de Portugal, onde não é hábito chegarem tais produções.

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O casting foi ao encontro de cantores profissionais, tanto em Portugal como em Londres, com duas equipas diferentes a protagonizarem os espetáculos de sexta-feira e sábado. O encenador, o italiano Roberto Recchia, encarou o desafio como um regresso às origens, uma vez que “As Bodas de Fígaro” foi a primeira ópera que dirigiu, há muitos anos.

Mas o Teatro Ivone Silva não é uma Ópera, pelo que não foi fácil fazer a redução de um espetáculo já de si complicado às condições de um teatro tão pequeno. A orquestra, tradicionalmente instalada num fosso frente ao palco, fazendo o ritmo do espetáculo, atuou a partir do próprio palco, criando desafios de orientação para os cantores.

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Fígaro teme que o patrão usufrua do direito da primeira noite com a sua futura esposa, Susanna Foto: mediotejo.net

“Precisávamos de mais tempo, foi trabalhar a contra-relógio”, confessou Roberto Recchia ao mediotejo.net, referindo que os ensaios se reduziram a três semanas. Ainda assim as expetativas eram positivas. A peça está recheada de momentos alegres e trocadilhos que despertam o riso, tornando-se uma história divertida. “Espero que os cantores apreciem o espetáculo, se assim for o público também vai apreciar”.

Em representação da pequena orquestra, Jorge Alves, na viola de arco, não poderia estar mais animado. Não obstante a produção, estilo música de câmara, colocar mais ênfase no trabalho de cada músico de forma individual, o projeto foi um verdadeiro desafio para estes artistas.

“É extremamente aliciante porque representa um desafio. Temos que ser muito criativos, encontrar métodos alternativos de fazer o que se faz com uma orquestra clássica”, que pode atingir os 40 elementos e cria assim uma “massa sonora” que é difícil de recriar com apenas 10 elementos. “Torna a nossa prestação muito mais envolvente, quase nem dá para respirar”, confessa. “É difícil, mas não há nada que fique de fora”.

Entradas e saídas sucessivas, desentendimentos, confusões. Há sempre algo a acontecer no decorrer da peça Foto: mediotejo.net

A preparação começou de forma individual, tendo a orquestra reunido apenas alguns dias antes do espetáculo, treinando cerca de nove horas por dia. As músicas de resto são os grandes “hits” da música clássica, facilmente reconhecíveis pelo público menos conhecedor destas artes, conforme o constata a cantora lírica Iria Perestrelo, que vai interpretar Susanna este sábado. Logo na abertura, a música de entrada é um dos temas mais populares de Mozart.

Iria é natural de Santa Maria da Feira e vive em Londres, onde trabalha como cantora lírica, tendo sido convidada a participar em “As Bodas de Fígaro” do Zêzerearts. Nesta obra, confessa, o grande desafio foi manter a “stamina” necessária ao papel de Susanna. “Está sempre em palco e canta em quase todos os momentos”, refere. “Outro desafio é a gestão dos recitativos, que possuem uma arte muito especial”.

A equipa de atores é jovem e talentosa. “Estou muito confiante, foram três semanas de trabalho intenso. Evoluímos imenso”, confessou. A participação no Zêzerearts permitiu-lhe fazer um papel que dificilmente faria nos grandes palcos, participando sobretudo em coros de ópera.

Portugal tem grandes talentos, frisa, mas as oportunidades realmente não são muitas. “A vida de cantor lírico é como a do ator”, explica, trabalhando-se por espetáculo.

“As Bodas de Fígaro” marcam o fim do Zêzerearts 2018 Foto: mediotejo.net

Para o vereador da cultura de Ferreira do Zêzere, Hélio Antunes, o Zêzerearts tem permitido potenciar o concelho como destino cultural, com “espetáculos únicos que só se encontram nas grandes capitais europeias”.

“É uma mais valia”, salientou, uma vez que artistas e cantores de renome europeu ficam algumas semanas no concelho em residência artística e tendem a voltar, “sentem-se em casa”. “Acreditamos que cada vez mais o nome de Ferreira do Zêzere é divulgado além fronteiras”, trazendo um público culto e produções de qualidade.

Hélio Antunes, vereador da cultura no encerramento do Zezerearts com As Bodas de Figaro

Publicado por mediotejo.net em Sexta-feira, 3 de Agosto de 2018

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