VN da Barquinha | Vic James, o músico inglês que correu mundo e se fixou à beira Tejo

Vic James. Foto arquivo: mediotejo.net

Tendo nascido em Singapura, e após ter passado por quase 50 países, o músico e compositor Vic James acabou por se fixar em Vila Nova da Barquinha há vários anos, tendo granjeado respeito e admiração pela dedicação e qualidade musical. O mediotejo.net esteve em 2018 à conversa com o músico, para descortinar um pouco desta vasta vivência, com vários álbuns editados e repleta de inúmeras aventuras – sempre com a música como fiel companheira, mesmo quando tudo o resto faltava.

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O mediotejo.net recupera esta entrevista num momento particularmente difícil na vida de Vic James, uma vez que tem enfrentado problemas de saúde que o obrigaram a ser hospitalizado em março, na sequência de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). O processo de recuperação pode ser lento e a sua vida será tanto melhor quanto maiores forem os apoios dos seus amigos, que preparam uma série de iniciativas de recolha de fundos na região.

Vic James, filho de um oficial da Força Aérea Britânica e de mãe malaia, nasceu em Singapura no ainda então tempo das colónias. Devido à profissão desempenhada pelo pai, passou a sua infância a mudar-se constantemente – só durante os anos escolares passou por diversas escolas, em países como Alemanha, Chipre, Escócia, Inglaterra ou Malta.

Músico Vic James a atuar
Vic James a atuar.

Devido às constantes mudanças Vic não teve uma vida dita normal, considerando, no entanto, que teve uma educação bastante boa. Em retrospetiva, considera que aprendeu muito, com diversas culturas. “Foi o que me preparou para ser quem sou hoje. A educação fora do comum que recebi abriu-me bastante os horizontes”, revela o músico.

Os primeiros passos musicais

No meio de constantes mudanças, foi por volta dos 11 anos que Vic James se apercebeu que queria ser músico, ao ouvir pela primeira vez David Bowie.

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Bowie, aliás, é uma das suas grandes inspirações e influências, a par das bandas britânicas Deep Purple e T-Rex. Foram também destes três artistas os seus primeiros discos, respetivamente The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), Fireball (1971) e Tanx (1973), coisas “um pouco pesadas para a altura”, confidenciou o artista ao mediotejo.net e reiterado ao Palavras Soltas, em Vila Nova da Barquinha, à conversa com Carlos Vicente:

Foi, assim, que Vic decidiu que iria ser músico. “Foi neste ponto que eu comecei a escrever, mesmo antes de tocar um instrumento. Comecei a escrever letras de músicas da minha cabeça. Compunha, sem saber tocar”, adianta. Aliás, ainda hoje Vic gosta mais de compor do que tocar. Se bem que o que lhe dá verdadeiramente mais prazer é tocar algo que compôs, e com público.

Mas não foi fácil abraçar o seu percurso de artista musical, por mais que a vontade fosse enorme, pois o pai, verdadeiro militar à antiga, não apoiava a sua escolha de vida.

Vic teve de esperar até aos 17 anos, altura em que comprou uma guitarra com o dinheiro que conseguiu juntar. Pouco tempo depois, com 18 anos, saiu de casa, ganhando a vida a tocar guitarra. Aprendeu a tocar sozinho, como um verdadeiro autodidata.

vic james guitarra
Vic James e uma das suas guitarras. Foto: Luís Carmo

Nesta sua aprendizagem, um dos exercícios que começou por fazer primeiro foi tocar em frente à televisão. E fazia-o por duas razões: “primeiro como distração, como se fosse o público, e depois para tentar acompanhar as músicas que iam passando, para apurar o ouvido, e conseguir acompanhar com a guitarra as músicas que passavam, apenas através da audição”.

Começou então a sua volta e as suas atuações. Ia percorrendo diversos lugares, por períodos de cerca de dois a três meses, onde ia atuando, guardando dinheiro e depois viajava para outro sítio, onde fazia o mesmo. Sempre assim.

A certa altura, em Espanha, Vic dividia-se principalmente entre Andorra (na época da neve) e Ibiza, quando estava mais calor. Tocava em bares esplanadas, discotecas, eventos de snowboarding.

Portugal na mira

Numa dessas passagens por Andorra, Vic reparou que havia um casal que estava, imperativamente, em todas as suas atuações. Pensando até tratar-se de um casal espanhol, opção mais óbvia, certo dia Vic abordou-os. Foi então que descobriu que o referido casal era português, emigrantes com raízes na região da Golegã e Chamusca. Após alguns dias onde continuaram a travar conhecimento, o casal convidou Vic a visitar Portugal.

Vic James em Andorra.
Vic James em Andorra.

Assim, em 1994, Vic James pisa, pela primeira vez, solo português. Mas não vindo para ficar, também não vinha para trabalhar. Vinha com o propósito de passar férias, tendo, no entanto, agendadas três atuações, sendo a primeira num batizado.

Facto é que, após a primeira atuação no batizado, chovem convites para mais atuações. E como convites para atuações não são para se desperdiçarem, depressa Vic fica com uma agenda cheia de atuações e vazia de férias. Nos primeiros concertos ainda atuava com um amigo baixista (Barry).

Findos os 15 dias de férias, Vic voltou para Espanha, recomeçando a sua vida “habitual”, mas em nada monótona, alternado sazonalmente entre Andorra, Costa Brava, Ibiza e uns quantos países da Europa, além de Inglaterra, onde reside a sua mãe.

Foi só no decorrer do ano de 1997 que voltou a Portugal. Estando, na altura, em Ibiza, recebeu um papel onde encontrou escrito “liga para este número”. Curioso, ligou sem se quer saber se devia falar inglês ou espanhol: era de uma discoteca de Torres Novas a convidá-lo para uma atuação. Lisonjeado pelo convite Vic aceitou, mas apenas depois de fazer a temporada em Andorra, que era entre três a quatro meses.

Músico Vic James
Foto: Joel Madeira

E assim foi. Contudo, infortunadamente, o seu pai faleceu em 1998, deixando a sua mãe sozinha. Vic James foi então ter com a mãe, com quem seguiu depois para a Malásia, onde foram feitas as honras funerárias devido à profissão de militar do pai. Vic aproveitou para conhecer o hospital militar britânico onde nasceu, entretanto ao abandono.

Vic ainda voltou mais uma vez a Portugal. Precisava de um sítio calmo e barato, onde pudesse produzir a sua música, e uma casa na Barquinha deu-lhe essa possibilidade. Não tinha intenções de ficar e, três meses depois, retornou a Ibiza, que considerava ser a sua casa na altura.

Mas Vic James voltou, mais uma vez, para uma temporada de concertos, sem saber que, dessa vez, seria para ficar. Quando chegou, o músico deparou-se com um cenário completamente diferente. Não tinha nada marcado em agenda e não se afigurava no horizonte que novas marcações fossem ocorrer.

“Tinha deixado de ser novidade, e foi aí que Portugal, em especial esta zona, mostrou a sua verdadeira face. É tudo muito parado”, constata o artista inglês.

Sem marcações em agenda e com pouco dinheiro, Vic James não podia ir-se embora e, como tal, foi ficando. Os momentos deste percurso, os bons e os menos bons, foram sempre partilhados com a sua inseparável companheira, uma pequena cadelinha de nome ‘Rags’ (trapos), que, curiosamente, empresta o nome a um dos seus projetos, os Sunday Rags.

Rags, a inseparável companheira de Vic James, aqui no D’El Rey, em Tramagal, ano de 1997. Foto: DR

Vida em Portugal

Foi nessa altura que Vic pensou que tinha de recomeçar. “E foi o que fiz. Aliás, é o que ainda estou a fazer”, confessa o artista com um ar bem-disposto. “Cheguei a certo ponto que já mal tinha dinheiro para ficar, para viver, quanto mais para me ir embora.”

Vendo-se obrigado a ficar por terras lusitanas, embora nada o prenda cá – Vic não tem mulher nem filhos – o artista foi tendo parcas atuações, “Se bem que as minhas atuações não são animações de rua, são mais uma espécie de mini-concertos”, explicita.

Algo que nunca colocou de lado foi a composição. “Estou sempre a compor, todos os dias. Ideias não faltam, terminá-las é que é mais difícil. Até porque eu faço tudo. Eu faço a bateria, as teclas, as vozes, a letra, a capa, o baixo, tudo, são muitas horas”.

Ao contrário da maioria dos artistas, Vic James não decide que vai gravar um disco e começa a produzir músicas com essa finalidade. Pelo contrário, está constantemente a compor, a gravar músicas, até que depois se apercebe “que soa bem se juntar uma música com outra, e ainda outra, e é assim que nascem os meus álbuns”, explica o artista, que conta já com cinco álbuns gravados e um ep, disponíveis online.

Vic James Little Secrets and Other Stories
Primeiro álbum de Vic James, lançado originalmente em 2001 e relançado em 2003 remasterizado

A verdade é que Vic já passou mais tempo em Portugal que em qualquer outro sítio, o que lhe deu oportunidade para visitar Portugal de lés a lés, exceptuando a Serra da Estrela e o Algarve, região que considera ser onde se pode trabalhar como deve ser, ao contrário desta zona. “Enquanto aqui é impensável atuar cinco noites por semana, no Algarve, pelo menos no verão, consegues atuar até nas sete noites”, afirma.

Mas no geral, o inglês considera que “a vida de música profissional em Portugal é a vida do pobre. É uma vida muito ingrata, tem mesmo de ser feita com prazer, não podes pensar em dinheiro.”

“Música nunca é em demasia. Há é demasiado mau gosto”

Atualmente, Vic considera que o mundo da música está a girar muito mais rapidamente. “Antes um álbum, quando era lançado, durava para dois ou três anos”, afirma o artista, considerando que essa duração atualmente é muito mais efémera e que os músicos têm de estar, constantemente, a lançar novos álbuns, novas faixas.

howling at the moon musica vic james
Howling At The Moon, última música colocada online por Vic James, a 20 de julho de 2018.

Seja como for, na opinião de Vic, a indústria musical está, provavelmente, melhor agora do que há muitos anos, pelo menos em termos de estatísticas. Vic James é da opinião que com o surgimento de plataformas como o Spotiffy e as novas tendências, as editoras tiveram de deixar de viver no passado e começaram a focar-se no presente e no futuro.

Tal como explica, “o que aconteceu é que agora já não há tantos ‘dinossauros’ nas editoras, que foi o que atrasou um pouco a música no seu balanço para o novo século.”, considera Vic James, adiantando que “esses editores mais velhos fizeram muito dinheiro na época de ouro da música, nos anos 80 e assim, e como tal ficaram presos nessa altura, no passado, não conseguiram acompanhar”.

Ao contrário do que o músico considera ser a opinião geral, não acha que haja demasiada música, pois, tal como o mesmo enuncia, “música nunca é em demasia. Há é demasiado mau gosto”.

O artista prossegue com a sua tese, ao dizer que com a internet já não há desculpa. “Se não gostas de x, vais procurar e ouves y. Hoje em dia já ninguém é obrigado a ouvir o que não quer”.

*Entrevista publicada em setembro de 2018, republicada em julho de 2019

Ajudar o músico Vic James é o mote pelo qual é feita uma apresentação no próximo sábado, dia 20 de julho, a partir das 16h00, no Quiosque da Associação Factor J, no Entroncamento.

O músico Vic James, tal como já é de conhecimento público, tem enfrentado problemas de saúde que o obrigaram a ser hospitalizado em março. Atualmente ainda se encontra internado, não por imposição médica, mas por não ter garantido apoio domiciliário.

Um grupo de músicos e amigos resolveu então reunir-se para o ajudar com aquilo que é a sua atividade, a música. O objetivo será a realização de eventos que contribuam para apoiar financeiramente Vic James e a sua recuperação, além de servir como homenagem a este que é um dos músicos de referência do Ribatejo.

No sábado serão dadas mais informações sobre o que vai ser feito para ajudar o artista em recuperação, numa tarde que vai contar igualmente com momentos musicais. Para já, está marcado o evento Midnight Sun, para 28 de setembro.

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