VN Barquinha | Payo de Pelle e Punhete separadas pelo rio mas unidas pela história

Jornadas de história juntou investigadores. Foto: mediotejo.net

Payo de Pelle e Punhete eram os primitivos nomes de Praia do Ribatejo, no concelho de Vila Nova da Barquinha, e de Constância, respetivamente. Duas localidades separadas pelo rio Zêzere, ambas banhadas pelo rio Tejo e unidas por uma história secular comum.

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As primeiras Jornadas de História Local promovidas pela Junta de Freguesia de Praia do Ribatejo no dia 28 revelaram muito das origens destas povoações. No caso de Payo de Pelle, chegou a ser sede de comarca de um território que ia até Santa Cita e Asseiceira, já no concelho de Tomar.

Os 500 anos de atribuição do Foral de D. Manuel I a Payo de Pelle, assinalados este ano, são pretexto para se aprofundar o estudo e investigação das raízes do povoado, onde há vestígios da presença humana com milhares de anos.

Maria Antónia Coelho e Rita Inácio – conhecidas localmente por “Canal História” – foram as duas principais impulsionadoras da iniciativa que reuniu na tarde daquele sábado no salão da Junta um conjunto de investigadores da história local. Novidade anunciada logo na abertura foi que as Jornadas de História Local são um evento para manter com uma periodicidade anual.

“Só se ama aquilo que se conhece”, disse a professora Maria Antónia Coelho logo na abertura dos trabalhos para de seguida realçar a importância de que os alunos conheçam a história das suas terras.

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Falou da importância da “cooperação e parceria” neste tipo de iniciativas apontando como exemplo a participação do Diretor da Biblioteca de Constância, Nuno Ferreira.

O presidente da Câmara de Vila Nova da Barquinha, depois de elogiar o painel de oradores, lembrou a importância dos Templários na consolidação de Portugal como território independente. Fernando Freire anunciou para breve o início de escavações arqueológicas na zona onde existiu o castelo de Ozêzere, perto do cemitério, bem como a identificação de castros Templários em Limeiras e Cafuz. As escavações do cais de Tancos, onde terão sido construídas as primeiras galeotas da epopeia dos Descobrimentos, bem como a inauguração do espaço memória de Payo de Pelle foram outras referências do autarca.

O “Castelo do Zêzere”, antigo castelo templário à margem do rio Zêzere, afluente do rio Tejo, também referido como “Castelo de Pay de Pelle”, localizava-se na freguesia de Praia do Ribatejo, concelho de Vila Nova da Barquinha, e integrava à época a chamada “Linha do Tejo”. Atualmente, do antigo castelo medieval restam apenas alguns vestígios, uma vez que deu lugar ao cemitério de Praia do Ribatejo, vizinho à antiga Igreja Matriz.

Recriação histórica da ‘Exaltação das Ordens’ e a herança templária de Payo de Pele”. Foto: Arlindo Homem

O presidente da Junta, Benjamim Reis, enalteceu o trabalho desenvolvido por Maria Antónia Coelho e Rita Inácio, aproveitou para recordar o programa comemorativo dos 500 anos do Foral e agradeceu a presença dos moradores que revelam interesse na história da sua terra.

Rita Inácio e Nuno Ferreira falaram sobre “Payo de Pelle e Punhete em 1519 – um território separado e unido por um Rio”, mostrando algumas imagens antigas onde ainda é possível observar as ruínas do castelo de Ozêzere.

Segundo o censos da época, Tomar teria 737 habitantes, Torres Novas, 351, Tancos 118, Abrantes 775 e Santarém 1988. Estávamos numa das melhores épocas da história de Portugal, como referiu  o Diretor da Biblioteca de Constância, que destacou os Descobrimentos como fator impulsionador da economia.

O foral de 1519 foi o segundo atribuído a Payo de Pelle, porque o primeiro foi outorgado em 1174. Segundo o levantamento efetuado por Rita Inácio, no início do séc. XVI existiriam na zona 15 casais agrícolas e 24 prédios rústicos. Carregal, Caldeiro, Casal da Vaca ou Casal do Aleijado são alguns exemplos de topónimos que existiam na época e que desapareceram.

O documento assinado por D. Manuel I vem legislar o que cada casal tem de pagar à Ordem de Cristo, mas também define algumas benesses, como o fim das portagens pelo atravessamento do rio.

Na vizinha Punhete, atual Constância, estavam registados em 1527 um total de “311 vizinhos”, designação dada aos agregados familiares. Impressionante e representativo da importância da atividade piscatória é o número de embarcações: 120, isto numa altura em que os rios funcionavam também como autoestradas. Santarém registava 100 embarcações e Abrantes 180.

Os dois investigadores destacaram as relações entre margens que, apesar da separação do rio, revelam uma história em comum. “Só se pode entender este território como um todo”, defendeu Rita Inácio.

A ‘Exaltação das Ordens’ e a herança templária de Payo de Pele” em recriação histórica na atual Praia do Ribatejo . Foto: Arlindo Homem

Especialista em turismo militar e Diretor do Museu Militar de Lisboa, o Coronel Luís Albuquerque falou sobre “Templários e Fortificação“, uma lição de história e de táticas de guerra da Idade Média com destaque sobre a importância da Ordem do Templo na consolidação de Portugal.

“O Foral novo do concelho de Pay de Pelle da Ordem de Cristo (1519)” foi o tema desenvolvido por Carlos Guardado da Silva, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O investigador analisou o conteúdo do foral, do qual não existe qualquer original, apenas o registo, uma espécie de resumo, na Torre do Tombo. Com base em forais de outras localidades, e no tal registo, dissertou sobre a forma e o conteúdo deste documento onde se definiam os direitos e benesses locais numa lógica de reforço do poder do rei.

À época, Payo de Pelle, segundo Carlos Guardado da Silva, teria 22 “vizinhos”, a que corresponderia uma centena de habitantes. Estes teriam de pagar, da sua produção (onde se inclui azeite, cereais, galinhas, ovos, pescado), 10% para a Ordem de Cristo e outros 10% para o Rei.

A última intervenção foi uma viagem mais recuada no tempo. Sara Cura, do Museu de Arte Pré Histórica de Mação, na sua intervenção transportou-nos até à pré história antiga, ao tempo dos caçadores recolectores.

Projetou imagens de centenas de achados arqueológicos recolhidos na região, “muito rica em vestígios da ocupação humana”. Tal deve-se à confluência de dois rios: Zêzere e Tejo, uma localização estratégica para caçar e pescar, essencial à sobrevivência.

O programa das comemorações dos 500 anos do Foral começou simbolicamente a 9 de setembro, dia em que se comemorou o 92º aniversário da Freguesia de Praia do Ribatejo.

Seguiu-se a 12 de outubro a atividade “Exaltação das Ordens”, um cortejo histórico alusivo à Ordem dos Templários e à Ordem de Cristo.

O espetáculo de teatro de rua “Visitação” está agendado para 16 de novembro. O programa termina com a Feira Renascentista de Payo de Pelle, nos dias 21 e 22 de dezembro, momento alto das comemorações dos 500 anos do Foral.

Ainda para assinalar a data, a Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo vai reeditar o livro “Paio de Pelle: A vila e a região do século XII ao XVI”, da autoria de João José Alves Dias, professor da Universidade Nova.

A iniciativa decorreu no salão da Junta. Foto: mediotejo.net
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