VN Barquinha | Compreender o ‘Milagre de Tancos’ 100 anos depois

A partida de Portugal para a I Guerra Mundial e o concelho de Vila Nova da Barquinha não podem ser dissociados. Ali nasceram o CEP – Corpo Expedicionário Português e o primeiro soldado desta força militar a ser vitimado pelas tropas inimigas. António Gonçalves Curado foi um dos 20.000 homens treinados no Centro de Instrução de Tancos num prazo recorde que tornaria o episódio conhecido pelo “Milagre de Tancos” e cujo centenário foi assinalado num congresso comemorativo que deu a conhecer factos e perspetivas inéditos deste período histórico. 

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Os factos históricos deram lugar a uma análise do imaginário português associado à I Guerra Mundial, caracterizado pelo Coronel Carlos Matos Gomes. Apresentado pelo presidente da autarquia, Fernando Freire, como “um homem do 25 de abril e da Barquinha” o investigador de História militar e romancista referiu os discursos pacifista vs guerreiro que predominavam nesta época.

O Agrupamento de Escolas associou-se à Câmara Municipal e ao núcleo Entroncamento/Vila Nova da Barquinha da Liga dos Combatentes para assinalar o centenário do “Milagre de Tancos” com um congresso comemorativo. O tema inspirou as apresentações realizadas na manhã daquele sábado de 2016, dia do 98º aniversário da batalha de La Lys, assim como a exposição iconográfica inaugurada à tarde e a visita ao polígono de Tancos que se seguiu.

A guerra entre Portugal e a Alemanha tornou-se oficial a 9 de março de 1916 com a entrega da Nota de Declaração de Guerra por Friederich Von Rosen a Augusto Soares, o então ministro português dos Negócios Estrangeiros. Estava lançada a primeira pedra para a formação do CEP – Corpo Expedicionário Português e traçado o destino do barquinhense António Gonçalves Curado, o primeiro português a perder a vida em La Lys.

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Homenagem a António Gonçalves Curado (Galeria de Santo António)

Um mês depois, os terrenos de Tancos adquiridos em 1866 por cerca de 14 reis para a criação de um Campo de Instrução e Manobra do exército nuns prodigiosos 40 dias voltariam a ser palco de novo milagre, desta vez associado ao curto prazo de preparação da primeira força portuguesa enviada para o conflito contra os alemães. O Milagre de Tancos, como ficou conhecido, deu-se na cidade improvisada de Paulona, onde 20.000 soldados receberam instrução durante três meses sob orientação do General Norton de Matos, secundado pelo General Tamagnini, até partirem para as trincheiras da Flandres.

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A compreensão deste episódio implica uma contextualização socioeconomica do ano de 1916, que ficou a cargo da primeira palestrante da manhã, Lia Ribeiro, mestre em História das Ideologias e Utopias Contemporâneas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

A docente da Escola D. Maria II traçou um cenário de baixa natalidade e elevada mortandade numa população maioritariamente rural e iletrada composta por cerca de seis milhões de habitantes.

A fome justificava a criação da Sopa dos Pobres pela Santa casa da Misericórdia e o descontentamento social proliferava quando, a 15 de março, foi criado o Governo da União Sagrada proposto por Bernardino Machado e chefiado por António José de Almeida.

Fotografia da exposição alusiva à I Guerra Mundial

Os factos históricos deram lugar a uma análise do imaginário português associado à I Guerra Mundial, caraterizado pelo Coronel Carlos Matos Gomes.

Apresentado pelo presidente da autarquia, Fernando Freire, como “um homem do 25 de abril e da Barquinha” o investigador de História militar e romancista referiu os discursos pacifista vs guerreiro que predominavam nesta época.

A tendência mitológica de se criarem “heróis limpos e luminosos” contrasta com o imaginário assente nos sentimentos de revolta e fatalidade associados à participação portuguesa no conflito, alimentando o mito do sebastianismo.

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Luís Alves de Fraga

As perspetivas dos primeiros oradores foram complementadas pelo Coronel Luís Alves de Fraga, doutorado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa, autor de inúmeras obras e membro do Conselho Científico da Comissão Portuguesa de História Militar. Na sua presentação foi salientado o papel de Roberto Baptista na vertente diplomática da participação portuguesa no primeiro conflito mundial. Este Chefe de Estado Maior da Divisão de Instrução e chefe dos gabinetes dos ministros Pereira Bastos e Norton de Matos “construiu” as infraestruturas da cidade de Paulona de raiz com todas as limitações inerentes de tempo e materiais e foi responsável pela adaptação estratégica do CEP à organização militar inglesa, cujo corpo de exército tinha permissão para emitir comunicados de imprensa e assim veicular a imagem pretendida através dos media.

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Jorge Costa Dias e Aniceto Afonso

À sociedade debilitada e dividida entre os que apoiavam e desaprovavam a entrada de Portugal no episódio bélico e a preparação das tropas para uma guerra de movimento que acabaria por se relevar “de sítio” (trincheiras), juntou-se a formação desadequada na área das comunicações apontada pelos últimos oradores, os Coronéis Aniceto Afonso e Jorge Costa Dias. O estudo que estão a desenvolver em conjunto contém uma cronologia das comunicações em campanha desde a Divisão de Instrução à Instalação do CEP, que chegou a ter 824 elementos no quadro de pessoal com uma instrução baseada em telefones, heliógrafos e bandeiras.

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Exposição iconográfica “Centenário da Primeira Guerra”

A preparação do CEP no Centro de Instrução de Tancos foi tudo menos pacífica e as apresentações da manhã levam a concluir que os soldados foram vítimas não só do campo de batalha, mas das decisões do poder político que apostou na diplomacia em detrimento do povo que passava fome. Despesa ou investimento nacional? Para Fernando Freire, presidente do município onde se situava parte significativa da cidade de “Paulona”, as tropas foram “preparadas com o que era possível fazer na altura”.

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Fausto Diabinho, Lia Ribeiro e Fernando Freire

O autarca de Vila Nova da Barquinha falou com o mediotejo.net depois de inaugurar a exposição iconográfica “Centenário da I Guerra” ao início da tarde na Galeria Santo António juntamente com a professora Lia Ribeiro e o presidente do núcleo Entroncamento/Vila Nova da Barquinha da Liga dos Combatentes, Fausto Diabinho. Fernando Freire assumiu ter existido uma “atitude desregulada de intervenção” justificada por uma “participação fundamental devido à posse das nossas províncias ultramarinas que estavam em jogo e também uma afirmação do próprio poder político no tecido internacional”.

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Luís Albuquerque

Este congresso comemorativo terminou o primeiro dia do programa com uma visita guiada ao local do “milagre” dirigida pelo Coronel Luís Albuquerque, Diretor do Museu Militar de Lisboa. A última atividade terá lugar no próximo dia 12, pelas 11h30, com as Comemorações do Dia do Combatente junto ao Monumento ao Combatente onde jazem os restos mortais do soldado António Gonçalves Curado.

*Republicada no âmbito de alguns trabalhos a que voltamos a dar destaque e que foram publicados no jornal mediotejo.net entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016

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