Vila de Rei | O Centro geriátrico ‘fora da caixa’ onde o amor aos animais é terapia informal (C/VIDEO e FOTOS)

Abriu portas a 10 de maio de 2017, e desde o primeiro momento que tem estado lotado com 60 pessoas idosas institucionalizadas. Ponto assente é aplicar estratégias inovadoras e que complementem o bem-estar físico e mental dos utentes, através das mais diversas iniciativas quer internamente, quer junto da comunidade em geral. Aqui surgem as chamadas “terapias informais”, uma delas sob a forma de amor aos animais e que se consolidou com a adoção de dois cães de raça indefinida numa associação da região. Mas muitos outros são bem-vindos, fazendo as delícias da casa.

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Chegamos junto do portão largo e logo damos conta da presença de amigos de quatro patas no pátio do Centro Geriátrico Nossa Senhora da Esperança, em Vila de Rei. Somos recebidos por Rita Almeida, a diretora do centro, que logo nos contou sobre o entusiasmo dos idosos em receber o nosso jornal para a reportagem.

Entramos num edifício amplo, com imensa luz e grandes janelas para o exterior, circundado de frondosas árvores num espaço florestal. Depois de muitas trocas de sorrisos e de nos começarmos a aperceber da imensa equipa que constitui esta instituição, hora de conhecer de perto as iniciativas, exigências e desafios. Nomeadamente o porquê da adoção dos dois cães.

“Desde o primeiro momento o principal objetivo foi o sentido de responsabilidade de conseguirmos definir e implementar estratégias que pudessem ir ao encontro do bem-estar das nossas pessoas idosas”, começou por explicar Rita Almeida, contextualizando a chegada dos dois fiéis amigos, após a adoção efetuada em maio de 2018, por iniciativa dos diretores-gerais da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei.

E logo os idosos ficaram “completamente extasiados e delirantes” e “foram eles que escolheram os nomes numa dinâmica muito gira… Foi uma empatia rápida, instantânea. Os cães chegaram de carro, vindos de um canil municipal da região, chovia muito, e trouxemos, faseadamente, cada um deles ao edifício”, lembrou.

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Porém, notou-se de imediato que iria ser uma adoção desafiante. “Via-se que [os cães] não tinham muita confiança no contacto com seres humanos e o contacto que tinham não devia ser o mais saudável, pois foi muito complicado e estamos em fase de progressão, no sentido de lhes incutir alguns hábitos, inclusive de higiene. Mas a interação e relação com as pessoas idosas tem crescido gradualmente, passo a passo”, contou.

Nunca entravam os dois de uma só vez no Centro, fazendo-o alternadamente. Cada um teve direito à sua casota no pátio, o seu comedouro, e por ali permaneciam, como fiéis guardiões e companheiros de jornada para pessoas cheias de compaixão e de coração maduro.

Na sala de estar, com recurso ao quadro onde são colocadas informações como o dia da semana, do mês, e outras, foram sendo colocadas em lista as propostas para batizar os novos inquilinos do Centro Geriátrico Nossa Senhora da Esperança.

Rita Almeida contou, lembrando o momento de entusiasmo para a escolha dos nomes, que chegou até a ser um momento de inclusão e respeito pela diferença. “Um dos cães é mais claro e outro mais escuro. E aqui no centro temos um utente preto, o que levou a que fosse unânime a vontade de que o cão fosse o ‘Black’ ou ‘Preto’, “para honrar esta pessoa que é querida por todos no centro e ele próprio foi o primeiro a dizer que queria que o cão fosse o ‘Preto’”.

Por outro lado, o nome de Delfim, o segundo cão, com pelagem mais clara e mais robusto, foi batizado à primeira vista após sugestão do nome por um utente. Entretanto desaparecido, deixa saudade a todos, e o vazio acaba por ser preenchido pelo parceiro de quatro patas que resta no centro, o Black.

(nota: Sabemos que entretanto todos estão empenhados em conquistar a confiança de outro cão que vagueia pela rua, em frente ao Centro. E, quem sabe, não seja afortunado em breve com esta nova família que lhe quer bem.)

E a verdade é que, na sala de convívio, os idosos confirmaram com naturalidade aquilo que nos haviam dito. A forma como chamam, quer através de gestos, quer vocalmente ou por assobios, e o modo como os animais se aninham nos colos ou se deitam junto aos cadeirões mostra um à-vontade e uma confiança em crescendo, que é paga por reciprocidade de mimos, carinhos e afagos. E até alguma brincadeira.

Foto: mediotejo.net

A reação dos idosos sobre a adoção e acolhimento não poderia ter sido melhor, até pelo facto de maior parte ter tido cães ou outros animais em casa.

Caso de Flora Borges, de 98 anos de idade, natural de Alcântara, Lisboa, que teve bichos com fartura. “Tive cães, canários, pintassilgos, um cágado,…”, revelou, lembrando com carinho uma cadela “de raça pequenina” que tinha lá em casa. E logo se socorreu das mãos, colocando-as em paralelo para nos dar indicação do quão pequena realmente era. E o seu rosto logo se iluminou de boas memórias. Os olhos encheram-se de emoção.

“Sempre gostei de animais. Tenho muitas saudades deles. Cheguei até a ter um pombinho, que apareceu no parapeito da janela… criei-o e ele ali andava às voltas e de uma janela para a outra”, contou-nos a meio da conversa.

Quando questionada sobre os maus tratos a animais, atirou de imediato a sua posição. “Não gosto que tratem mal os bichos, não gosto! Em Lisboa vi muitos a darem pontapés aos bichinhos, mas aqui tratamo-los bem”, afirmou, com seriedade. E logo chega Delfim, e respondendo à chamada de Flora, se deita aos seus pés, pronto a receber a sua quota-parte de afagos e festas na cabeça.

E, na verdade, muitos são os animais domésticos, desde patinhos a pintainhos e outros, que costumam visitar o centro, merecendo toda a atenção, carinho e cuidados dos idosos. Muitos são trazidos pelos próprios colaboradores, servindo de estímulos sensoriais e de memória.

Mais à frente, a mesa onde se pintava e desenhava, António André, 72 anos, natural de Cardigos, convidou-nos a sentar. Mostrou-se a favor da presença dos animais no centro, e logo puxou do telemóvel para mostrar fotografias dos seus prediletos: a criação de canários de sua casa.

E, à nossa frente, ali estava Filó. Não, não é outro cão, mas sim uma ave de cor viva a contrastar com a gaiola branca, suspensa num suporte elegante. Um canário em tom vermelho escarlate, trazido pela diretora Rita. A preocupação maior naquela tarde era reunir os materiais necessários para lhe fazer um ninho confortável.

Já o nome escolhido, explicou-nos António, foi inspirado na origem da palavra Filosofia. “Philos significa amigo, amizade… e sophia significa sabedoria. Filosofia é «amor à sabedoria»”, indicou, cheio de convicção, enquanto Hernâni assobiava ao desafio com Filó, que esvoaçava alegremente. Delfim já tinha recolhido mais mimos, percorrendo o corredor de cadeirões até à mesa onde nos sentámos. E logo veio, vigilante, juntar-se a nós.

Foto: mediotejo.net

Numa cadeira adaptada, Delfina está sentada, com uma manta sobre os joelhos. Sofreu múltiplos AVC e, muito combalida, tem dificuldade de locomoção e de expressão. Aproximamo-nos, com a animadora Lúcia, que trazia Black. Após várias tentativas falhadas de diálogo, Black é colocado no colo de Delfina e depressa se aninha nas suas mãos.

Delfina esquece de imediato a apatia e reage, ganhando forças suficientes para afagar o animal, ajeitando-o carinhosamente no colo, com uma serenidade gritante. E podemos jurar que surgiu um sorriso instantâneo no seu rosto.

Black continuou a visitar os idosos, e chegamos ao Sr. Brito. A meio de uma bonita troca de carinhos, lembra Lassie, uma cadelinha que teve em tempos. E foi encostando a sua cabeça à do companheiro de quatro patas, ao lembrar a sua Lassie, como se revivesse a mesma cumplicidade.

Entre as 60 pessoas instituídas, acompanhadas pelos vários colaboradores pertencentes à equipa, muitas vezes se notam momentos de isolamento e de solidão, situação que foi atenuada com a entrada e contacto com animais, e em especial com os cães. Algo que veio despoletar um nova forma de estar por parte desses idosos.

Os canídeos revelaram “uma enorme paciência e conseguem retirar das pessoas com mais dificuldades de interação e com quadros demenciais maiores, afetos e até palavras… o que é extraordinário”, afirmou Rita Almeida.

“Os nossos idosos preocupam-se com os cães. Se têm água, se têm comida… se está a chover ou se o portão abre e os cães vão à rua, têm de ser trazidos para dentro, ou então se os carros têm de diminuir a velocidade no parque pela presença dos animais no recinto. Há uma enorme preocupação e responsabilidade das pessoas idosas para com os animais”.

E, na verdade, pudemos verificar as várias questões que foram sendo colocadas à diretora, todas preocupações relacionadas com o conforto dos canídeos. As coleiras, será que não podem ser mais bonitas e leves? Ou será que não podemos antes optar por colocar-lhes um peitoral? E os banhos… estão em dia? E as pipetas para desparasitação externa? E… a lista continua, com novas questões, emoções e aventuras a cada dia que passa.

Porque não só emocionalmente a presença destas mascotes se faz notar. Nos dias mais solarengos são companhia dos idosos em caminhadas, ajudando indiretamente a proporcionar melhores níveis de saúde. Sendo muitas vezes motivação para saírem do cadeirão, na sala, e irem esticar as pernas lá fora… sem esquecer de levar uma guloseima (ou duas) no bolso.

Foto: mediotejo.net

“Temos pessoas idosas que todos os dias guardam um pedaço de pão ou fiambre do pequeno-almoço, outros que às escondidas vão à máquina buscar bolachas ‘Tuc tuc’ como eles dizem, porque são salgadas, e eu estou sempre a dizer que os cães podem ficar com diabetes se lhes derem bolachas com açúcar e não podemos dar”, contou-nos a diretora do Centro geriátrico.

Hernâni é um dos que se acusa, e nessa tarde em que os acompanhámos, pudemos ver a rapidez e habilidade com que inseriu as moedas na máquina e sacou do pacote de bolachas para mimar os quatro patas, que se colocam em posição à espera das recompensas habituais. O certo é que, instintivamente, já respondem aos comandos dos seus novos donos aguardando, serenos, pelo reforço positivo.

Não sendo oficialmente cães de terapia, pois não foram instruídos e treinados para tal, são ainda assim agentes num processo terapêutico “informal”.

“Nada está programado, até porque os cães não cresceram cá, este processo de aprendizagem é mútuo”, explicou Rita, reconhecendo ainda assim que é motivo de orgulho este processo, que é mais uma iniciativa que marca a diferença como tantas outras que constam do plano de atividades da instituição.

O objetivo passa por trazer “uma lufada de ar fresco e um complemento ao bem-estar” dos utentes, seguindo a linha ‘fora da caixa’ que conduz a organização e orientação das atividades e iniciativas propostas que envolvem não só os idosos instituídos, como as crianças das creches, outras instituições e as famílias.

Viver em comunidade: atividades com todos e para todos

“Nós fazemos um esforço redobrado e acrescido na tentativa das nossas pessoas idosas participarem com regularidade naquilo que é feito na comunidade em geral, por exemplo, temos idosos a participar três vezes por semana na Universidade Sénior de Vila de Rei, pessoas que duas vezes por semana vão ao Coro, com regularidade levamos pessoas à vila para passarem o dia, para tomarem o pequeno-almoço, lanchar ou almoçar fora, fazemos passeios aqui na zona… ainda assim não fazemos tantos quanto gostávamos, mas fazemos o que é possível”, explicou a responsável, dando conta que “cada vez mais as pessoas chegam a estes centros com mais dependência, não só física, mas também mental, e isso também exige supervisão e cuidados diferenciados”.

O calendário de eventos anuais do município já está na ponta da língua, e por isso, há sempre presença confirmada quer no Folclore no Centro, no Festival das Sopas e Petiscos, no Desfile de Carnaval, na Feira de Enchidos, Queijo e Mel, e outros certames que permitem a envolvência com a comunidade local.

Sendo uma das ERPI (Estrutura Residencial para Idosos) da Santa Casa da Misericórdia de Vila de Rei, o Centro Geriátrico N. S. da Esperança é incluído em planos de ação com atividades anuais conjuntas, que fazem com que haja intercâmbio nas várias valências, fomentando o convívio além da instituição onde estão inseridos.

Rodeado de área florestal, rico em tranquilidade e numa envolvência pacata, o Centro Geriátrico recebe muitas pessoas da área metropolitana de Lisboa (havendo um protocolo com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), mas também dos concelhos limítrofes como Abrantes, Sardoal, Mação, Ferreira do Zêzere…

Numa visita à aldeia de Água Formosa para participação numa atividade da associação “Fazedores da Mudança”. Foto: CGNSE

“Temos algumas pessoas que são naturais de Vila de Rei, e que estiveram muito tempo a residir na região da Grande Lisboa e agora quiseram regressar. As nossas pessoas idosas distinguem-se das outras pessoas idosas das ERPI de Vila de Rei porque na sua maioria têm maiores níveis de qualificação e que continuam a querer aprender mais e mais”, caso de alguns utentes que aprendem a tocar um instrumento musical, que ingressam em aulas de informática, entre outros.

“A abertura deles ao que é novo é muito grande” e como tal há que dar largas à criatividade e imaginação para corresponder às expetativas exigentes dos idosos.

Na sala de convívio, os livros forram paredes, numa biblioteca ampla e diversificada e, diz-nos Rita Almeida, que chega a ter utilizadores até às duas ou três da manhã. O que é possível pela flexibilidade que se assume entre os colaboradores, que tentam dar margem para que os idosos tenham as suas rotinas próprias. Até o período de visitas é alargado, das 9h00 às 19h00.

“Isto é muito importante, porque as pessoas estão dependentes, por vezes não conseguem ir ao exterior, mas nós recebemos as suas famílias. Colocamos mesas para aquela família e deixamos que possam confraternizar e possam sentir-se acompanhados”, referiu, lembrando as inúmeras festas ao longo do ano, que contam com presença dos colaboradores, familiares dos idosos e que acaba por gerar convívio não só com pessoa idosa que acompanham, mas também com todos os outros institucionalizados.

Membros da equipa do Centro Geriátrico N. S. da Esperança com as novas mascotes. Foto: mediotejo.net

O Centro, como infraestrutura recente, ganha certos benefícios quer pela sua construção, quer pela localização e espaços disponíveis, o que acrescenta valor ao desenvolvimento de atividades ou atendimentos em diversas áreas, como a Animação sociocultural, Educação Física, Apoio religioso e espiritual dado na capela instalada no edifício e que recebe a celebração da Palavra ao domingo, Fisioterapia, Acolhimento temporário (disponível para pessoas que venham temporariamente recuperar de uma situação clínica ou num período de descanso do cuidador), gabinete de Medicina e Enfermagem, Psicologia, Terapia da fala.

Entre as rotinas do dia-a-dia, que contêm obrigações e responsabilidades, há sempre espaço para o amor, a reciprocidade, o carinho, o altruísmo e a amizade, quer entre os idosos, quer entre estes e a equipa de profissionais da casa.

Ali, tratam-se as maleitas, compensa-se a dor com boas energias e ataca-se a solidão com troca de sentimentos puros e sinceros. Vive-se em família e, no seu seio, se resolvem os enigmas do alto posto da velhice.

Afinal, dizem que o amor tudo cura e tudo vence. E no Centro Geriátrico Nossa Senhora da Esperança há amor para dar e vender.

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