Vila de Rei | Borda da Ribeira, a aldeia com esperança no verbo repovoar

Foto: mediotejo.net

A Associação Desportiva, Recreativa e Cultural de Borda da Ribeira, Louriceira e Marmoural, as três aldeias de um povoado que resiste entre o concelho de Vila de Rei e o concelho de Mação, foi oficialmente registada a 26 de dezembro de 1991. A caminho dos 30 anos, mantém na mira o objetivo de desenvolver o desporto e a cultura e criar uma ocupação mais saudável dos tempos livres da população. Mas nem só de festas se faz a associação. Preocupados com os efeitos nefastos da desertificação, os dirigentes lançaram-se num projeto sem fins lucrativos que pretende incentivar e apoiar, de forma voluntária, na fixação de população, facilitando o contacto entre proprietários e potenciais compradores. O único interesse consiste em conjugar o verbo repovoar.

Desde há longos anos que a principal atividade dinamizada é a Festa anual de Verão, no segundo fim de semana de julho, altura em que os filhos da terra regressam e convivem com familiares, amigos e até trazem novos visitantes à terra natal. A verdade é que as atividades têm servido como afirmação das povoações cada vez mais desertas e esvaziadas de gente, colocando estas aldeias no mapa.

Resistem por ali dez pessoas, a fazer escala para abrir a associação e explorar o café/bar da coletividade durante o ano. Serve os residentes fixos, que no escalão dos mais novos se contam pelos dedos das duas mãos. Contam-se dois jovens na Louriceira e quatro na Borda da Ribeira.

Na Borda da Ribeira contabilizam-se cerca de 50 residentes fixos, e no lado de lá, em Louriceira cerca de 20, sendo que muitos dos residentes já estão institucionalizados em centros de dia e lares.

Bruno Fernandes, presidente da direção da associação, lamenta a perda de mais de 15% da população nos últimos cinco anos, um tendência que se vem acentuando.

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O habitante mais velho, indicou-nos, anda na casa dos 85 anos, a média de idades é de 70. Dinis, filho de Bruno, tem cinco anos e é o mais novo em Borda da Ribeira.

Cá do alto de Louriceira, avistam-se bem as casas recuperadas e as que ali se encontram a definhar com o tempo. Todas elas são herança do berço das famílias que ali restam. Mas há quem tenha tido as condições e coragem necessárias para ir recuperando algumas, e há até três moradias de segunda habitação/férias.

Por outro lado, os familiares e amigos que era costume virem sempre à terra ao fim-de-semana, tiveram de repensar o modelo de visitas por causa dos custos, quer das portagens, quer dos gastos em combustível.

“Quem vinha todos os fins-de-semana ou de 15 em 15 dias, começou a reduzir as viagens. E notou-se mais a ausência de pessoas da terra. Ainda assim, a nível das festividades e atividades principais da associação, são as pessoas que estão em Lisboa ou outros locais que vêm ajudar e asseguram a continuidade. Caso contrário, não tínhamos capacidade”, assumiu Bruno.

Por todos estes indicadores que o tempo tem vindo a demonstrar, surge a ideia de Bruno Dias Fernandes.

“Daqui a 10 anos, tudo se torna mais complicado… Se não fizermos algo neste momento… O projeto serve para isto, para trazer mais gente para repovoar as aldeias e apoiar a população que resta, que é maioritariamente envelhecida. Assim também se trataria de envolver os novos residentes na massa associativa da aldeia, que não queremos que se perca”, indicou.

Foto: mediotejo.net

É sentado no banco da capela, nas missas de domingo, que Bruno começa a refletir sobre estas preocupações. Começam a sobrar lugares onde, semana após semana, se reencontravam com a rotina. Já ali não estão os avós, os tios, e os primos migraram para outros pontos do país, nomeadamente para a capital, terra de todas as oportunidades. Aquelas que a terra não conseguiu dar.

“Recordo-me quando os bancos estavam cheios, e agora estão meio vazios. E as pessoas que ainda lá vão são idosas, com mais de 70 anos. E aí comecei a pensar… Tive a noção da realidade, do que se estava a passar. E perguntei-me, daqui a dez anos, como será?”, lembrou, como se naquele momento tivesse ‘caído a ficha’ e despertado para uma dura realidade que já não se estranha, entranha-se. Logo recordou também os funerais que aconteceram no último semestre de 2019 e que são situações que vêm abalar ainda mais população.

Por outro lado, à medida que as pessoas mais velhas vão enviuvando, para que não estejam sós, abandonam a terra e vão viver com os filhos ou acabam institucionalizados. E não há censura possível, é a lei da vida. Mas que custa caro a terras como esta.

“E assim começam as casas a ficar desabitadas, começam as hortas a ficar ao abandono e sem serem cultivadas, tudo isso se faz notar bem. E também se torna um problema, quanto à falta de limpeza e manutenção dos terrenos, sendo um território rural e florestal, que é uma ameaça em períodos críticos na altura dos fogos florestais”, enumerou.

Foi então que Bruno desenhou um projeto na sua cabeça, e começou a passá-lo para o papel e a transmiti-lo às pessoas, nomeadamente aos camaradas da coletividade e aos autarcas dos concelhos envolvidos, Vila de Rei e Mação.

Daí até começar a ser preparado um panfleto para divulgação, foi um processo rápido. E os frutos começaram a aparecer.

Contactos começaram a surgir, após o lançamento da edição de 2019 na Feira de Enchidos, Queijo e Mel de Vila de Rei, no expositor da associação. O panfleto tem uma versão traduzida em inglês, para aumentar o alcance. O pulo deu-se para as redes sociais, e este projeto associativo inicia uma jornada que não se quer rápida, mas sim eficaz.

O projeto assenta na proximidade, contacto e acompanhamento no terreno, estabelecendo aponte entre possíveis interessados e os proprietários das casas e terrenos, tornando o processo mais célere. Para já é feita a divulgação através de um panfleto pensado por Bruno Fernandes. Foto: mediotejo.net

O projeto começou a despertar interesse junto de estrangeiros que escolheram o interior do país, e que por aqui começam a assentar, alguns por opção de vida, outros mesmo para gozarem das suas reformas noutro país e com outros costumes. Mas o público-alvo também passa pelas “pessoas residentes no país, que gostariam de adotar um estilo de vida mais calmo e de qualidade”, aos casais jovens que queiram iniciar a sua vida e os naturais da região que queiram regressar às origens. Algo que já acontece, à medida que se reformam ou cansam da vida metropolita.

A meio da conversa, Bruno fala de um investidor espanhol que “já comprou um prédio na Louriceira para transformar em habitações para venda a custos apetecíveis, de tipologia T1, T2 ou T3”.

“Também os ingleses são um público muito interessado neste projeto, apesar de ter pouco tempo. As pessoas têm acolhido bem a ideia. E é isso que queremos que aconteça: que as pessoas sintam confiança e saibam que a associação está cá para os acompanhar no terreno, contribuir para que o processo seja mais célere”, explicou.

A casa do avô de Bruno, no centro da aldeia de Borda da Ribeira, nas traseiras da capela, também já foi vendida para reconstrução. O próprio Bruno já ali construiu a sua habitação e ali reside e recorda que o processo não foi muito fácil.

“Estou casado há 15 anos, e quando fomos à procura de casa para comprar, ficámos com a noção de que as pessoas estavam a pedir muito dinheiro pelas casas e terrenos. E nessa altura outras pessoas também se mostraram interessadas em comprar casas. Aí, perdeu-se uma oportunidade de angariar novos habitantes e novas construções”, acredita Bruno, referindo que, dada a falta de interesse as casas foram ali ficando e os valores de venda nunca mais foram revistos e ajustados.

A ideia é “aos poucos e poucos, ser intermediário sem fins lucrativos entre possíveis compradores e vendedores, chegando a um preço justo”, mantendo o espírito do associativismo local. “O que se pretende é alcançar novos residentes, aumentar a população”, sublinha.

Mas muitas mais casas gritam pela sua reconstrução, casas que antes estavam cheias de gente, onde moravam os avós, os pais, os filhos, os sobrinhos… Hoje continuam de pé, mas a degradação é inquietante, bem como o silêncio aterrador somente interrompido pelo som da motosserra, de um trator ou do ladrar dos cães que ali são parceiros de guarda e companheiros de caminhada até às hortas.

O sol resguarda-se cedo, ali no vale cercado de floresta, bem no meio da natureza. As chaminés já fumegam, é hora de recolher.

A antiga escola primária que se mantém de pé e que se encontra no topo da Louriceira, com vista para Borda Ribeira. Ainda se propôs que pudesse ser adquirida pelo último aluno, mas tal não se concretizou. Foto: mediotejo.net

Lá mais acima, vigilante, está a antiga escola primária, que acolhia alunos de todas as aldeias circundantes, inclusive Cerro do Outeiro, que já pertence ao concelho de Mação. É dos poucos pontos a receber os últimos raios de sol do dia, lá no alto. Ainda surgiu a ideia de ser o último aluno a adquiri-la e reconstruí-la, para torná-la casa de primeira habitação. Ao que parece, os custos tornaram a hipótese inviável. Mas não há falta de opções para aquisição e reconstrução.

O projeto assenta também no trabalho que tem sido desenvolvido pela Câmara Municipal, que cede um conjunto de apoios à fixação de população, e que vem também ajudar a cimentar este acompanhamento a que a associação se predispõe fazer. Os apoios à família e educação, com gratuitidades de transportes, manuais escolares, jardim de infância e creche, entre outros apoios de estímulo ao casamento, à natalidade e fixação de residência, bem como os apoios à iniciativa empresarial e recuperações de casas degradadas, são algumas das benesses levantadas pelo “Repovoar”, consideradas mais-valias para atrair pessoas à região.

A nível de transportes, as acessibilidades permitem aceder rapidamente às estradas nacionais e autoestradas, neste caso três acessos em destaque, caso da EN244, EN2 e A23, em veículo particular, e além disso, existem outros mecanismos, nomeadamente de cariz intermunicipal com os projetos Transporte a Pedido e Link, que também já permitem a deslocação de táxi ou autocarro a custos mais reduzidos entre os concelhos vizinhos e entre as cidades da região, para as unidades hospitalares ou para o trabalho.

E além disso, existe todo um rol de interesses e património natural, histórico e cultural que importa notar, compondo a identidade destes sítios que se perdem no mapa. Estão além, mas são já ali. Depende do ponto de vista e da vontade em conhecê-los.

“No projeto realçamos os pontos de interesse turístico em redor, e estão representados ingredientes que estão pouco explorados e que podem também ser motivo para novas dinâmicas, para quem queira investir a nível de desporto náutico, turismo de natureza, alojamentos locais… E as praias fluviais, que são ex-libris no verão, e em 20 minutos conseguimos deslocar-nos daqui da aldeia até esses locais”, referiu Bruno, lembrando que para o projeto foram feitos trabalhos fotográficos e um amigo inglês está a ajudar na divulgação junto de comunidades nas redes sociais.

Mas as ideias para fazer mais e melhor pela terra, estão sempre a fervilhar. Não fosse um trio de aldeias rurais, circundado pelos concelhos de Vila de Rei, Mação e Sardoal, que se vestem sobretudo por floresta, e a quem os fogos pregam sustos com regularidade.

Por esse motivo, e cansados do sobressalto e do negrume que resta da paisagem sempre que os incêndios assaltam a quietude e tranquilidade do lugar, surgem novas ideias e intenções de aplicar projetos com base no que vai sendo posto em prática noutras aldeias do país, caso de um rebanho comunitário de cabras sapadoras, que possam contribuir para a manutenção de uma faixa de contenção à volta da aldeia, de forma circular. Isso, e abrir trilhos para que se comece a estimular a prática desportiva naquela zona, seja de desportos todo-o-terreno motorizados, BTT, caminhadas ou trail-running.

Ideias abundam, e vontade também. É aguardar oportunidade de pôr mãos à obra e esperar para ver o que aí vem. “Viver no interior está na moda”, dizem, e este é o tipo de premissa que é preciso (vi)ver para crer.

O papel da associação enquanto alma e “rampa de lançamento” da aldeia

Bruno, Vitorino e Carlos representam três fases do associativismo na aldeia. Proatividade e criatividade não faltam a cada evento. Foto: mediotejo.net

Tudo começou em Santa Clara (Alcaravela), no Sardoal, numa festa de verão. “Éramos todos solteiros, havia muita gente aqui naquela altura. Estávamos no final da festa, e às cinco da manhã o grupo lembra-se de ir comer um frango. Àquela hora andava um homem a dançar sozinho, e o Augusto pergunta «quando é que arranjamos uma coisa destas para a nossa terra?»”, contou ao mediotejo.net Vitorino Marques, um dos fundadores do grupo de festeiros da aldeia.

Acontece que a ideia foi bem acolhida pelo grupo, e na manhã seguinte, depois missa, lá se reuniram como combinado para começar a pensar e pôr mãos à obra. “Fomos pedir algumas coisas às pessoas, cada um deu dinheiro para se tratar de arranjar madeira para as estruturas, e a partir daqui começou-se a desenvolver”, disse Vitorino.

A festa começou, à época, de forma humilde, com madeira e rama de eucalipto; depois adquiriram-se terrenos onde estão agora o pavilhão e instalações. Repetiu-se até à década de 90, altura em que se registou oficialmente a Associação Desportiva, Recreativa e Cultural de Borda da Ribeira, Louriceira e Marmoural.

Do grupo de 15 fundadores, apenas se mantém Vitorino nos dias que correm. “Alguns saíram de cá. Eu também saí, mas venho cá”, disse.

Na década de 90, é Carlos Fernandes – pai de Bruno – que pega nos destinos da coletividade, contando com ajuda da esposa e de amigos da localidade.

“A minha esposa é o braço direito da associação. Se não fosse ela… ela é que cozinha, que organiza tudo nessa parte. É a chave”, afirmou. Também Teresa, esposa de Vitorino – natural dali e membro da associação – punha a mesa ali ao lado e confirmou de imediato esse facto.

Carlos contou que foi tirando do próprio bolso para ir ajudando no que podia, e eis que depois se conseguiu ir atingindo novos objetivos com uma sede mais composta e a inauguração do pavilhão em 2017. Apesar de gostar da sua aldeia e de falar com orgulho na associação que serve e que dirigiu, desabafou que a certa altura já se sentia “saturado”. Foi por isso que passou a pasta ao filho, Bruno Dias Fernandes, que conta com a esposa Sónia para ajudar na concretização das tarefas.

Agora é com entusiasmo que vê as ideias de Bruno a surgirem, como o projeto Repovoar e a ideia de atrair mais gente para se fixar na terra.

Empresário, cuja empresa que detém com o filho tem sede na aldeia de Marmoural onde residem cerca de seis pessoas de meia idade, mostra-se apesar de tudo confiante e esperançoso com os sinais do regresso de população. “Mesmo reformados, estão a regressar e mantêm a ligação às raízes. Alguns estão a reconstruir casas, outros já as têm”, sustentou.

Se na década de 90 os problemas eram de cariz monetário, e sentiram-se acudidos pelo Município de Mação, pela Junta de freguesia e Município de Vila de Rei, hoje o desafio é manter atividade e a qualidade com que habituaram os visitantes. Os tempos áureos chegaram a trazer o cantor Mário Gil à festa, e é este o nome mais sonante que se recorda entre os cartazes, que sempre contaram com “conjuntos jeitosos”.

Bruno segue as pisadas dos pais, e tem agora o destino da associação local nas mãos. Foto: mediotejo.net

Por outro lado, Carlos lembrou a particularidade de o povoado estar agregado a dois concelhos, Mação e Vila de Rei, um no distrito de Santarém, outro no distrito de Castelo Branco, sendo que Borda da Ribeira foi construída pelos descendentes de Louriceira.

A união das três aldeias surgiu como forma de ganhar escala, tendo fé que “quantos mais melhor”.

Hoje, a palavra de ordem é inovação, com novos eventos e temáticas a acompanhar “a moda” do associativismo local, mas onde se prima por distinguir com o bem-servir e bem-receber, com elementos típicos. Noites de fados, convívio sénior, torneios de jogos tradicionais, festa anual de verão, festejos religiosos em honra de Nossa Senhora das Dores, são alguns dos eventos que compõem o calendário da ADRC Borda da Ribeira, Louriceira e Marmoural (ADRCBRLM).

E se “manter a tradição e acolher bem as pessoas” é o mote para a dinâmica da ADRCBRLM, disso é prova o recente Festival do Almeirão, Azeite Novo e Pão Caseiro. Criado em 2019, foi um dos eventos “fora de série” que fica na história da Associação, pela afluência e pelo feedback dos participantes. Tanto que já passou a integrar o calendário de atividades, e repete-se a 26 de janeiro de 2020, com novidades no programa. No segundo festival espera-se que os cerca de quatrocentos participantes da primeira edição subam para o dobro.

“Temos a preocupação de divulgar o máximo a aldeia, utilizar produtos de cá e fazer preços acessíveis e apelativos. E queremos manter a qualidade, servimos produtos caseiros. Queremos que as pessoas se sintam bem recebidas e com isso voltem. Quando as pessoas voltam, significa que estamos a trabalhar no bom sentido”, disse Bruno.

Já o pai, Carlos, afiança que não há nada mais satisfatório que ver cumprir-se o desígnio para o qual foi fundada a associação: animar as gentes da terra e contribuir para o seu desenvolvimento.

“Temos gosto em que melhore, e vá para a frente. Tem-se mantido o nível de festa”, disse Carlos, assegurando que nos arredores “não existe festa que meta tanta gente como esta, é uma loucura”.

 

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