“Vidente de Fátima” absolvido do crime de burla

“Vidente de Fátima” absolvido do crime de burla. Foto: DR

O Tribunal de Ovar absolveu do crime de burla o homem que se autointitula “vidente de Fátima” num processo em que era acusado de ter cobrado 4.000 euros a um cliente que dizia ter sido enganado. Durante a leitura da sentença, que decorreu na quarta-feira e na ausência do arguido, a juíza disse que os factos narrados na acusação para sustentar a acusação de burla “foram dados como não provados”.

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“Não resultou provado que quando o arguido foi contactado pelo ofendido e, após este relatar os problemas de saúde, tivesse garantido que a sua doença não passava de uma maldição, prometendo uma cura”, disse a magistrada.

A juíza citou ainda um acórdão da Relação do Porto que refere que “na sociedade do mundo Ocidental, do século XXI, é do conhecimento geral, que os factos, os acontecimentos surgidos na vida de todos e cada um, tal como os fenómenos naturais, não são resultado da ação de espíritos nem forças negras e que o ser humano, enquanto unidade biopsíquica, não faz milagres, não é dotado dos poderes sobrenaturais que só existem no mundo da fantasia, descritos nos contos infantis, de todos conhecidos”.

À saída da sala de audiências, o advogado do arguido mostrou estar “bastante” satisfeito com a decisão proferida pelo tribunal singular.

“O tribunal soube distinguir de uma forma exemplar entre o plano da espiritualidade, das convicções religiosa e da fé que cada um pode ter, do mundo jurídico e, portanto, do processo penal, das regras criminais, que não podem ser perturbadas pela convicção religiosa de cada um”, afirmou Pedro Teixeira.

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Além deste caso, o advogado disse que havia mais pessoas que diziam ter sido burladas pelo seu cliente, desconhecendo, no entanto, se existem mais processos pendentes.

O processo que foi julgado agora teve início numa queixa apresentada por um homem de 61 anos, residente em Ovar, que diz sofrer de esclerose múltipla e que contactou o arguido para “tentar obter alguma melhoria”, uma vez que os tratamentos médicos não estavam a fazer efeito.

“Ele disse-me que eu tinha uma grande maldição e enquanto isso não fosse tratado a minha filha também iria sofrer muito. Aquilo tocou-me”, disse o ofendido, que pagou 50 euros pela consulta e 4.000 euros, para o arguido dar início ao tratamento.

foto mediotejo.net

Perante o tribunal, o arguido assumiu apenas que o que ficou combinado foi “um acompanhamento humano”, afirmando que o dinheiro entregue pelo ofendido foi para mandar rezar uma missa todos os dias durante um ano, além de orações e produtos naturais.

“Quanto a uma cura isso não foi falado lá, porque eu não sou santo. Eu trabalho através da espiritualidade e de produtos naturais”, disse o “vidente”.

Acrescentou ainda não haver uma cura para o problema do ofendido e que aquilo que sempre foi dito é que “ele poderá ter uma qualidade de vida muito superior àquilo que tinha atingido até ao momento”.

O “vidente”, que chegou a ter locais de atendimento em Fátima, Aveiro e Porto, difundia a sua atividade através da rede social Facebook, na rádio e em painéis publicitários, onde se referia a si próprio como sendo “uma caneta de Nossa Senhora” e anunciando que os seus dons e o seu poder têm mudado centenas de vidas, publicitando ainda imagens alegadamente suas em que se apresenta com evidentes semelhanças físicas com a imagem mais popular de Jesus Cristo.

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1 COMENTÁRIO

  1. Que pena que as pessoas pensam que a graça não é de graça e pagam fortunas para serem enganadas! Aqui trabalha-se com a esperança. Era mais barato e rendia mais tentar a sorte em raspadinhas! Quem conhece sabe, não compactua nem diz o que sabe. São artistas. Não têm nenhuns dona se não os de enganar. Quanta coisa boa poderia ser feita com esse dinheiro!

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