“Velho Casola”, por Berta Silva Lopes

Foto: Pixabay

Em 2011 perdi o meu avô. O primeiro. Foi no dia do seu aniversário, numa manhã luminosa de primavera, depois de várias semanas de incertezas e angústia, estava eu grávida da minha primeira filha. “Quando uma alma chega a este mundo, outra tem de partir”, diz um provérbio caribenho.

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Nesses dias de primeira vez, às voltas com sentimentos novos, pesar e alívio, há que dizê-lo, decidi escrever-lhe uma carta (à minha filha, não ao meu avô, a quem julgo não ter deixado nada por dizer, a não ser que ia ser bisavô) – para lhe contar quem fora este homem e a sua história, e ao mesmo tempo recuperar as memórias da família, irremediavelmente mais fragmentadas e distorcidas a cada dia.

Uma carta que pudesse ir lá atrás, ao tempo da Guerra, do medo, da fome e da miséria, muito antes dos dias em que, de barriga cheia, juntos percorríamos as veredas da Amarela e do Porto Largo, ele espreitando os canecos da resina, eu enchendo os bolsos de pinhas e maçãs pequeninas.

Planeei linhas inteiras sobre o tempo roubado às sestas a escolher melancias, a tentar adivinhar-lhes a qualidade pelo toque da casca e a retalhá-las – grandes, pequenas, bonitas, feias, sem listras, riscadas –, a limpar a boca e o queixo com os braços, a improvisar um concurso de cuspir pevides, a molengar sobre os juncos frescos do monturo ou debaixo da figueira grande.

Mas era pouco, faltava o antes, e o antes do antes, era preciso recuperar as vidas da sua gente, saber quem foram, que lutas travaram, que sorrisos guardam as fotografias perdidas dentro das caixas de sapatos, talvez descobrir segredos e enredos.

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Esbocei uma árvore genealógica, fiz um rascunho, apontei nomes. Fui pesquisar, fiz perguntas, tomei notas. Tantos anos, tantas vidas. Talvez comece pelo fim, há uma certa ordem nesta inversão, uma espécie de provocação da morte à vida.

Começo mesmo pelo fim. O meu avô tinha os olhos pequeninos, as sobrancelhas gigantes e as mãos calejadas. Não era alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem cabeludo nem careca. Quem se cruzasse com ele não podia adivinhar que no sítio do coração tinha um suspiro, verdade, todo feito só de açúcar. Era infinitamente paciente e bondoso, e ingénuo. Certo dia, a jogar às cartas, roubaram-lhe o ás de trunfo e ele nem viu! – contou-me um velhote.

Demorei anos a reconstruir um século, a desfazer nós e a ligar pontas. A abrir arcas antigas e a vasculhar o baú das memórias. A escrever, a editar e a rever. Manias de quem trabalha com livros. Acabei há dias.

Esta não é a tua história, meu amor, é antes a do velho Casola, teu trisavô, contrabandista e negociante de gado, não o julgues já, e da sua Senhorinha mais as suas meninas, que rapaz só teve um e este era quase como elas aos olhos do pai. Na candura igualava as irmãs, no jeito para os negócios superava-as – não tinha nenhum. Falo do teu bisavô, pai da avó A., nascido faz hoje precisamente 90 anos. Esta é a história dos seus pais, das suas irmãs e dele. Eis a saga familiar que nos trouxe até aqui.

A minha filha faz em breve oito anos e talvez espere outro presente no seu próximo aniversário, mas, coitada, calhou-lhe esta mãe, sempre sedenta de histórias, de curiosidades irrelevantes, de saudades tontas. A carta está escrita e, pois bem, vai ser o seu presente de anos.

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