“Vamos tomar conta da natureza”, por Carlos Alves

Foto: Carlos Alves

Tudo é silêncio.

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Tenho as mãos secas, próprias de uma solidão que angustia o mais pesado e longo ruído incessante da vida. A tranquilidade da paisagem, a voluptuosa sensação do nada, incrementa em mim uma sensação lânguida que parece não ter cura, galopando descompassadamente como um vórtice perturbador que emana através de forças misteriosas e fecundas do silêncio, geradas pelo espírito enfastiado.

Que paisagem tímida e desconcertante, em que o sol nem consegue incendiar o espaço pardacento que se mistura com a bruma azul acinzentada. A terra parece medíocre e nem a ilusão das vozes dos pássaros prolongam a ilusão da madrugada. Sente-se um prazer mofino, uma turva de desfalecimento, uma terra sem forças em que os cantos dos rios parecem exaustos. O caminho que se aproxima é barrento, pegajoso e húmido, cheira a lama e estrume. Ao penetrar nesta visão esquelética, traço estranhas e disformes visagens que estuam qualquer um para a vida e infecundam para o amor.

Mais à frente cresce livre a erva com touceiras de mato rasteiro e junto a si jazem os túmulos dos senhores e de escravos, aviltantes pela morte e pelo esquecimento. Continuo a mover-me dentro desta paisagem onde as forças da vida parecem estar paralisadas. Uma estranha névoa cobre agora todo o espaço circundante e torna-se mais densa, como que sobrecarregada por uns olhos tristes de amargura, refletindo uns gestos tardos e incertos, como que perdidos no vácuo. Mais um opressivo silêncio que se sente, mais um resmungo inócuo e sorumbático que estrugiu no horizonte. Os caminhos que se alargam e que aparecem desconhecidos, infinitos e incertos fazem rolar fumegantes raízes que rolam por cima de pedras amontoadas mugindo sons estridentes, como águas revoltosas que reverberam a luz do sol, como um vacilante espelho.

O olhar espraiado da paisagem domina agora a imensidão da natureza e carrega apertada, a filha do sol e das águas, pujante na sua cor, cheia de claridade, que liberta o seu musgo ardente e fortificante como franjas de prata, enfileirada em frente ao rio, como um jardim monótono, sem árvores que sombreiem. É uma monotonia austera que não conhece os prazeres das plantas e das flores. Uma esterilidade rigorosa e sistemática estampada no perfil da natureza e uma angústia emanada da aridez que turba qualquer graça, vinda de uma planície descampada e risonha, ou de um mato verde e raso, e provoca um delicioso instante de êxtase.

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Que assimetria fustigante dilacera airosamente os meus estímulos, pesados como um tropel de cavalaria, cujas vibrações sonoras me impedem de fortalecer o meu espírito selvagem! O ar límpido e seco, o verde fulgurante nas suas cores matizadas, o rio por entre os vales, apresenta um panorama enlevado, que cobre docemente a terra transmitindo uma paisagem de confiança e grandeza, com temerosa energia, de uma beleza transcendental, forte e colorida que reflete em mim encanto, com os seus chorões curvos e borbulhantes que hei de amar até à paixão.

O espaço cheio de sons, o ar leve que nem uma pena que flutuava como se estivesse impregnado de música, a harmonia da terra que voava para os céus cantando…

E eu sonhava, ouvindo repicar, procurando a calma, o sono e o esquecimento. Que sobriedade, que encanto esta paisagem incute na alma dos transeuntes que suportam com facilidade a beleza que resplandece com graça e adorno, uma infinita variedade de árvores, arbustos, um imenso chão verde e uma opulenta, ampla e atrevida variedade de flores belas e carinhosas. E tudo se ergue, e tudo se expande sobre a terra, compondo um conjunto brutal, enorme, feito de membros aspérrimos, entretecido no alto pela cabeleira basta e densa das árvores, em baixo pela rede das indomáveis raízes. E aquela luz zodiacal e docemente infinita que se desprende misteriosamente como um aroma que adormece e acalma. Um perfume que é acre e gotejante, tão sereno que parece eterno.

Aqui, o espírito é esmagado pela estupenda majestade da natureza. Nós dissolvemo-nos na contemplação, difundindo na alma a combinação da harmonia com a liberdade, carregando admiração que nos há de fazer esquecer as agruras do passado ou dos cuidados futuros. E é este mortório que nos deve levar à felicidade pela hipnose com que a nossa consciência adormece. Atravessar o mundo em silêncio, viajar dentro de mim próprio, como um carro de ouro levado pelos cavalos ardegos da imaginação e transportado pelos caminhos deslumbrantes da natureza e chegar ao desvario do bem-estar infinito e da beleza imortal.

Obrigado natureza! Agora sou outro homem. O amor dentro de mim sorri, ampara-me e um bem-estar incontável nunca mais me deixará. O meu amor fará gerar outro amor que me ligará aos espíritos, que me fará dissolver no espaço universal e deixar que toda a essência da minha vida se espalhe por toda a parte, penetre nas moléculas, como uma força de indulgência.

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